A LITERATURA DE ZÉ AMÉRICO CASTRO

por Emiliano José*

 

 

 

Devo dizer de pronto, na cara de quem começa a ler, que Paulão e Zé Américo escolheram errado. Não tenho talento, vocação, muito menos tino, para fazer um prefácio para um livro que combina poesia e prosa, verso e letra corrida, realidade e ficção.

Justo eu, que nunca topei o mundo da palavra rimada, bem encadeada, que nunca me dei ao luxo de construir personagens, por falta absoluta de imaginação e preparo.

Mas vá lá que seja, que pedido de amigo a gente não nega, quanto mais a Zé Américo, amigo.

Amizade, quem há de negar que esse diabo de sentimento é superior a todos os outros? Não foi Caetano, com suas diabruras ao cantar, que disse isso? Sei não, chega a dar tremedeira falar de um livro assim. Dá vontade de dizer que é uma beleza – ver um sujeito pegar a falar de sua terra, como se falasse da mulher que ama.

Parece que a gente sente o cheiro de Ipiaú quando lê. As letras têm gosto de terra, geradas no ventre da agonia, tormento da fome, Josué de Castro, quem sabe Euclides Neto, fontes primárias. E são letras de espantar, porque pode se topar com lobisomem dançando alegre em riba da ponte.

Letras que buscam Corisco, Lampião, Lamarca, Conselheiro, todos esses loucos sonhadores, entrevistos naquele tiroteio de jagunços, que acabaram cansados de tanto atirar e que depois pararam para ver o moço que não cansava de sonhar.

E as letras vão caminhando, procurando pelo jequitibá, assuntando pra ver se encontra o jacarandá, se acha a jaqueira, se reencontra a erva cidreira nesses tempos de destruição. Será que vem de Lorca, de verde que te quero verde?

É um canto este livro, um canto no meio da feira, no meio da festa, e que tem um desejo quase obsceno de tão insistente: o desejo da igualdade. De uma sociedade mais justa, mais livre, mais amante.

Amada amante, a que aparece cheia de sensualidade nas noites de lua cheia, que chegavam arrebanhando pecados e prazeres.

Ah, como eram lindas as moças de Ipiaú, que beijavam distraídas, e depois balançavam a cabeça numa tímida negação e rezavam envergonhadas, mesmo que plenas de prazer.

E há o Cine Éden, cine paradiso de Zé Américo, melancolia de um tempo que não volta mais, poesia do cinema, portal das maravilhas que todos nós vivemos.

É um canto este livro. Um encanto. Um encantamento. Um modo de conhecer Ipiaú. O modo particular de Zé Américo ver sua terra. De reconhecer sua gente. De voltar à infância perdida.

Ele não voltou a Ipiaú em vão. Voltou para dar-se a ela. Por inteiro. De corpo e alma. Muita alma. Coração em brasa, espírito de poeta e de guerreiro. Indignação e paixão.

O artista é grande quando canta a sua aldeia. E é o que ele faz aqui. Seria tão bom, se o seu povo reconhecesse esse seu filho tão sensível. Tenho esperança e que o fará.

*Emiliano José Da Silva Filho é um político brasileiro (ex deputado, estadual e federal, jornalista, escritor e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia. O texto acima é o prefácio do livro PORTAS DO EDÉN.

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