Archive for Janeiro, 2018

ARTE E CULTURA EM IPIAÚ: CASARÃO DE ZÉ AMÉRICO EM AGITAÇÃO NESTE SÁBADO

Dança teatro, poesia, cantoria e outras manifestações das artes cênicas, incluindo capoeira e maculelê  marcarão “A Noite Cultural” do Fórum de Cultura da Bahia”, que acontece  neste sábado, 20, no Casarão de Zé Américo, em Ipiaú. A cantoria, com variados gêneros musicais, ficará a cargo de Clara Sena, Larissa Souza (foto), Brendo Lee, Marcio Barreto, Vicente Andrade, Samuel, Alisson, Mateus Felix e Ricardo Santana. O espetáculo segue com quatro cenas teatrais de Andressa Menezes, Dinho Coelho, Carlos Henrique, Caio Braga e Tainan Galdino, enquanto  a dança  se mostrará através das  coreografias: “Sorria você está na Bahia”, de Elcinho e Kalissa, e do Grupo Enigma,dirigido por Edmilson.

As atrizes  Caroline e Mariana Nogueira,  são interpretes da cena da peça  “Saudade –  A  beleza que faz sofrer”, de Andressa Menezes.  A poetisa Lurdinha Bezerra estará no palco declamando versos de alta qualidade, enquanto a capoeira e maculelê serão apresentados pelo pessoal do Arte Modelo. O evento objetiva a articulação e mobilização territorial da sociedade civil e do poder municipal para fortalecimento da cultura do território de identidade.

No dia 21, domingo, acontece no centro Paroquial Padre Xavier, Bairro da Conceição, um debate sobre a alteração da Lei do Fundo de Cultura da Bahia e as eleições de novos membros para o Conselho Estadual de Cultura, além  de oficinas de dança, teatro, poesia coletiva e elaboração de projetos. Tudo isso faz parte do projeto “Diálogos do Fórum de Cultura da Bahia”. (Giro/José Américo Castro).

A BELA DA TARDE, AOS 74

Por Demetrio Magnoli* 

 

viaAninha Franco**

Meio século, duas vezes. Em maio de 1967, estreou em Paris o filme “Belle de Jour”, de Luis Buñuel, a história da burguesa frígida Séverine que consumia suas tardes trabalhando num bordel. Em janeiro de 1968, emergiu em Nanterre, Paris, a figura de Daniel Cohn-Bendit, indagando ironicamente se um relatório oficial sobre a educação francesa abordava o tema da vida sexual dos estudantes universitários. Hoje, finalmente, cem mulheres disseram “basta!” e denunciaram as neofeministas por almejarem censurar “Belle de Jour” e cancelar a revolução sexual dos anos 60. Apropriadamente, as cem que assinam a carta aberta são francesas — e, melhor que tudo, Séverine (digo, Catherine Deneuve) é a mais conhecida entre as signatárias.

Séverine — linda, distante, gelada — recusava ser tocada por Pierre, seu marido suave e respeitoso. O ponto de fuga de sua jaula asséptica era o bordel ou as violências de um Pierre imaginário, convertido em fidalgo depravado. As saídas por baixo (pelo mundo da sarjeta), e por cima (pelo desaparecido mundo amoral da aristocracia), a conduziam ao desejo, ao gozo e à liberdade. No fim, descobrimos que as tardes da bela da tarde talvez não fossem mais que sonhos. E daí, se o gozo era real?

Deneuve assina a carta aberta para proteger o direito de Séverine sonhar. As neofeministas não têm nenhum problema com a tradição patriarcal ou o machismo. Elas querem, de fato, anular o desejo. A mensagem das cem francesas é que as mulheres não precisam de códigos fundamentalistas de conduta coletiva, da conspícua proteção do Estado, do leito hospitalar reservado às vítimas. Elas estão dizendo que são adultas e sabem cuidar de suas relações pessoais. Que, nesse âmbito, tudo que não é crime pertence à esfera privada. Que a sedução e o galanteio não são crimes. Viva Séverine!

Nos feriados, os prontos-socorros se enchem de mulheres pobres espancadas por maridos bêbados. Nas penitenciárias femininas, as detentas são regularmente abandonadas por seus familiares, que jamais as visitam. E, contudo, o movimento #MeToo, das jihadistas do feminismo pós-moderno, consagra seu tempo a nomear e difamar homens que, anos ou décadas atrás, ousaram pousar a mão no joelho de uma mulher avessa ao seu jogo de sedução. As cem francesas, indignadas com a campanha inquisitorial, provam que o espírito humano vive e resiste. A turba neofeminista não esperava por essa. Agora, as fabricantes do chavão iracundo terão que confrontar o argumento denso, o peso da crítica precisa.

Puritanas — eis a hashtag que as cem francesas colaram às feministas de araque que não aceitam as implicações da revolução sexual. O Cohn-Bendit de janeiro de 1968 ainda não era o “Daniel Le Rouge” do maio das barricadas, mas antecipava as desconcertantes pichações que cobririam os muros do Quartier Latin. Ele queria, na reunião com o representante do Ministério da Educação, o fim da rígida separação entre dormitórios masculinos e femininos nos campus universitários. A revolução sexual foi, antes de tudo, um movimento pela igualdade de direitos entre cidadãos adultos. Sua premissa implícita era que as mulheres não são o “sexo frágil”. Daí decorre que as mulheres assumem as responsabilidades que acompanham a liberdade. As novas puritanas histéricas obrigaram as cem francesas a sair em defesa desse valioso conceito anunciado há meio século.

Deneuve tinha 23 anos quando interpretou Séverine. Imagino o sólido tédio com que, aos 74, leu e ouviu as sentenças ressentidas, rancorosas, odientas, das puritanas disfarçadas de feministas. Puritanas incultas — eis a hashtag completa que a carta aberta associa às militantes da repulsa ao sexo. Sob a insuportável gritaria delas, um nu clássico foi removido do metrô de Londres. As artes, o cinema, os livros e as relações interpessoais cotidianas são os alvos da nova inquisição, que condena sem processo por meio de campanhas difamatórias nas redes sociais. As cem francesas estão nos alertando para o valor da liberdade individual e para o significado das palavras tolerância e diversidade. Elas temem, com razão, o advento de um mundo congelado, paralisado pelo estrito código normativo das Séverines que abdicaram de sonhar.

A geometria política do conflito nada tem de aleatório. O neopuritanismo descontrolado espraia-se, previsivelmente, a partir dos EUA. Na ponta oposta, a carta da resistência emerge na França — o país que, sem escândalo, assistiu ao enterro de um presidente ao qual compareceram tanto a viúva oficial quanto a informal, que era a amante. A força da carta encontra-se não só na sua qualidade intelectual intrínseca, mas no precedente que estabelece. Se as cem francesas insurgem-se contra as ferozes militantes do obscurantismo, por que não eu? Agora, as mulheres comuns já podem dizer, alto e claro, que rejeitam o figurino redutor de vítimas eternas.

Deneuve não é mais autora do que as outras 99 signatárias. Mas é justo que apareça como ícone da resistência: ser Séverine tem consequências.

*Demétrio Magnoli é jornalista e sociólogo

**Aninha Franco é pensadora, escritora, poeta, advogada, dramaturga e ativista cultural

MATÉRIA DE GABEIRA MOSTRA CRISE NA REGIÃO CACAUEIRA DA BAHIA

Por José Américo*

 

Durante dois dias seguidos o jornalista Fernando Gabeira esteve na região sul da Bahia colhendo informações e imagens para uma reportagem que será veiculada no próximo dia 21(domingo), às 18:30 horas, em seu programa no canal por assinatura GloboNews.

Tive a oportunidade de entrevistá-lo na Fazenda Santa Maria do Jenipapo, de Edvaldo Bruni, no município de Ibirapitanga.

Falamos de jornalismo, política, literatura, ecologia e outros assuntos, mas, neste texto, priorizei o motivo da sua visita à região e os assuntos que estarão na pauta do programa.

Aspectos ambientais, econômicos e sociais serão abordados na matéria de Gabeira cujo principal foco é a prolongada crise da cacauicultura regional , suas causas, consequências e possibilidades de soerguimento.

Muitas fontes foram consultadas por ele. Uma das principais foi o documentário cinematográfico “O Nó”, dirigido pelo ipiaúense Dilson Araújo que defende a tese de que a doença conhecida como “vassoura-de-bruxa”( Moniliophtera perniciosa) foi criminosamente disseminada na região. Um ato deliberado de terrorismo biológico.

Cenas de “O Nó” e provavelmente uma entrevista com Dilson serão mostradas no programa.

A questão do desmatamento das “cabrucas”, substituindo-as por pastagens de gado bovino, o desaparecimento de nascentes, indícios de desertificação em algumas áreas da zona cacaueira, o desemprego, o êxodo rural, a crescente criminalidade nos centros urbanos, foram outros aspectos que chamaram a atenção do celebre jornalista.

A introdução da doença vassoura-de-bruxa na zona cacaueira da Bahia aconteceu no final da década de 1980, desencadeando uma ação devastadora que foi acentuada por quedas do preço do cacau no mercado internacional e estiagens prolongadas como a verificada no ano de 2016.

Ao entrevistar o engenheiro agrônomo José Roberto Benjamim, Fernando Gabeira tomou conhecimento do malogro da orientação governamental no combate à doença, fato que potencializou a crise.

O olhar de Gabeira não viu só desastres. Também se voltou para a exuberância da Mata Atlântica e do cacau-cabruca, sua biodiversidade, os projetos preservacionistas e ações regeneradoras.

Ele constatou que homens de boa vontade como Edmond Ganem, Edvaldo Bruni, Victor Becker, dentre outros, que se dedicam à preservação da biodiversidade e ao reflorestamento, reacendem a esperança de melhores dias na região.

Em Ilhéus, Gabeira conheceu uma plantação de cacau consorciada com pau-brasil e no município de Camacan ficou encantado com a reserva Serra Bonita, “uma pioneira e inovadora iniciativa privada de conservação de florestas no sul da Bahia”.

Trata-se de um condomínio que se estende por 2.500 hectares contendo varias RPPNs (Reservas Particular do Patrimônio Natural). A experiência tem recebido prêmios internacionais.

Outros detalhes observados por Fernando Gabeira e registrados pelo cinegrafista Mauricio de Souza serão mostrados no primeiro programa que a dupla gravou neste ano de 2018.

Com essa reportagem o Brasil conhecerá os impactos do terrorismo biológico do cacau e a tentativa de soerguimento de uma das regiões de maior riqueza, biodiversidade e beleza do planeta.

“A região sofreu. Tenho a impressão de que ainda não se recuperou dos impactos que lhe trouxeram dificuldades, mas ela tem potencial de superar tudo isso”, concluiu Gabeira.

*José Américo Castro é jornalista, poeta e escritor

Nota do Editor: Parabéns, Zé. Primeiro pelo profissionalismo. Alguém que, como repórter independente, investe recursos pessoais para ir em busca da informação, da melhor entrevista, do melhor ângulo, extraindo a melhor cepa para lavrar a notícia, unicamente pelo dever da difusão. Segundo, pelo texto conciso e claro, cuja leveza faz sempre a diferença, mesmo em se tratando de tema tão grave para a nossa região e tão cruel para o nosso povo. Que ao levantar o assunto, o respeitado jornalista Fernando Gabeira, de tantos exemplos edificantes e corajosos em sua vida pessoal, possa contribuir para o esclarecimento do episódio e a punição dos culpados. Grande abraço.

NÃO É HORA DE SALVAR PESSOAS E SIM O PAÍS

Via Iracema Carneiro

 

Dr Hélio Martins, juiz da comarca de São João del Rei(MG) recebe um convite do deputado Reginaldo Lopes do PT para o lançamento de Lula/ 2018 e diz, em resposta ao deputado acima, o que todos os cidadãos brasileiros deveriam dizer: 

“Exmo. Senhor Deputado Reginaldo Lopes, em que pese o profundo respeito que tenho pela atuação parlamentar de V. Exa., não é hora de lutar para salvar pessoas, mas sim o País, atolado no caos econômico, na recessão, no desemprego, na violência e na vergonha internacional onde agentes políticos e públicos protagonizam o maior caso de corrupção de que se tem notícia na história da humanidade.
Quero, como tantos outros brasileiros com capacidade de discernimento e compreensão, que se faça justiça!!!
Que todos aqueles que se apropriaram de recursos públicos paguem por tão grave crime, além de devolver o que indevida e criminosamente levaram, privando o cidadão de saúde, educação, segurança, infraestrutura dentre outros. Todos, indistintamente, como republicanamente deve ocorrer, sejam do PT, do PMDB, do PSDB ou de qualquer outro partido político devem responder pelos crimes cometidos. Lugar de ladrão é na cadeia!!!
Lula foi processado, julgado e condenado no primeiro processo, sob a égide dos princípios constitucionais do devido processo legal e da ampla defesa.
Sou juiz de primeira instância, ou de piso, como gostam de dizer. Juiz de carreira, com muito orgulho! Submetido, como em todos os concursos públicos para membros da Magistratura e do Ministério Público, a provas de conhecimento de elevadíssimo nível de dificuldade, além de exames psicológicos, e rigorosa investigação social. Aqui não tem princípio de presunção de inocência não, senhor Deputado. Qualquer “ derrapada” na vida social tira o candidato do certame. Não somos escolhidos por agentes políticos. Somos independentes, como manda a Constituição. A Magistratura e o Ministério Público brasileiro, a que me refiro, merece, pois, absoluto respeito!
Desta forma, falar em “golpe” e envolver o judiciário nesta trama é, no mínimo menosprezar inteligência das pessoas.
Me causa total estranheza ver V. Exa. se referir às “elites” como posto em seu texto. Afinal o PT se aliou às “elites” para alcançar o poder. Foram integrantes da ala da “elite” mais elevada deste país que proporcionaram o desvio de dinheiro público em benéfico não só do partido, mas daqueles que já estão condenados ou sendo processados. Basta verificar as doações para campanhas eleitorais passadas. Então a “elite” que abastece de recursos, é a mesma elite “golpista”? Não há uma gritante incoerência na sua proposição? Não há uma incoerência ideológica por parte daqueles agentes políticos e públicos já condenados ou processados, que pregam distribuição de renda, mas se enriquecem às custas do trabalho alheio das “elites” através do achaque? Este comportamento é moralmente aceitável? Para mim isso tem uma definição: bandidagem!
Me desculpe a franqueza, senhor Deputado, mas Lula, assim como aqueles que já estão condenados e aqueles que estão sendo processados, não estão nem aí para o Estado Democrático! De fato querem poder. Só poder. Poder eterno sobre tudo e todos.
E poder a todo custo é sinônimo de tirania! Basta! Basta! Basta!
Quem conhece realmente história sabe muito bem que os criminosos anistiados do passado, não praticaram ações violentas em nome de democracia, mas para imporem o regime que entendiam ideologicamente adequado. Ditadura! Igualmente ditadura!
Ainda que compreenda seu alinhamento político partidário, senhor Deputado, não se permita, em homenagem à sua história de vida, descer ao nível da excrescência das mentiras deslavadas, como as protagonizadas publicamente pelo ex-presidente Lula, e tantos outros, desprovidos de dignidade e decoro, sustentando o insustentável.
Desejo ao senhor e sua família um Ano Novo abençoado.
Que sua luta seja de fato pelo povo e não por pessoas!”

CADÊ A BAHIA?

  1. Por Aninha Franco* Em Trilhas: Correio da Bahia

Há muito tempo que a Baía não recebe tantos turistas antes do Carnaval! Falar nele, cadê ele? Ainda não vi uma propaganda de camarote, um outdoor de estrelas ligadas aos blocos de abadás, e o Carnaval é daqui a um mês. Que será do fulejo de 2018 sem Ivete Sangalo? Carlinhos Brown já avisou, em entrevista a Marrom, que encerra sua participação carnavalesca em 2019. E aí? Apareceu alguém com sua cabeça de parque de diversões? Passamos anos e anos e anos discutindo, comentando e gracejando com a queda do fluxo carnavalesco e não fizemos uma mudança em sua estrutura até que ele virou isso. Logo ele que era aquilo. Ele, o Carnaval da Baía que foi, que era uma outra cidade dentro da cidade durante sete dias, onde milhares de humanos podiam ser alegres ou felizes, dependendo de seus quereres. O Carnaval da Baía que era, que foi, uma convenção anual de prazer que encerrava um calendário de festas prazerosas.

As festas também estão problemáticas. Quatro de Dezembro, de Oyá, mais religiosa que mundana, esteve cheia e bonita em 2017. Mas não houve caruru nem choveu no dia. Choveu depois aquela chuva de Oyá zangadíssima que nós assistimos. E eu soube que Lula participará do Cortejo da Lavagem do Bonfim e que Ciro Gomes deve vir no Dois de Fevereiro de Yemanjá. Políticos não deveriam fazer políticas em festas. Sobretudo políticas mal intencionadas. É cristalino que nenhuma lavagem conseguirá lavar a sujeira de Lula e do lulopetismo. Então, pra que mesmo? Ciro Gomes ofendeu todas as mulheres brasileiras quando ofendeu Patrícia Pilar e vai participar da festa de Yá, a Senhora das Águas?

Que lástima tudo isso! Baianidade e tristeza são antônimos perfeitos, em diversas gradações, iniciadas por um colorido autêntico e elegante, até um lamaçal de cheiros, tons, sons e sabores. Os tons e os sons, os sabores e os odores da Baianidade estão desequalizados e necessitando de muitos reparos. E o primeiro reparo a ser feito numa Sociedade que conseguiu substantivar seus hábitos e criações na Baianidade, é sua Gastronomia. Gastronomia é a primeira Arte e a mais essencial de todas elas. A Itália elegeu 2018 como o ano da comida italiana, que está mais forte na Baía que a Gastronomia Baiana. Por aqui, come-se muito mais spaghetti, risoto e até estrogonofe russo no cotidiano, do que Efó ou Arroz de Haussá. E se uma receita é um algoritmo criado com os ingredientes do entorno, alterar uma receita é como alterar o algoritmo, o poema, introduzindo ou retirando versos de sua criação original.

Conheço estrangeiros que têm mais medo de uma “Moqueca Baiana” do que de um assaltante. Porque numa Moqueca vendida na maioria dos restaurantes da cidade, pode haver um coquetel molotov feito com leite de coco e azeite de dendê pronto para explodir estômagos.

*Aninha Franco é pensadora, escritora, poeta, advogada, dramarurga, crítica, cronista e ativista cultural.

ADEUS, MOREIRA

Por Nestor Mendes Jr.

Antonio Moreira da Silva, o Moreira, partiu ontem, aos 72 anos, da Bahia para um outro porto, de outra dimensão. Foi-se mais um pedaço da velha cidade da Bahia inzoneira, sestrosa, poética, cayminiana e amadiana. Dessa cidade ainda guardada nos cartões do Tempostal, nos sambas de Batatinha e Edil Pacheco, nos textos de Tasso Franco e Jolivaldo Freitas, na poesia de Florisvaldo Mattos e no espírito dos baianos que ainda fazem questão de se manter gentis e hospitaleiros.

Com o seu irmão Chico, sucedeu ao pai, Moreira, no restaurante “Casa de pasto e espírito Porto do Moreira”, a princípio no Mucambinho e, por último, no Largo das Flores. Mais do que um espaço gastronômico, de delícias por Deus esculturadas, o Porto do Moreira é uma espécie de mistura de Senado com Casa de Tolerância – embora aquele não faça justiça à decência desta.

“Senadores” discutem ali a poluição do planeta, as querelas entre o prefeito e o governador, a contratação do treinador do Bahia, a gravidez de Ivete, o último chifre dado de “com força” em uma cabeça coroada – com o perdão do trocadilho. Tolerância em homenagem às putas – musas da predileção de Moreira – e para destacar a diversidade de sexos, raças, classes sociais, religiões e ideologias dos que frequentam o Moreira.

Carlistas, waldiristas, petistas, xiitas, coxinhas, devotos, ateus, crentes, letrados, iletrados. Do repasto do Moreira servem-se todos.

Jorge Amado, Glauber Rocha, João Carlos Teixeira Gomes, Ary da Mata, Jorge Portugal, Florisvaldo Mattos, Humbertinho Sampaio, James Correia, Dultra Cintra, Paolo Marconi, Edil Pacheco, Alberto Freitas, João Paulo Costa, Paulo Gaudenzi, Cristóvão Rios, Tasso Franco, Carlos Navarro, Alberto Oliveira, Armando Lemos, Roque Mendes, Benito Gama, Paulo Bina, Jorge Ramos, Gerson Gabrielli, Zé Américo Moreira da Silva, Washington Souza Filho, Fernando Vita, Valmar Hupsel, Marco Hulk, Roberval Foca Luânia, Vicente Pinga, Manoel Castro, Getúlio Soares, Fernando Santana, Carlos Coqueijo, Isidro do Amaral Duarte, Antonio Menezes Filho. A lista é longa. E interminável…

Caetano Veloso gosta da “Moqueca de Miolo”, para relembrar Dona Canô; Carlos Libório degusta o “Carneiro Assado”; o ministro Peçanha Martins devorava a “Galinha ao Molho Pardo”.

Mas tolerância, especialmente, era o que Moreira não possuía. Contrariava, sem pudor, a regra básica do comércio: “o freguês tem sempre razão”. Ali, nunca! Quando a casa estava cheia, ele ficava indócil. Quando alguém reclamava da conta, ele bufava. E por tudo isso – e acho que até por causa disso – todos o adoravam. Nós o amávamos.

A Ian, meu filho, ainda pequeno, em companhia de meu afilhado Tassinho, ensinei a perturbá-lo com a provocação “Moreira, ladrão!”. Ele ria, até que um dia fez um discurso no restaurante: “Eu não sou ladrão! Sou comerciante, mas todo comerciante é ladrão”…

Era assim Antonio Moreira, que sabia todas as fofocas – dos palácios e do submundo. Um coração gigantesco, maternal, mas que gostava de uma pilhéria, de uma provocação, de uma boa discussão.

Capaz de parar na CardioPulmonar por causa de uma querela a respeito do preço do Cointreau, mas que não deixava ninguém pagar um centavo quando fazíamos uma farra com ele fora do Porto.

Meu coração está mais vazio. Vou continuar indo ao Porto do Moreira comer uma “Rabada” ou uma “Moqueca de Carne”, mas naquela mesa – da “Diretoria” – estará faltando ele, como no samba de Sérgio Bittencourt, imortalizado por Nelson Gonçalves: “Naquela mesa tá faltando ele/e a saudade dele tá doendo em mim”.

Adeus, Moreira. E muito obrigado!

MORRE AOS 72 ANOS ANTÔNIO MOREIRA, DONO DO RESTAURANTE PORTO DO MOREIRA

Foto Andréa Farias Arquivo Correio da Bahia

Um dos proprietários do restaurante Porto do Moreira, dos mais tradicionais do centro de Salvador, o empresário Antônio Moreira da Silva, de 72 anos, morreu durante a madrugada desta terça-feira (2). A informação foi confirmada à imprensa pela sobrinha de Antônio, Cristina Moreira.

De acordo com Cristina, o tio estava em casa, no Largo Dois de Julho, também no centro da capital baiana, quando faleceu. A suspeita da família é de que ele tenha sido vítima de um infarto.

Segundo o site Bahia Notícias, “… familiares informaram que a namorada de Moreira saiu de casa pela manhã, quando o empresário ainda dormia. Integrantes da família, que trabalham com ele no estabelecimento, estranharam que, com o avançar da hora, Moreira ainda não havia chegado ao espaço, Eles ligaram para a namorada do empresário, e ela pediu ao filho dele que fosse até à casa onde o proprietário do restaurante vivia. Ao chegar ao local, junto a outro familiar, ele encontrou o dono do Porto do Moreira desacordado. Os dois chamaram a equipe de socorro, que constatou a morte do empresário. A suspeita inicial é de que ele tenha sofrido um ataque cardíaco.

“Antônio tem duas filhas, que já foram avisadas da morte dele. Elas moram em outras cidades da Bahia e estão vindo para Salvador. Para a gente, foi um baque”, destacou sua sobrinha.

O restaurante Porto do Moreira, localizado na Rua Carlos Gomes, à entrada do Largo dois de Julho (Mercado das Flores), foi fundado há 79 anos, no dia 7 de setembro de 1938 pelo pai de Antônio, José Francisco Moreira, que era português. O local recebia, habitualmente, os visitantes mais ilustres de Salvador.

Após a morte do José Francisco Moreira, seus filhos, Antônio e Francisco Moreira, passaram a gerir o estabelecimento, famoso não apenas pela excelência do cardápio, mas, também, por ter se tornado ponto gastronômico dos militantes da cultura baiana, preferido por poetas, artistas e jornalistas soteropolitanos. O casal fundador do concorrido local foram personagens dos romances de Jorge Amado, ele próprio, frequentador assíduo da casa, conforme afirma, emocionada, Cristina Moreira, ao tempo em que informa que não há, ainda, informações sobre a data e o local do velório e sepultamento do corpo de Antônio Moreira.

Desde que a morte foi confirmada, por volta de 13h, o atendimento no restaurante foi suspenso. Alguns clientes terminaram de ser atendidos e outros, em consideração, suspenderam os pedidos. O empresário era bastante conhecido e querido pelo público do espaço pela boa relação mantida com a clientela, destacada, principalmente, por boêmios, turistas, artistas e jornalistas

 Informações do Bocão News, A Tarde e Bahia Notícias (editadas).