ADEUS, MOREIRA

Por Nestor Mendes Jr.

Antonio Moreira da Silva, o Moreira, partiu ontem, aos 72 anos, da Bahia para um outro porto, de outra dimensão. Foi-se mais um pedaço da velha cidade da Bahia inzoneira, sestrosa, poética, cayminiana e amadiana. Dessa cidade ainda guardada nos cartões do Tempostal, nos sambas de Batatinha e Edil Pacheco, nos textos de Tasso Franco e Jolivaldo Freitas, na poesia de Florisvaldo Mattos e no espírito dos baianos que ainda fazem questão de se manter gentis e hospitaleiros.

Com o seu irmão Chico, sucedeu ao pai, Moreira, no restaurante “Casa de pasto e espírito Porto do Moreira”, a princípio no Mucambinho e, por último, no Largo das Flores. Mais do que um espaço gastronômico, de delícias por Deus esculturadas, o Porto do Moreira é uma espécie de mistura de Senado com Casa de Tolerância – embora aquele não faça justiça à decência desta.

“Senadores” discutem ali a poluição do planeta, as querelas entre o prefeito e o governador, a contratação do treinador do Bahia, a gravidez de Ivete, o último chifre dado de “com força” em uma cabeça coroada – com o perdão do trocadilho. Tolerância em homenagem às putas – musas da predileção de Moreira – e para destacar a diversidade de sexos, raças, classes sociais, religiões e ideologias dos que frequentam o Moreira.

Carlistas, waldiristas, petistas, xiitas, coxinhas, devotos, ateus, crentes, letrados, iletrados. Do repasto do Moreira servem-se todos.

Jorge Amado, Glauber Rocha, João Carlos Teixeira Gomes, Ary da Mata, Jorge Portugal, Florisvaldo Mattos, Humbertinho Sampaio, James Correia, Dultra Cintra, Paolo Marconi, Edil Pacheco, Alberto Freitas, João Paulo Costa, Paulo Gaudenzi, Cristóvão Rios, Tasso Franco, Carlos Navarro, Alberto Oliveira, Armando Lemos, Roque Mendes, Benito Gama, Paulo Bina, Jorge Ramos, Gerson Gabrielli, Zé Américo Moreira da Silva, Washington Souza Filho, Fernando Vita, Valmar Hupsel, Marco Hulk, Roberval Foca Luânia, Vicente Pinga, Manoel Castro, Getúlio Soares, Fernando Santana, Carlos Coqueijo, Isidro do Amaral Duarte, Antonio Menezes Filho. A lista é longa. E interminável…

Caetano Veloso gosta da “Moqueca de Miolo”, para relembrar Dona Canô; Carlos Libório degusta o “Carneiro Assado”; o ministro Peçanha Martins devorava a “Galinha ao Molho Pardo”.

Mas tolerância, especialmente, era o que Moreira não possuía. Contrariava, sem pudor, a regra básica do comércio: “o freguês tem sempre razão”. Ali, nunca! Quando a casa estava cheia, ele ficava indócil. Quando alguém reclamava da conta, ele bufava. E por tudo isso – e acho que até por causa disso – todos o adoravam. Nós o amávamos.

A Ian, meu filho, ainda pequeno, em companhia de meu afilhado Tassinho, ensinei a perturbá-lo com a provocação “Moreira, ladrão!”. Ele ria, até que um dia fez um discurso no restaurante: “Eu não sou ladrão! Sou comerciante, mas todo comerciante é ladrão”…

Era assim Antonio Moreira, que sabia todas as fofocas – dos palácios e do submundo. Um coração gigantesco, maternal, mas que gostava de uma pilhéria, de uma provocação, de uma boa discussão.

Capaz de parar na CardioPulmonar por causa de uma querela a respeito do preço do Cointreau, mas que não deixava ninguém pagar um centavo quando fazíamos uma farra com ele fora do Porto.

Meu coração está mais vazio. Vou continuar indo ao Porto do Moreira comer uma “Rabada” ou uma “Moqueca de Carne”, mas naquela mesa – da “Diretoria” – estará faltando ele, como no samba de Sérgio Bittencourt, imortalizado por Nelson Gonçalves: “Naquela mesa tá faltando ele/e a saudade dele tá doendo em mim”.

Adeus, Moreira. E muito obrigado!

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