Archive for agosto, 2017

O INCÔMODO DE NÃO SABER DE ONDE VEM O SOL

Por Josimar Melo

 

Via Aninha Franco

 

Meu primeiro estalo se deu em Fortaleza. Era ainda um jovem universitário que cresceu em São Paulo, entre ruas e prédios que escondiam a natureza. Pela primeira vez passeando no Ceará, precisei de ajuda para encontrar um endereço.

“Pegue aquela rua, caminhe para o poente e chegará lá”, respondeu uma moça que, sem perceber meu olhar atônito, ficou espantada com minha pergunta seguinte: “Mas… pra que lado eu vou mesmo? Onde fica o poente???”.

Eu àquela altura já achava que sabia um monte de coisas sobre a vida, a arquitetura (que eu estudava), as relações humanas… e vi que algo tão básico (na vida, na arquitetura, até nas relações humanas) -ou seja, onde nasce e se põe o sol todo santo dia- era algo de que eu não fazia ideia.

Fortaleza está longe de ser uma cidade pequena. É um centro urbano, não um vilarejo rural onde os influxos da natureza afloram descaradamente a cada árvore da trilha, a cada canto do galo, a cada brisa vespertina.

Mas tem o marzão ali ao lado, o que já seria uma referência geográfica que eu aceitaria com naturalidade.

Da mesma maneira, para quem está em Santiago do Chile é fácil ter noção do norte e do sul, bastando olhar para que lado está a cordilheira (que, especialmente nesse trecho, gentilmente se estende em respeitosa verticalidade em relação aos pontos cardeais, como se fosse um ponteiro de bússola ereto em direção ao norte).

Mas em Fortaleza a simpática jovem não se referiu à orla, ao evidente mar. Ela falou do movimento do sol. Ela utilizou o poente como ponto de referência. E desde então me incutiu esta inquietação na vida.

De onde viemos e para onde vamos não é dúvida que me assalte, mesmo porque a resposta é simples e sempre a mesma (do nada ao nada). Já esta nova questão -de onde vem e para onde vai o sol- nunca mais me abandonou: em relação a nós, a resposta muda, a depender do lugar em que estamos.

A cada cidade em que chego, consulto mapas -onde está o norte? O nascente? Fico invejando cidades como Nova York, em que mesmo as placas de rua já vão desvendando o mistério, cuja resposta já vem embutida nos endereços. Como ninguém nunca pensou nisso em São Paulo? Em Brasília pensaram.

Verdade que na vida prática das grandes cidades isso não chega a fazer muita diferença. Mas alguma faz. Para o arquiteto que eu acreditava estar latente em mim na viagem a Fortaleza, é crucial entender o caminho do sol pelo céu (que muda a cada dia) antes de desenhar um edifício.

Para quem habita as obras já prontas, é importante saber de que lado bate o sol em cada momento, para ajudar a aquecer ou refrescar o ambiente. Mas, fora isso, se não tivermos hortas domésticas, de resto muda pouco saber o movimento dos astros.

E mesmo assim hoje me conforto sabendo. Mesmo caindo nos pequenos truques da geografia, que tento explicar aos pequenos.

Por exemplo, no litoral brasileiro, quantas vezes já não declarei às crianças que, se formos mar adentro em linha reta, chegaremos na África, mesmo que a cada final de tarde o sol se ponha gloriosamente no horizonte do mar à nossa frente (então a África fica no poente, ou seja, a oeste do Brasil??).

Mas os recortes matreiros da nossa costa nunca tiraram a poesia que está tanto na fantasia de sair nadando até o próximo continente quanto no esplendor do pôr do sol sobre as águas.

Pensar na terra girando e no sol transitando na contramão me dá diariamente uma certa e reconfortante ilusão de conexão com a natureza.

Viemos e iremos para o nada, mas, enquanto estamos aqui, seria bom se conectar com o universo. Mesmo quando dentro de casa, imerso num livro, num copo de vinho ou num corpo amado, gosto de pensar que faço parte do mundo lá fora e dos meus semelhantes.

Um mundo no qual, para começar, compartilho pelo menos a verdade universal de que, todo dia, cada dia nasce brilhando aqui desse lado, ó, e morre bem ali. No poente.

*Josimar Melo é jornalista e colunista da Folha de São Paulo.

64ª SEMANA ESPÍRITA DE VITÓRIA DA CONQUISTA

Sob o tema “E a vida continua” acontece entre 2 e 10 de setembro, no Centro de Convenções Divaldo Franco, a 64ª Semana Espírita de Vitória da Conquista. Confira:

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL ADIA JULGAMENTO NO INQUÉRITO QUE ENVOLVE POLÍTICOS BAIANOS

O julgamento do inquérito em que o Ministério Público Federal denuncia políticos do Partido Progressista (PP) foi adiado pela Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça-feira (29). Dentre os denunciados estão os deputados federais baianos Mário Negromonte Júnior, Roberto Brito, e o ex-deputado e conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia (TCM-BA) Mário Negromonte. Os pepistas são acusados de suposto crime de corrupção passiva e lavagem de dinheiro num esquema de recebimento de propina sobre valores dos contratos firmados pela Diretoria de Abastecimento da Petrobras, entre os anos de 2006 a 2014. Na sessão desta terça, o relator do inquérito, ministro Edson Fachin, leu seu relatório, e em seguida foram feitas as sustentações orais tanto pelo órgão de acusação, o MPF, tanto pelos advogados dos acusados João Pizzolatti, Mário Negromonte, Negromonte Júnior, Luiz Fernando Faria, José Otávio Germano, Roberto de Brito e Arthur Lira. A previsão é que o julgamento seja retomado na próxima terça-feira (5), com o voto do ministro Fachin. Caso o inquérito seja considerado procedente, os políticos responderão a uma ação penal na Corte.

SERÁ QUE É PAPEL DA ESCOLA TRABALHAR “IDEOLOGIA DE GÊNERO”?

Por Iracema Carneiro*

 

 

 

Durante muitos anos, fui assinante da Revista Nova Escola,da Fund. Victor Civita . Trazia sugestões interessantes para aplicação em sala de aula. Hoje, fiquei sabendo que a Nova Escola foi vendida a um bilionário, Jorge Paulo Lemann, que mudou, totalmente, a linha editorial da Revista :

“JORNALIVRE

(…)

A missão da “Associação Nova escola” é transformar a Educação brasileira por meio de conteúdos e serviços de alta qualidade para professores e gestores do Brasil. A associação foi criada em 2015 com o apoio de sua mantenedora, a Fundação Lemann.

A Fundação Lemann é do empresário Jorge Paulo Lemann, o mais rico do país. Ela é quem mantém a Associação Nova Escola, conforme o site da própria entidade.

Mas o que isso tem a ver com Ideologia de Gênero?

Tem tudo a ver.

A Associação Nova Escola promove esta pauta, como se pode ver em artigo publicado ainda em 2015, ano de fundação da entidade. O artigo escrito por Wellinton Soares, intitulado “Educação sexual: precisamos falar sobre Romeo“, mostra o caso do menino britânico de 5 anos chamado Romeo Clarke, que ficou conhecido ainda em 2014 em virtude das notícias que relatavam como o garoto gostava de se vestir feito menina. Seguem abaixo alguns trechos da matéria:

O pequeno Romeo Clarke tem 5 anos e adora usar seus mais de 100 vestidos para as atividades do dia a dia. “Eles são fofos, bonitos e têm muito brilho”, explicou ao tabloide britânico Daily Mirror. Clarke virou notícia em maio do ano passado. O projeto de contraturno que ele frequentava na cidade de Rugby, no Reino Unido, considerou as roupas impróprias. O menino ficou afastado até que decidisse – palavras da instituição – “se vestir de acordo com seu gênero”.

Depois, o texto diz:

O caso de Clarke não é único. Situações em que crianças e jovens que descumprem as regras socialmente aceitas sobre ser homem ou mulher – seja de forma intencional ou por não dominá-las – fazem parte da rotina escolar.

O artigo segue falando sobre o assunto, dando exemplos, e depois chega aonde realmente quer chegar…

Você deve estar se perguntando onde a escola entra nessa discussão. Para que ela respeite a diversidade, as formações de professores precisam abordar o assunto. É o melhor caminho para disseminar o que as pesquisas já descobriram sobre a construção dos gêneros.

O caso, aqui, é que tudo isso está pautado em uma mentira ideológica. A tal “teoria de gênero” não tem fundamentos científicos, é uma tese que alguns cientistas alinhados ideologicamente defendem porque suas pesquisas são sustentadas por políticas públicas, mas está longe de ser um conceito aceito pela comunidade científica.

Ainda assim, o maior problema é que existem essas tentativas sutis de impor a pauta nas escolas. O objetivo é não apenas que professores “respeitem as diferenças”, mas que eles ensinem isso (a ideologia de gênero) em sala de aula, que eles passem esse conceito para seus alunos.

Tudo fica mais claro quando o artigo se queixa da resistência contra algumas das tentativas de imposição do tema, como ocorreu com o Kit Gay. Veja:

O caso mais notório aconteceu em 2011. Como parte do programa Brasil sem Homofobia, especialistas produziram para o governo federal cadernos com conteúdo pedagógico que colocavam o tema em discussão. A intenção era que o material fosse distribuído a escolas de todo o país. Antes da impressão, entretanto, congressistas ligados a entidades religiosas se opuseram ao projeto. Apelidado de “kit gay”, o conteúdo foi acusado de estimular “a promiscuidade e o homossexualismo” – termo em desuso por remeter a doença (hoje, fala-se em homossexualidade).

Besteira!

O Kit Gay era um material a ser distribuído para crianças em idade escolar e ele realmente tinha o intuito de estimular tendências sexuais. Não se tratava de material educativo, uma vez que ia muito além de apenas ensinar que tais diferenças de fato existem. O material tratava do assunto como se fosse não apenas comum, mas desejável que meninos – crianças mesmo, não homens adultos – se beijassem. O assunto era tratado como algo extremamente positivo e nem mesmo mencionava que em alguns casos há, de fato, distúrbios envolvidos.

Perceba que a questão não era ensinar às crianças o respeito às diferenças, mas incentivá-las a serem diferentes do que são. Por isso houve resistência e por isso gerou polêmica. O Kit Gay era, de fato, uma abominação colocada em pauta por grupos de interesse.

Tudo isso, hoje, é financiado pelo maior bilionário do país. É por isso que não há exagero algum em dizer que existem pessoas poderosas tentando impor a ideologia de gênero nas escolas. Está bastante claro que gente muito influente age por trás das cortinas nessa direção.”

*Iracema Carneiro é pedagoga, militante brasileira contra a corrupção e editora da página “007 contra nine fingers”

FALTAM 3 DIAS PARA A 64ª SEMANA ESPÍRITA DE VITÓRIA DA CONQUISTA

JULGAMENTOS PELO STF DE ROBERTO BRITO, MÁRIO NEGROMONTE JR. E MÁRIO NEGROMONTE NESTA TERÇA, 29

Deputados Roberto Britto e Mário Negromonte Jr assim como o Conselheiro Mário Negromonte negam as acusações

A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) deve julgar nesta terça-feira, 29, o inquérito feito pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra os deputados federais Roberto Brito e Mário Negromonte Júnior, além do conselheiro Mário Negromonte, do Tribunal de Contas dos Municípios, acusados de supostos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no esquema da Petrobras. A denúncia de Janot aponta que o grupo tinha como braço direito na Petrobras o ex-diretor de abastecimento Paulo Roberto Costa. Sob seu gerenciamento, contratações da estatal foram realizadas, entre 2006 a 2014, com desvio de 1% dos valores firmados. A Procuradoria-Geral da República fechou uma estimativa de que o esquema desviou R$ 357 milhões no período. Do 1% desviado, 60% pertenceriam aos parlamentares da legenda, 14% com Paulo Roberto Costa e 6% para o doleiro Alberto Youssef.

No caso de Mário Negromonte, o ex-deputado federal, ao lado do também ex-deputado João Alberto Pizzolatti Júnior, teria “adotado dolosamente diversas estratégias, de forma reiterada e no âmbito de organização criminosa para ocultar e dissimular a natureza, origem, localização, disposição, movimentação e propriedade desses valores ilicitamente recebidos”. O ex-deputado baiano teria recebido R$ 5 milhões em dinheiro e em doações oficiais para sua campanha de reeleição no ano eleitoral de 2010. Outro denunciado, o deputado federal Roberto Brito teria sido beneficiado em 2010 por “propina disfarçada de doação eleitoral” no valor R$ 100 mil da Queiroz Galvão. Assim como a Queiroz Galvão, a Jaraguá Equipamentos Industriais também foi usada para pagar vantagens ilícitas aos parlamentares baianos. Desta empresa, Negromonte Jr recebeu R$ 85 mil e Brito teria levado R$ 50 mil em pagamentos que “consistiam em propina disfarçada de doação eleitoral ‘oficial’”.

Além do recebimento de recursos indevidamente, Negromonte Jr. foi denunciado por Janot pelo suposto crime de obstrução de investigação. “Negromonte Júnior teria mandado recados ameaçadores ao parlamentar João Luiz Correia Argolo dos Santos e à sua família (pela iminência de realizar acordo de colaboração premiada) por meio de Aricarlos Rocha Nascimento, ex-assessor de Luiz Argolo dos Santos”, detalha o relatório de Fachin.

Argumentos de defesa

Roberto Brito diz que a denúncia da Procuradoria-Geral da República “carece de justa causa, sendo baseada em um único termo de colaboração [de Alberto Youssef]”. O parlamentar assegura que as declarações do doleiro estão “completamente apartadas de outras provas existentes nos autos”. A defesa de Brito diz que há, no processo, pouca menção ao seu nome, considerando o volume dos autos. Brito reitera que as doações de campanha do foram feitas de forma legal e que não tinha conhecimento ou participação “em qualquer esquema criminoso”.

A defesa de Mário Negromonte Júnior disse ter existido ilegalidade na colheita de elementos de prova durante a investigação. O defensor do parlamentar pepista aponta que a acusação “está calcada em extratos de movimentação bancária que não poderiam ter sido acessados, porque o então relator não deferiu quebra de sigilo bancário [da pessoa física]”, configurando, assim, utilização de dados ilicitamente.

O conselheiro do TCM, Mário Negromonte, ressalta a ausência de justa causa no processo e aponta “falta de outras provas além das palavras dos colaboradores”. A defesa do ex-deputado também impugnou “elementos probatórios constantes nos autos que supostamente demonstram o recebimento de vantagens indevidas”.

(Bocão News)

INFERNO NA TORRE DA FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DA BAHIA

Depois de Mascarenhas, a sóbria e austera FIEB, ficou pop, mudou o rumo e não voltou mais aos trilhos.

O vice-presidente Mário Pithon, enfim, foi reintegrado à direção da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), por determinação do desembargado Emílio Resedá, do Tribunal de Justiça da Bahia. Na última quinta-feira (24), em reunião do Conselho da entidade, já com a participação de Pithon, o presidente Ricardo Alban foi alvo de diversas críticas à maneira como procedeu na discutível reforma do estatuto e na condução do atual processo eleitoral, antecipado em seis meses.

O novo estatuto, de acordo com Pithon, teria sido alterado de forma a concentrar ainda mais poder nas mãos do presidente da Fieb, contrariando completamente o espírito democrático da chapa eleita sob a liderança do presidente Carlos Gilberto Farias, falecido logo depois da posse, e sucedido por Alban. “A ideia era fortalecer o colegiado, mas o atual presidente conduziu arbitrariamente o processo de mudança do estatuto de forma a torná-lo ainda mais poderoso”.

Na avaliação do vice-presidente, Ricardo Alban teria atropelado a decisão de diretoria, de março de 2016, que suspendera as mudanças do estatuto. Por conta própria, posteriormente, Alban teria promovido alterações conforme sua conveniência nas regras da entidade, principalmente quanto ao processo eleitoral, que passou a permitir a formação de chapa com mais de 50% dos votantes. Para Mário Pithon, a Fieb sofreu um golpe, a exemplo do que ocorre atualmente na Venezuela.

O vice-presidente reintegrado aponta a reforma eleitoral, promovida por Ricardo Alban, como fator que estaria impedindo a formação de chapas de oposição para a disputa da entidade. “A situação é tão vergonhosa e sem limites, que a chapa que está sendo formada pelo atual presidente para a sua reeleição é composta por mais da metade dos representantes sindicais com direito a voto, o que dá a vitória a ele sem a abertura das urnas”, informa Pithon.

As polêmicas ações de Ricardo Alban à frente da Fieb indignam outros setores da federação. O conselheiro Paulo Cintra o acusa de ditador e também condena a contradição do atual presidente em querer ser reeleito, quando defende o fim da reeleição na política partidária, posição aprovada por ele na Confederação Nacional das Indústrias (CNI). O 1º vice-presidente Carlos Gantois, por sua vez, assinala que Alban estaria apequenando a entidade com comportamentos dessa natureza. Já o presidente do Cieb, Reginaldo Rossi, pede mais respeito à oposição, que estaria sendo espezinhada na Casa. 

(Política Livre)

MINISTRA CÁRMEN LÚCIA PEDE QUE GILMAR SE MANIFESTE SOBRE PEDIDO DE SUSPEIÇÃO

Ministro concedeu habeas corpus e decretou medidas alternativas à prisão ao empresário Jacob Barata Filho e outros oito investigados na Operação Ponto Final

Ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal

A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, solicitou ao colega Gilmar Mendes que se manifeste sobre o pedido de impedimento em julgamentos que envolvem Jacob Barata Filho, um dos maiores empresários do setor de transporte coletivo do Rio de Janeiro. Barata e outros oito investigados na Operação Ponto Final tiveram habeas corpus e medidas alterativas à prisão concedidos por Gilmar, relator dos casos. Em viagem, o ministro só deve voltar ao Brasil em 7 de setembro. Não há, porém, prazo para que ele responda ao pedido da comandante da Corte.

Gilmar já declarou publicamente não se considerar suspeito para atuar no caso. De acordo com a Folha, Cármen Lúcia não descarta dar prosseguimento ao pedido.

Conforme a Procuradoria, Gilmar foi padrinho de casamento da filha do empresário, Beatriz Barata, em 2013. O ministro do Supremo nega e diz que só acompanhou sua mulher, Guimar Mendes, ao evento — o noivo, Francisco Feitosa Filho, é sobrinho dela.

CASTRO ALVES, 1871. ÚLTIMA ENTREVISTA DO POETA DA LIBERDADE II (CONTINUAÇÃO AO DOMINGO ANTERIOR)

 

De que forma o Senhor situa a sua obra dentro deste contexto?

É muito difícil a um poeta situar sua própria obra no contexto de uma literatura. Talvez possa dizer que segui um caminho que é normal a todo escritor: o de fazer com que a vida e a obra entrem em acordo e possam viver bem juntas.

Olhe bem. Hoje, a palavra da poesia, além de ser íntima, também deve ser cívica. Tenho o sangue militar do meu avô e cheguei até a me alistar no Batalhão Acadêmico de Voluntários que foi à Guerra do Paraguai, mas nunca fui um apologista da guerra. Amo sim a minha pátria, luto pela abolição da escravidão, canto os feitos heróicos, as batalhas vitoriosas contra a opressão e confesso o meu amor em tom vibrante; só em louvor ao Dois de Julho escrevi cinco poemas. Muitos dizem que minha obra está composta de uma parte política e de uma parte lírica. Penso que vigora sempre o mesmo amor à humanidade, sob roupagens diversas: amor coletivo e amor pessoal, e não saberia dizer qual o mais importante.

Acho que o poeta deve falar aos corações. Eu falo. Mas, não é com sussurros que se incendeia o público; é com entusiasmo, dramaticidade, retórica. O poeta é às vezes um corcel sem freios… Eu tenho consciência de que faço alguns poemas para voz alta, e não para leitura com um chá, no aconchego das cadeiras de balanço. Algumas vezes, anoto ao lado do texto: “Não se publica”. Não sei se será publicado, pois tenho a certeza de que o poeta, quando muito, é o dono dos versos, mas não é nunca o dono do destino do poema.

Particularmente, acho exagerado o gosto pelo doentio que os poetas da geração anterior a minha desenvolveram. Eles estavam voltados para eles mesmos, amavam a musa distante, idealizada, intocada e etérea. A minha amada é de carne e osso (o poeta sorri). Eu aposto no amor, na vida; às vezes perco, às vezes ganho… Deixo aos críticos do futuro o julgamento do meu trabalho.

Que figuras exerceram influência na sua formação de escritor?

Tudo o que o escritor vê, vive ou lê o influencia. Assim, sou filho de Horácio, de Byron, Barthélemy, Lamartine, Musset, do grande Hugo principalmente… Aprecio Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e Junqueira Freire, mas se tivesse que escolher apenas dois brasileiros, citaria dos contemporâneos, meu amigo Fagundes Varela e dos passados, o Casimiro de Abreu.

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Ser chamado de “poeta dos

escravos” é uma honra. Acho,

porém, que não diz tudo; sempre

quis ser “O poeta da Liberdade”.

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O Senhor está começando a ser chamado “O poeta dos escravos”. Como se sente?

Eu me orgulho do epíteto. Estou, inclusive, na fase final de negociações para a impressão de meu livro Os escravos, que até o final do ano será publicado. A escravidão é uma das mazelas, talvez a mais horrenda, que devemos combater em prol da liberdade. É certo que, desde 1850, instituíram-se pesadas penas para o tráfico negreiro, já abolido pela legislatura de 31, mas ainda vigente. Há dois anos foi proibida a venda de seres humanos em pregão público e até o fim deste ano – não sei se o Senhor sabe – será votada a Lei do Ventre Livre. Mas é pouco. Muito pouco.

Sempre fui devotado às causas sociais. Fundei, com Rui Barbosa – meu antigo colega do Ginásio Baiano – e outros alunos da Faculdade de Direito, a Sociedade Abolicionista do Recife. Esse pendor abolicionista vem do berço. Lembro de papai a reclamar, sempre, do tratamento cruel que era dado ao negro. O amor que eu tive e tenho pela minha bá, que já se foi, a negra Leopoldina, minha ama de leite, minha segunda mãe, a me contar as histórias de senzalas, mucamas e amores proibidos… O meu tio, o alferes João José, herói da Guerra do Paraguai, brincando comigo de cavalinho, montado em seus joelhos, dizendo-me: “A liberdade, filho, é o maior bem do mundo”. Ah! Como essas coisas ainda me comovem…

Ser chamado de “poeta dos escravos” é uma honra. Acho, porém, que não diz tudo; sempre quis ser “O poeta da Liberdade”. E para mim, Abolição e República são palavras quase irmãs: uma puxa a outra, naturalmente. Tanto que, em paralelo à minha luta pela libertação dos escravos, participei também de alguns comícios republicanos. Lembro-me bem de um deles, dissolvido pela polícia, quando criei de improviso os versos de “O povo ao poder” (nesse momento o poeta abre um sorriso e levanta-se, com esforço, da cadeira de balanço austríaca). A segunda estrofe desse poema começa com dois versos que agitaram a multidão, aos gritos e assobios (o poeta de pé, com a voz já rouca e entrecortada por um pigarro renitente):

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A praça! A praça é do povo

Como o céu é do condor

É o antro onde a liberdade

Cria águias em seu calor.

Senhor!… pois quereis a praça?

Desgraçada a populaça

Só tem a rua de seu…

(um acesso de tosse interrompe a fala;

ele se senta novamente, e com dificuldade termina a estrofe)

Ninguém vos rouba os castelos

Tendes palácios tão belos…

Deixai a terra ao Anteu.

Desculpe-me, Senhor… Desculpe-me… (aparentemente refeito) Prossiga, prossiga…

Além dos comícios republicanos e da campanha abolicionista, é sabido que o Senhor tem participado de debates sobre a liberdade de imprensa e de muitos outros movimentos civis, como a luta pelo voto feminino. Por outro lado, as discussões literárias também não foram poucas. Fale-nos sobre sua polêmica com o poeta Tobias Barreto.

O Tobias? Isso é coisa do passado, não tem mais importância… Nem sei se vale a pena voltar ao assunto. Mas o que posso dizer?… Vamos ver…

Começamos como amigos – temos, inclusive, poesias dedicadas um ao outro; passamos a colegas, tornamo-nos rivais e acabamos inimigos. Intrigas pessoais e literárias. Discordamos em quase tudo, tanto na poesia quanto no teatro. Olhe que nossos desencontros se acaloraram a partir de 66, quando ele teve o desplante de, em público, dizer que a atriz Adelaide Amaral era superior a minha amada D. Eugênia Câmara, um talento fulgurante que Portugal nos legou; inigualável, como o Brasil jamais tivera oportunidade de assistir.

O Senhor Tobias Barreto é feio, velho, escreve mal e declama pior ainda. Não conhece a língua que fala, o significado das palavras; já o aconselhei a fazer, de quando em quando, uma viagenzinha ao Morais. Nos recitativos fica nervoso, tem um jeito desastrado, não controla a voz. Não possui o domínio cênico que eu tenho, se veste mal. Eu entro no palco vestido de negro, chique, com uma flor na lapela, óleo nos cabelos, madeixas minuciosamente espontâneas e pó-de-arroz no rosto, para parecer mais pálido. Começo logo com uma das minhas bombas “O século”, “Pedro Ivo”, “Visão dos mortos”…, com resultado previsto e certo: a platéia me ovaciona. Lembro-me de um sarau em São Paulo , organizado pelo Arquivo Jurídico, no Salão Concórdia. Nessa noite todas as honras foram minhas; o entusiasmo tocou ao delírio, quando arrematei a última estrofe de “Visão dos mortos” e, a pedido geral, encetei “O livro e a América”. Se algum dia obtive um triunfo, não foi noutro lugar. Até a senhora do cônsul inglês Richard Burton veio entusiasticamente dizer-me: “Mim gostar muito de sua recitativa” (rindo e imitando um sotaque inglês).

Atualmente não tenho mais debatido com o Tobias Barreto. Como o Senhor sabe, pouco tenho saído de casa. A minha última declamação em público foi, se a memória não me falha, em 10 de fevereiro deste ano, no salão nobre da Associação Comercial da Bahia, quando se realizava ali um meeting em favor das famílias francesas sacrificadas pela guerra franco-prussiana. Eu recitei o poema “No meeting du Comité du Pain”, escrito no dia anterior. Fiz especialmente para a ocasião.

Aproveitando a sua lembrança, o Senhor poderia nos falar da grande atriz D. Eugênia Câmara?

A minha admiração pela atriz D. Eugênia Câmara se confundiu com meu amor pela mulher Eugênia. Quando a vi pela primeira vez, no palco do Teatro Santa Isabel, no Recife, eu tinha 16 anos e ela 26. De minha parte, amor à primeira vista. Ela era a estrela do drama Dalila, de Octave Feuillet. Difícil descrever o impacto que a presença dela exerceu sobre mim. Digo apenas que ela foi a mulher mais importante da minha vida, a musa celeste que me arrastou, como um turbilhão, ao mais profundo fundo dos cafundós do inferno. E ainda mais, o que muitos não sabem: é poetisa. Já tem dois livros publicados.

Escrevi para ela o drama Gonzaga ou A Revolução de Minas, onde falo de liberdade, escravidão, traição, paixões… em suma, de tudo que atormentava ou deliciava minha existência, e se confundia com a própria Eugênia, para quem, é evidente, eu havia reservado o papel principal. Meu sonho era vê-la em cena interpretando meu texto.

O nosso amor foi sempre tumultuado. Em 66, após um longo período de indecisões e recuos, que nunca soube se eram meus ou dela, finalmente consegui arrancá-la do empresário com quem vivia, e levei-a junto com a filha, para morar comigo num subúrbio do Recife. Nosso ninho de amor… Dediquei-lhe muitos poemas… Ah! Bons tempos aqueles…

No ano seguinte, fui para a Bahia, levando minha mulher e uma certeza: iríamos conseguir encenar o Gonzaga em Salvador. O que, de fato, aconteceu no dia 7 de setembro, no Teatro São João, tendo à frente do elenco Eugênia no papel de Maria, a Marília de Dirceu. Foi uma brilhatura como há poucas! Fui chamado à cena depois de cada ato, sob estrondosa ovação. Não satisfeita, a multidão carregou-me em triunfo, sobre os ombros, até minha casa. Tive um triunfo como não consta que alguém tivesse na Bahia. Era a glória, mas era a glória baiana. Até aí a alegria do sucesso e o amor de Eugênia me completavam, mas eu queria a consagração nacional…

A noite encantada ao conhecer sua amada em cena, no Recife.

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Eram cada vez mais constantes as nossas desavenças.

Cenas violentas, ciúmes, brigas, precárias reconciliações.

Sopravam-me histórias de adultério.

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Foi por isso que o Senhor resolveu ir para São Paulo?

Sim, sim. Foi com essa intenção que decidi continuar os estudos de Direito em São Paulo , interrompidos quando viemos para Salvador. Eugênia foi comigo. Incluí no roteiro de viagem uma visita ao Rio de Janeiro, onde conheci o grande escritor José de Alencar. Chegamos a São Paulo em março de 68, a terra de Azevedo, cidade das névoas e mantilhas, ainda acanhada e provinciana, onde não há senão frio, mas frio da Sibéria; cinismo, mas cinismo da Alemanha, um tédio infinito. Entretanto prefiro São Paulo ao Recife, apesar das péssimas recordações daquele tempo, pois foi lá que o nosso amor chegou ao fim. O meu objetivo era terminar os estudos na Faculdade do Largo de São Francisco e o de D. Eugênia retornar aos palcos. No início retomamos a vida intelectual e boêmia, freqüentando saraus e salões, sempre com muito sucesso. Porém, rapidamente, o nosso relacionamento se deteriorou. Eram cada vez mais constantes as nossas desavenças. Cenas violentas, ciúmes, brigas, precárias reconciliações. Sopravam-me histórias de adultério. No entanto, sei que ela me amou, como sei que, talvez, meu amor tenha sido insuficiente para sua paixão. Não a recrimino. Em determinado momento, largou a carreira para me seguir. Depois, me largou para seguir a si própria. Rompemos em 68 e a última vez que a vi foi no ano seguinte apresentando-se no Teatro Fênix Dramática, no Rio de Janeiro, quando pude lhe oferecer meus derradeiros aplausos. Despedi-me de Eugênia com a poesia “Adeus”, que termina assim (acomodando-se na cadeira):

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Quis te odiar, não pude. – Quis na Terra

Encontrar outro amor. – Foi-me impossível.

Então bendisse a Deus que no meu peito

Pôs o germe cruel de um mal terrível.

Sinto que vou morrer! Posso, portanto,

A verdade dizer-te santa e nua:

Não quero mais teu amor! Porém minh’alma

Aqui, além, mais longe, é sempre tua.

E Eugênia me respondeu com uma outra e que sei de cor. Vou dizer-lhe a primeira e a derradeira das 14 estrofes (a voz um pouco mais baixa):

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Adeus, irmão desta alma, digo-te Adeus!

Mas deixa que eu evite esse – jamais! –

Que o céu se compadeça aos rogos meus

E um dia cessarão teus e meus ais!

Adeus! Se um dia o Destino

Nos fizer ainda encontrar

Como irmã ou como amante

Sempre! Sempre me hás de achar.

 

(Continua no próximo domingo)

TRAGÉDIA NA BAÍA DE TODOS OS SANTOS: DPT IDENTIFICA 18 CORPOS ENCONTRADOS; VEJA NOMES

O Departamento de Polícia Técnica da Bahia (DPT-BA) identificou os 18 corpos encontrados no acidente ocorrido na manhã desta quinta-feira (24), quando a embarcação “Cavalo Marinho I” virou na Baía de Todos-os-Santos. Todas as vítimas foram encaminhadas ao Instituto Médico Legal (IML). Confira abaixo a lista com o nome completo e a idade das vítimas:

          Antônio de Jesus Souza, 67 anos;

          Thiago Henrique de Melo Barreto, 35 anos;

          Ivanilde Gomes da Silva, 70 anos;

         Tais Medeiros Ramos de Sales, 32 anos;

         Lucas Medeiros Leão, 2 anos;

         Darlan Queiroz Reis Julião, 2 anos;

         Lais Pita Trindade, 20 anos;

         Dulciana dos Santos Queiroz, 38 anos;

         Davi Gabriel Monteiro Coutinho, 6 meses;

         Dulcelina Machado dos Santos, 59 anos;

         Sandra Lima dos Santos, 40 anos;

         Lindinalva Moreira da Silva, 50;

         Rosemeire Novais Carneiro de Costa, 49 anos;

         Alessandra Bonfim dos Santos, 36 anos;

         Isnaildes de Oliveira Lima, 48 anos;

         Rita dos Santos, 54 anos;

         Edileuza reis a Conceiçã, 53 anos;

         Edilene Oliveira dos Santos, 43 anos.

            SUPOSTO CORPO DE IDOSO QUE SALVOU MULHERES

ANTES DE MORRER É ENCONTRADO

Um corpo foi encontrado na praia da Barra do Pote, no município de Vera Cruz, no final da tarde deste domingo (27). De acordo com informações do Corpo de Bombeiros, a suspeita é de que seja de Salvador Souza Santos, de 69 anos, conhecido como Guerreiro, que está desaparecido desde a manhã da última quinta-feira (24), dia do acidente com a lancha na Baía de Todos-os-Santos

Segundo o jornal Correio, “Guerreiro” teria salvado duas mulheres na tragédia com a lancha Cavalo Marinho I, que vitimou 18 pessoas na Baía de Todos-os-Santos.

Informações: bahia.ba