CONTEÚDO, MEU REI!

Por Aninha Franco*

 

 

Você está pobre agora, mas pode ganhar na mega sena da virada e será milionário na próxima semana. Você está desempoderado agora, mas se descobrir um discurso político, um “pior não fica” de Tiririca ou um “nóis contra eles” de Lula, chegará ao Poder sem a menor condição de ser político e se aproveitará disso longamente. Você só não pode ganhar conteúdo na mega sena ou inventar que tem conteúdo sem ter, o patrimônio mais sólido de um humano porque nunca desmancha no ar.

Ok que no Brasil quem tem conteúdo e depende dele pra sobreviver está frito. Mas isso define a situação do Brasil. Só num país sem conteúdo um condenado por corrupção faz campanha para voltar ao Poder que o condenou e um presidente da República continua no cargo depois de duas denúncias concretas por corrupção. O Brasil sabe o que significa corrupção, definição que se guarda se há conteúdo, patrimônio construído ao longo de décadas de humanização, a partir da infância? Poucos brasileiros. A humanização, conhecimento das criações humanas em outros momentos e culturas, desde que os Sumérios criaram o alfabeto para registrar a contabilidade, e registraram o poema Gilgamesh, é rala no Brasil.

Constrói-se conteúdo conhecendo a poesia de Homero e as obras da Filosofia e Dramaturgia gregas, Platão, Aristóteles, Sófocles, Eurípedes. Como pensar empoderamento feminino sem ter lido Antígona e Medeia algumas vezes? Como desfrutar hedonisticamente do prazer desconhecendo Petrônio e Cícero? Lendo Os 120 Dias de Sodoma de Sade, aos 19 anos, recebi uma aula precisa sobre a espécie humana. E como ter conteúdo não basta, e é preciso saber usá-lo, lembro que disse ao meu professor francês, na Maison de France, nos Anos 1970, que ele falava demais de Napoleão Bonaparte, mas do Marquês de Sade, mais interessante, ele jamais falava, e fui expulsa da sua sala de aula para sempre. – Pour toujours! Lembro dele gritando.

Fui embora da Maison de France e continuei construindo conteúdo noutras plagas. Li os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido de Proust e quase tudo de Huxley nas aulas de Direito da UFBA. E como era difícil ter esses livros na época! Quando comecei a ler Hannah Arendt n’As Origens do Totalitarismo, a edição em três volumes da Ed. Documentário, de 1975, ainda, e encontrei a continuadora dos gregos no século 20, fui atrás de tudo que ela escreveu.

O conteúdo, construção diária e pessoal que ninguém pode fazer por ninguém, fortalece o coletivo, por isso o conteúdo é combatido com veemência pelos colonizadores. E por aqueles que não o têm. Porque quem tem, tem, quem não tem, nunca terá. E as diferenças entre os que têm e não têm são gritantes. Daí os ataques. Milhares de pessoas morreram para proteger o conteúdo. Na Rússia, o conteúdo produzido para denunciar Stálin foi memorizado nos cérebros, porque nenhuns outros lugares eram seguros. O romance O Mestre e Margarina de Mikhail Bulgakov foi guardado no cérebro do autor até o dia da revelação.

A qualidade depende do conteúdo. A qualidade da democracia ou do cardápio de um restaurante dependem do conteúdo. Sem ele, um político ou um Chef podem ter qualidade, mas seus resultados serão sempre naifs. Ou inúteis. Ignoro quando o Brasil, um país sem conteúdo e alheio à Memória, à Arte e à Política mudará sua construção, mas é o que lhe desejo em todas as translações do Planeta Terra: Em 2018, Conteúdo, meu rei!

*Aninha Franco é escritora, pensadora, poeta, dramaturga, crítica, advogada e ativista cultural.

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