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BRASIL EM CENA: TORQUATO NETO – TODAS AS HORAS DO FIM

Sentado ao lado de Gal Costa, Torquato Neto está na capa do disco “Tropicália – ou Panis et Circensis”, um dos mais icônicos da música brasileira, e pouco mais se sabe dele. Quatro anos depois de lançado o disco, um dos letristas mais importantes do movimento tropicalista se matou, no dia seguinte de seu aniversário de 28 anos. Entrou no banheiro de casa, ligou o gás e esperou a morte, enquanto a esposa Ana e o filho Thiago dormiam nos cômodos ao lado.

Passados 45 anos da morte de Torquato Neto, os diretores Marcus Fernando e Eduardo Ades lançam “Torquato Neto – Todas as horas do fim”. Mesclando entrevistas com as poucas imagens disponíveis do poeta, os dois viram-se diante de um impasse, ao perceber que o protagonista Torquato estava se tornando assunto na boca dos entrevistados. A solução para amarrar o filme e continuar reverberando as ideias do poeta veio de um dos seus grandes temas de interesse – o cinema.

Marcus e Eduardo falaram com exclusividade ao Cinema em Cena, na semana de estreia do documentário.

Cinema em Cena: Neste ano, completam-se cinquenta anos do lançamento do disco “Tropicália – ou Panis et Circensis”, que marcou o início do movimento tropicalista. Por que vocês resolveram retratar justamente o poeta Torquato Neto, que fez parte do movimento?

Marcus Fernando: Porque ele é justamente um dos personagens mais importantes do pensamento tropicalista, e talvez um dos menos conhecidos. Nesses cinquenta anos, as pessoas veem o nome dele lá, a foto na capa do disco da Tropicália, mas quem é essa cara? Uma figura enigmática, quase. Virou um mito: a morte muito jovem, a forma da morte, tudo contribuiu para esse mito, acho que no fundo tem muita qualidade artística ali, desconhecida. Muita coisa já publicada, mas que ainda não chegou a um público maior. E a gente tem essa possibilidade de fazer um filme, o filme chega a mais gente, passa no cinema, passa na TV, a partir disso a pessoa procura alguma coisa no YouTube. O filme é uma forma de fazer com que tivesse mesmo uma luz sobre isso.

Eduardo Ades: Acho que existia essa sensação de que o Torquato precisava ser resgatado, porque o filme foi muito feliz na captação. Logo no primeiro edital de que a gente participou, em 2013, com a Rio Filme e o Canal Brasil, o projeto foi selecionado. Posteriormente, em Teresina, no Piauí, conseguimos um financiamento com o governo do estado, na secretaria de cultura. Por ser uma figura local, o Torquato é um dos maiores ícones do Piauí.

Cinema em Cena: O filme deve surpreender muita gente ao revelar que Torquato Neto e o ministro Moreira Franco foram amigos de infância…

Marcus Fernando: A gente descobriu na primeira pesquisa lá no acervo que o Moreira Franco foi o primeiro amigo dele. No acervo do Torquato, em Teresina, tem um álbum de bebê, típico livrinho que toda mãe faz dos filhos, com aquele desenho de uma cegonha etc., com vários registros, como peso ao nascer, essas coisas todas de álbum de bebê. Na parte “primeiros amiguinhos”, só tem um nome: Welington Moreira Franco. Pode parecer que eram amigos porque pertenciam a famílias amigas e tinham a mesma idade, mas o Moreira Franco foi de fato o primeiro amigo do Torquato: estudavam juntos, iam à escola, à aula particular, sempre juntos.

Eduardo Ades: Tem um poema em que o Torquato cita: ”Welington Moreira Franco, amigo, o primeiro deles”.

Cinema em Cena: Já que se trata de um personagem tão misterioso, com tão poucos registros audiovisuais, como foi o garimpo para chegar a esse filme de quase uma hora e meia?

Marcus Fernando: Para a pesquisa sobre o personagem em si, nós optamos por seguir pessoas que conheceram o Torquato. São todos depoimentos em primeira pessoa, de personagens que realmente podiam falar como era conviver com ele, como ele pensava, agia, como se comportava, como se movia. Todo mundo fala, por exemplo, que ele era muito afetuoso, e eu acho que isso também está no filme, a maneira afetuosa até como as pessoas se referem a ele. Existe uma memória carinhosa dele. E a pesquisa de materiais partiu do arquivo Torquato Neto, em Teresina, que tem muito material, o acervo pessoal dele, que a viúva do Torquato mandou para Teresina em determinado momento, para um primo que tem uma agência de publicidade lá, com uma sala dedicada a esse material, com tudo muito organizado. Mas o que a gente não tinha era o registro sonoro, o vídeo, a entrevista dele.

Cinema em Cena: A presença da morte era uma constante no convívio com ele?

Eduardo Ades: A morte atravessou a vida inteira dele e por isso, atravessa também o filme. Para ser coerente com ele, ela precisava atravessar o filme.

Cinema em Cena: Por que vocês optaram por dar um tratamento de Super 8 nas entrevistas realizadas para o filme?

Eduardo Ades: Porque foi filmado em Super 8 mesmo!

Marcus Fernando: Originalmente, a gente imaginava que o filme ia ter entrevistas em on, mostrando os personagens contemporâneos em imagens atuais, mas percebemos um choque entre a estética daquela época e essas imagens atuais, com tudo muito limpo. Então, começamos a pensar entremear as entrevistas com esses pedaços em Super 8. No final, o que era para ser só um charme virou toda a estética do filme, com essa textura meio suja, que é coerente com a estética do Torquato.

Cinema em Cena: E por que a opção de usar filmes do cinema nacional como ilustração daqueles momentos?

Marcus Fernando: Inicialmente, imaginamos as pessoas dando entrevista para a câmera, de forma tradicional, com alguns momentos cobertos por outras imagens. Chegamos inclusive a montar o filme dessa forma. Mas aí a gente viu que estava tendo dois problemas. Começou a incomodar, por duas questões principais. Uma é que estava em um formato convencional demais. E a outra coisa é que o Torquato que a gente queria que fosse protagonista estava virando assunto. Porque quando aparece, por exemplo um cara como o Tom Zé, que é uma pessoa mais expressiva, você fica vidrado, tem um magnetismo.  Você fica olhando para o que ele está falando, e se esquece que está falando do Torquato.

Eduardo Ades: Então, se o Torquato não fala para a câmera, não existe esse material do Torquato falando para a câmera, e ele é o protagonista, resolvemos repensar o filme inteiro.

Marcus Fernando: A ideia foi dele (Eduardo). Eu fiquei em choque, no primeiro momento. Cobrir o filme inteiro? Com o quê? E aí veio a ideia de usar os filmes, e começou a fazer sentido para mim. Desde o primeiro momento, queríamos que o filme não tivesse nada parecido com careta, porque não é o personagem, não é o Torquato. Eu pensava: se esse filme for careta, ele vai puxar o pé da gente!

Cinema em Cena: Vocês não tiveram nenhuma preocupação com didatismo. Por quê?

Marcus Fernando: Porque a ideia era dar uma referência.

Eduardo Ades: Às vezes, durante a montagem, pensando sobre algum fato da vida dele, a gente falava assim: “será que isso não deveria ser explicado?” E na sequência, concluíamos: isso a pessoa acha na Wikipédia. Não precisaria estar no filme, seria a opção pelo convencional, pelo careta.

Marcus Fernando: Fazendo um filme, você tem que optar por alguma coisa. Alguém pode fazer outro filme e dar uma abordagem mais profunda em algum aspecto, fazer um recorte mais pela poesia, talvez. Mas, como um primeiro filme que apresenta esse personagem, a gente optou por uma coisa mais enxuta, partindo do que era básico para entender o personagem.

Cinema em Cena: Por que vocês optaram pelo Jesuíta Barbosa para ser “a voz” de Torquato Neto?

Marcus Fernando: Não poderia ser uma voz típica de locutor, como um Othon Bastos ou um Paulo César Pereio. Não podíamos colocar um cara de 50, 60 anos para ser a voz do Torquato, se ele morreu com 28 anos. Tinha que ser uma pessoa que tenha mais ou menos a idade que ele tinha quando morreu. E que fosse nordestino, por causa do sotaque. O Jesuíta foi a primeira pessoa mais parecida com o que nós procurávamos. Versátil, ele abraçou realmente o personagem, de uma forma incrível.

Cinema em Cena: Por que alguém que não conhece Torquato Neto deve assistir a esse filme?

Marcus Fernando: Pela força da poesia, porque Torquato acreditava nas possibilidades de transgressões, achava brechas. Teve uma vida muito intensa, então eu acho que é uma pessoa para nós prestarmos atenção.

Fonte: Cinema em Cena (Carta Capital).

MATÉRIA DE GABEIRA MOSTRA CRISE NA REGIÃO CACAUEIRA DA BAHIA

Por José Américo*

 

Durante dois dias seguidos o jornalista Fernando Gabeira esteve na região sul da Bahia colhendo informações e imagens para uma reportagem que será veiculada no próximo dia 21(domingo), às 18:30 horas, em seu programa no canal por assinatura GloboNews.

Tive a oportunidade de entrevistá-lo na Fazenda Santa Maria do Jenipapo, de Edvaldo Bruni, no município de Ibirapitanga.

Falamos de jornalismo, política, literatura, ecologia e outros assuntos, mas, neste texto, priorizei o motivo da sua visita à região e os assuntos que estarão na pauta do programa.

Aspectos ambientais, econômicos e sociais serão abordados na matéria de Gabeira cujo principal foco é a prolongada crise da cacauicultura regional , suas causas, consequências e possibilidades de soerguimento.

Muitas fontes foram consultadas por ele. Uma das principais foi o documentário cinematográfico “O Nó”, dirigido pelo ipiaúense Dilson Araújo que defende a tese de que a doença conhecida como “vassoura-de-bruxa”( Moniliophtera perniciosa) foi criminosamente disseminada na região. Um ato deliberado de terrorismo biológico.

Cenas de “O Nó” e provavelmente uma entrevista com Dilson serão mostradas no programa.

A questão do desmatamento das “cabrucas”, substituindo-as por pastagens de gado bovino, o desaparecimento de nascentes, indícios de desertificação em algumas áreas da zona cacaueira, o desemprego, o êxodo rural, a crescente criminalidade nos centros urbanos, foram outros aspectos que chamaram a atenção do celebre jornalista.

A introdução da doença vassoura-de-bruxa na zona cacaueira da Bahia aconteceu no final da década de 1980, desencadeando uma ação devastadora que foi acentuada por quedas do preço do cacau no mercado internacional e estiagens prolongadas como a verificada no ano de 2016.

Ao entrevistar o engenheiro agrônomo José Roberto Benjamim, Fernando Gabeira tomou conhecimento do malogro da orientação governamental no combate à doença, fato que potencializou a crise.

O olhar de Gabeira não viu só desastres. Também se voltou para a exuberância da Mata Atlântica e do cacau-cabruca, sua biodiversidade, os projetos preservacionistas e ações regeneradoras.

Ele constatou que homens de boa vontade como Edmond Ganem, Edvaldo Bruni, Victor Becker, dentre outros, que se dedicam à preservação da biodiversidade e ao reflorestamento, reacendem a esperança de melhores dias na região.

Em Ilhéus, Gabeira conheceu uma plantação de cacau consorciada com pau-brasil e no município de Camacan ficou encantado com a reserva Serra Bonita, “uma pioneira e inovadora iniciativa privada de conservação de florestas no sul da Bahia”.

Trata-se de um condomínio que se estende por 2.500 hectares contendo varias RPPNs (Reservas Particular do Patrimônio Natural). A experiência tem recebido prêmios internacionais.

Outros detalhes observados por Fernando Gabeira e registrados pelo cinegrafista Mauricio de Souza serão mostrados no primeiro programa que a dupla gravou neste ano de 2018.

Com essa reportagem o Brasil conhecerá os impactos do terrorismo biológico do cacau e a tentativa de soerguimento de uma das regiões de maior riqueza, biodiversidade e beleza do planeta.

“A região sofreu. Tenho a impressão de que ainda não se recuperou dos impactos que lhe trouxeram dificuldades, mas ela tem potencial de superar tudo isso”, concluiu Gabeira.

*José Américo Castro é jornalista, poeta e escritor

Nota do Editor: Parabéns, Zé. Primeiro pelo profissionalismo. Alguém que, como repórter independente, investe recursos pessoais para ir em busca da informação, da melhor entrevista, do melhor ângulo, extraindo a melhor cepa para lavrar a notícia, unicamente pelo dever da difusão. Segundo, pelo texto conciso e claro, cuja leveza faz sempre a diferença, mesmo em se tratando de tema tão grave para a nossa região e tão cruel para o nosso povo. Que ao levantar o assunto, o respeitado jornalista Fernando Gabeira, de tantos exemplos edificantes e corajosos em sua vida pessoal, possa contribuir para o esclarecimento do episódio e a punição dos culpados. Grande abraço.

CORONEL: “SE O DESTINO CONSPIRAR A FAVOR, ESTAREI À DISPOSIÇÃO”

Eleito presidente da Assembleia Legislativa da Bahia com o apoio do prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), via articulação do seu vice, Bruno Reis (PMDB), o deputado estadual Ângelo Coronel (PSD) tenta se viabilizar como um dos integrantes da chapa à reeleição do governador Rui Costa (PT) em 2018.

Se antes o discurso era inflamado contra o Palácio de Ondina, agora a sua presença nos eventos oficiais do Estado é cada vez mais frequente.

Nesta segunda-feira (9), em Itabuna, durante a cerimônia de assinatura do contrato para duplicação da BR- 415, o parlamentar foi interpelado pelo site bahia.ba sobre a possibilidade de compor a majoritária ao lado do petista. Novamente, ele não refutou a hipótese, a qual atribuiu ao acaso.

“Eu sou uma pessoa de partido. Se o partido achar, lá na frente, que o nome de Ângelo Coronel dá para compor alguma vaga na majoritária, estarei à disposição. E, caso não venha a acontecer, também ficarei junto com o senador Otto Alencar, apoiando qualquer nome dentro do nosso partido. Agora, é evidente que o nosso partido é grande, um partido forte na Bahia, e que acredito que nenhum candidato vai deixar de querer um membro do nosso partido compondo a chapa majoritária, mas vamos esperar. Está muito longe ainda e isso é conspiração do destino. Se o destino conspirar a favor da gente, o meu nome estará à disposição. Se conspirar negativamente, estarei à disposição do mesmo jeito”, prometeu.

Uma das atitudes recentes de Coronel, de entregar uma sala da AL-BA à então desabrigada União dos Vereadores da Bahia (UVB), para ele não foi uma forma de fortalecer o seu nome nas bases, mas um gesto de “compaixão”. “Eu sou uma pessoa que tenho um coração. Os vereadores estavam meio largados, meio abandonados. […] O vereador não pode servir somente na hora da eleição”, analisou.

O deputado garante que não será postulante ao parlamento e, portanto, não disputará a renovação do comando da AL-BA em 2019. Ou seja, só vai botar o nome na urna para vice-governador ou senador, postos ocupados nos últimos oito anos pelo seu principal líder e presidente estadual do PSD, o senador Otto Alencar.

Fonte: www.bahia.ba.com.br

CASTRO ALVES, 1871. ÚLTIMA ENTREVISTA DO POETA DA LIBERDADE II (EPÍLOGO)

 

Como foi seu contato com José de Alencar?

Ah! Esse foi um dia inesquecível: 17 de fevereiro de 1868. Levei uma carta de apresentação do estadista baiano Dr. Joaquim Fernandes da Cunha, amigo de meu pai e padrinho da minha irmã Amélia. Visitei Alencar no Rio, como já lhe disse. Ele residia lá nos cerros da Tijuca. Segundo suas palavras, lugar puro e são, montanha encantadora que a natureza colocou a duas léguas da Corte, como um ninho para as almas cansadas de pousar no chão. E foi lá que o primeiro literato brasileiro provou-me que a ninguém cedia em cavalheirismo e urbanidade.

Sabendo que tocava numa corda sensível do mestre, além de declamar alguns poemas, li para ele o Gonzaga. Meu anfitrião era um obcecado pela construção de um teatro brasileiro, mesmo tendo fracassado na tentativa. Ele pregava um teatro baseado em nossa História – exatamente o que eu fizera, ao invocar em meu drama a Inconfidência Mineira. A receptividade foi muito boa, a ponto de Alencar recomendar-me a outro talento que se firmava na literatura fluminense: o jovem Machado de Assis, que me visitou no domingo de carnaval. O resultado desses encontros se traduziu nas crônicas publicadas no Correio Mercantil, a de Alencar em 22 de fevereiro e a de Machado em 1o de março, ambas muito favoráveis ao Gonzaga. Saiba que ainda guardo comigo esses exemplares do Correio.

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Então busquei ajuda médica no Rio de
Janeiro e o diagnóstico foi implacável: teria
que amputar a perna esquerda no seu terço
inferior. Devido ao meu estado debilitado,
a intervenção cirúrgica se daria sem
anestesia, pois a cloroformização seria perigos

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Quando e por que o Senhor decidiu deixar o sul do país e retornar à Bahia?

Devido a meus problemas de saúde; não ia nada bem. Quando me separei de Eugênia, a minha sorte piorou. Não sai da minha mente o fatídico dia 11 de novembro de 68, em que para espairecer minha solidão dirigi-me ao Brás, onde costumava caçar; era um mato cerrado, animais em abundância. Fui saltar uma pequena valeta e um disparo da espingarda atingiu-me o pé. Como todos sabem, surgiram complicações no ferimento e os antigos padecimentos pulmonares acordavam, impressionantes. Então busquei ajuda médica no Rio de Janeiro e o diagnóstico foi implacável: teria que amputar a perna esquerda no seu terço inferior. Devido ao meu estado debilitado, a intervenção cirúrgica se daria sem anestesia, pois a cloroformização seria perigosa. Se não operasse poderia morrer; então reuni todas as minhas forças e dei a autorização aos médicos, em tom de blague, disfarçando sob o riso, a dor física e moral da mutilação que deveras sentia. Ainda lembro de minhas palavras: “Corte-o, corte-o doutor… ficarei com menos matéria que o resto da humanidade”.

A convalescença foi demorada, agravada pela tísica renitente. Após alguns meses consegui levantar-me com a ajuda de um pé de madeira e apoiado em muletas. Porém , não me entreguei ao infortúnio. Nesse período de recuperação, estive hospedado na casa de meu grande amigo Luís Cornélio, cercado de carinho e atenção. Não deixei de escrever e recitar meus poemas para o pessoal da casa e para as bonitas moças que me visitavam e inspiravam. É… Não foram tão maus aqueles tempos (risos). No entanto, os meus pulmões não iam nada bem; acessos de tosse e febre deixavam-me constrangido. A saudade da minha pátria e a necessidade de cura em outro ambiente me fizeram retornar ao aconchego da família. Em novembro de 69, deixei o Rio de Janeiro. A travessia, transposta a enseada maravilhosa da Guanabara, sugeriu-me, com a saudade e o desengano, a idéia de reunir os meus poemas num volume que denominei Espumas flutuantes. Os meus versos eram as espumas que se formavam, flutuando à volta do navio. Essa lembrança está relatada no Prólogo do meu livro.

Quais são seus planos para o futuro?

Como já lhe disse, estou com “Os escravos” pronto, deve sair até o final do ano ou, no máximo, no princípio do ano que vem. A cachoeira de Paulo Afonso, livro de poemas, também já está acabado. E quero publicar o texto do meu Gonzaga, que já viajou por todo o Brasil, e, como o Senhor sabe, com grande sucesso de público e de crítica. Infelizmente nos últimos tempos não tenho trabalhado muito, a minha saúde não anda boa, e os médicos e as manas não querem que eu faça esforço. Para dar-lhe esta entrevista, tive que impor a minha autoridade de irmão mais velho (risos).

Mas Deus vai me dar ânimo, pois tenho planos de voltar a declamar em público, no máximo daqui a um mês. Já encomendei até um novo terno preto, bem cortado, pois estou um pouco mais magro e quero me apresentar bem. Se Deus quiser.

Nota do Editor: A entrevista acima é uma obra de ficção, embora todas as respostas sejam verdadeiras. Foram baseadas nas cartas e entrevistas do poeta Castro Alves, compiladas pelo professor e pesquisador Augusto Sérgio Bastos.

64ª SEMANA ESPÍRITA DE VITÓRIA DA CONQUISTA

Sob o tema “E a vida continua” acontece entre 2 e 10 de setembro, no Centro de Convenções Divaldo Franco, a 64ª Semana Espírita de Vitória da Conquista. Confira:

FALTAM 3 DIAS PARA A 64ª SEMANA ESPÍRITA DE VITÓRIA DA CONQUISTA

CASTRO ALVES, 1871. ÚLTIMA ENTREVISTA DO POETA DA LIBERDADE

Vale a pena lembrar a última entrevista de Castro Alves, concedida ao escritor e professor, Augusto Sérgio Bastos, em 1871, no Palacete do Sodré, em Salvador. Cecéu, como o poeta dos escravos era chamado pelos amigos baianos, morreu às 15:30h do dia 6 de julho de 1871, um mês após haver concedido essa franca e comovente entrevista, onde aborda temas ainda hoje atuais, como a escravidão e a liberdade.

Quem é o poeta Castro Alves?

Sou um homem que escreve e declama seus poemas. Por amor, por compulsão e por herança. Um poeta brasileiro nascido em 14 de março de 1847 lá na fazenda Cabaceiras, sete léguas distante de Curralinho. Um baiano do sertão. Meus pais foram o doutor Antônio José Alves e dona Clélia Brasília da Silva Castro, que também nasceu em um 14 de março.

A família mudou para Salvador quando eu tinha sete anos de idade. Aqui completei o curso primário e fiz o ginasial. Aos 15, em 1862, eu e meu irmão José Antônio fomos morar no Recife para fazer o Curso Anexo, um ano de aulas preparatórias que habilitavam às provas da Faculdade de Direito, onde fiz o 1º e o 2º ano. Lá, ainda em 62, pela primeira vez tive um poema publicado pela imprensa, “A destruição de Jerusalém”, no Jornal do Recife. No ano seguinte saiu no nº 1 de um jornal acadêmico, chamado A Primavera, o meu primeiro poema contra a escravidão: “A canção do africano”. Em 68, fui para São Paulo continuar meus estudos jurídicos. Completei apenas o 3º ano, sem bacharelar-me por conta de problemas relacionados à saúde.

Mas as publicações se sucederam, tanto no Recife como em Salvador, no Rio de Janeiro e São Paulo; muita vez em seqüência às declamações que eu fazia nas ruas, nos saraus e nos teatros, sempre com grande sucesso, diga-se de passagem. Alguns desses versos, junto com muitos inéditos, hoje fazem parte do meu livro Espumas flutuantes, primeiro e único até agora, e que foi lançado em outubro do ano passado, aqui mesmo na Bahia, para onde voltei no final de 69.

Fale um pouco mais sobre sua família e a infância em Salvador

Éramos muitos irmãos: José Antônio, Zezinho, o primogênito, poeta que se suicidou aos 19 anos; eu, Antônio Frederico de Castro Alves, era chamado de Cecéu pelos de casa e pelos amigos; João, que faleceu recém-nascido; Guilherme, o quarto, também poeta; aí vem a primeira mulher, Elisa; depois Adelaide, a Sinhá, minha preferida, mas que ninguém nos ouça; e Amélia, uma bela poetisa. Bem mais tarde, Cassianinho, nascido das segundas núpcias de meu pai.

Papai foi um médico famoso. Estudou na Europa, foi professor da Faculdade de Medicina, homem de talento artístico apreciável, com o que conseguiu grupar em nossa casa uma galeria de pinturas estrangeiras e nacionais de grande fama. Dessa paixão resultou fundar em 56, aqui na Bahia, a Sociedade das Belas-Artes. No lar, essa influência se exerceu na nossa educação artística: todos inclinados à música, ao canto, ao desenho, à pintura, às letras, favorecendo disposições da natureza que seriam consagradas. Mas papai e mamãe tinham pouca saúde. Perdi-os cedo, ela de tuberculose, em 1859, com apenas 34 anos de idade, e papai há cinco anos, aos 48.

Voltemos ao ano de 1854, quando fomos morar na capital, no pequeno sobrado da Rua do Rosário no 1. Essa casa, que marcaria de forma definitiva a minha vida, era cheia de lendas e mistérios: uma linda moça, Júlia Feital, nela foi assassinada pelo noivo que, louco de ciúmes, a fulminou com uma bala de ouro. Eu, menino, imaginava a cena e tinha muito medo. Ainda bem que logo depois nos mudamos.

Assim que chegamos a Salvador, fui estudar no Colégio Sebrão, uma escola tradicional, e depois no Ginásio Baiano, de conceitos pedagógicos avançados para a época: estudávamos várias matérias ao mesmo tempo, não recebíamos castigos físicos e ainda por cima éramos incentivados a participar de torneios literários. Para mim, que já trazia o amor à arte cultivado pela família, foi uma espécie de preliminar, desculpem a imodéstia, para a glória futura. Celebrávamos principalmente as datas cívicas, o que me deixava envaidecido, pois meu avô materno, José Antônio da Silva Castro, foi um dos heróis da independência da Bahia, que só foi conquistada em 2 de Julho de 1823. É que em muitas províncias, como o Senhor sabe, os portugueses não acataram a proclamação do Sete de Setembro e queriam nos manter atados à Coroa lusitana. Na Bahia, meu avô ajudou a derrotar as tropas inimigas, para assim confirmar a independência do Brasil. Ele foi condecorado por bravura no comando de um batalhão de voluntários, por ele mesmo criado. Vou lhe contar uma coisa que pouca gente sabe: foi nesse batalhão que, sob suas ordens, lutou a heroína baiana Maria Quitéria. Ainda vou escrever um poema em homenagem a essa grande mulher.

                                       “O povo – esse condor gigante – sacudindo as longas asas pairou na ordem social por sobre

a realeza, na ordem científica por sobre a autoridade.”

Como o Senhor vê a poesia nesta segunda metade do séc. XIX?

Olhe bem. A poesia na terra dos Andradas, dos Pedros Ivos, e dos Tiradentes deve ser majestosa como as matas virgens da América; arrojada como seus rios gigantes; livre como os ventos que passam gementes por suas várzeas, e que zurzem os costados pedregosos dos seus gigantes de granito. A poesia enfim deve ser o reflexo desta terra. Isto no que toca à natureza, é claro.

No que toca às idéias desta metade de século, eu diria que a poesia deve ser o arauto da liberdade – esse verbo na redenção moderna – e o brado ardente contra os usurpadores dos direitos do povo.

Quanto a sua forma, a literatura, sendo a expressão da humanidade, libertou-se dos preceitos asfixiadores da escola clássica – essa jaula do pensamento – assim como a humanidade despedaçara o feudalismo – essa jaula da dignidade popular. O povo – esse condor gigante – sacudindo as longas asas pairou na ordem social por sobre a realeza, na ordem científica por sobre a autoridade. O espírito popular tem sido iluminado pelos luzires do cometa da civilização.

Tudo tende a idealizar-se. No entanto, lanço uma censura a dois erros, que em geral permanecem em nossa literatura, e neles eu sei que a minha poesia não está:

Um – a falta de brasileirismo nas composições. O segundo erro, que ainda lavra, especialmente na Bahia, é o classicismo. Deus me livre de maldizer das obras-primas que a antiguidade nos legou. Não. Homero, Dante, Virgílio e outros hão de ser sempre admirados. Mas não queirais, homens da atualidade, mandar, como primor de escultura, uma cabeça de esfinge para a Exposição, nem apresentar nos banquetes de Napoleão III a paródia dos vasos soterrados de Pompéia… passou esse tempo… A poesia hoje é Byron, Barthélemy, Lamartine, Victor Hugo – esses Cristos humanos.

 

“O poeta é às vezes um corcel sem freios. Eu tenho consciência de que faço alguns poemas para voz alta, e não para leitura com um chá, aconchego das cadeiras de balanço”.        

 

 

Continua no próximo domingo…

RÁDIOS BAIANAS ASSINAM ACORDO DE MIGRAÇÃO DA AM PARA FM.

RADIO POVO AGORA TEM A FREQUÊNCIA FM 91.5

Com a recepção em frequência modulada o som da Povo chegará mais limpo aos receptores, ressaltando, ainda mais, a competência da sua equipe, comandada por Fábio Silva.

Depois de longo tempo de espera, as emissoras AM de todo o país conquistam a autorização do Ministério das Comunicações para recepção da Frequência Modulada, as chamadas FM.

A mudança vem corrigir uma distorção prejudicial às emissoras AM, que sofrem com a perda de qualidade do sinal, de audiência e de faturamento e foi agilizada e anunciada pelo ministro Gilberto Kassab, que foi recebido em Salvador por seus correligionários do PSD, o senador Otto Alencar e o presidente da Assembleia Legislativa da Bahia, deputado Ângelo Coronel. 

As faixas AM (Amplitude Modulada) e FM (Frequência modulada) são as responsáveis por modular os sinais de radiofreqüência.  A diferença entre elas se caracteriza basicamente pela técnica de produção e estética de programação. … Ela tem uma resposta de freqüência inferior a FM, porém, um alcance maior.

Nove emissoras de rádio da Bahia que funcionam na frequência AM assinaram um termo de migração para FM em evento realizado pelo Ministério da Ciência Tecnologia, Inovações e Comunicações na última sexta feira (11), no Auditório da Federação de Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), em Salvador.

Em Jequié, a Rádio Povo, antiga Radio Bahiana de Jequié, foi contemplada com essa transferência, significando uma melhor qualidade na produção e estética da programação que já conta com técnicos, operadores e comunicadores de excelente nível profissional.

Deste espaço, enviamos os cumprimentos aos profissionais da Povo, ao seu diretor Roberto Pazzi e, em especial, aos competentes integrantes da equipe de jornalismo Fabio Silva, Jussiara Oliveira e  Sergio Monteiro.

ENTREVISTA: ROBERTO SANT’ANA, PRODUTOR MUSICAL

ROBERTO SANT´ANA: “ELIS ERA UMA FILHA DA P*, MAS É A MAIOR CANTORA DO BRASIL”

Produtor conta como descobriu Alcione, Emílio Santiago e Fafá de Belém, fala sobre projetos e câncer e reclama: “Vivo de esmolas”.  

Texto James Martins – Fotos – Mateus Soares / bahia.ba

Roberto Sant´Ana, um dos mais importantes produtores musicais do país

Vale a pena conferir.

Aviso! Essa entrevista pode causar irritação na pele (e nas almas) de pessoas com mentalidade epidérmica. Em tempos de politicamente correto, Roberto Sant’Ana, um dos mais importantes produtores culturais da história do país, teima em falar o que pensa. E sem papas na língua. E, de novo, seu vocabulário pode assustar. “Viado”, por exemplo, é uma palavra que não sai de sua boca. Seria algum desejo oculto? Ele, que começou no teatro, ou melhor, “no Teatro Vila Velha”, como gosta de enfatizar, é responsável por algumas das melhores descobertas e lançamentos da música brasileira como Elomar, Emílio Santiago, Alcione, Fafá de Belém e Quinteto Violado.

Lançou também a Axé Music, através dos discos “Magia”, de Luiz Caldas, e “Mensageiro da Alegria”, de Gerônimo, e, na contramão, registrou para sempre as vozes de três dos nossos maiores poetas: Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes e Mário Quintana. “Drummond bebia mais que Vinícius. A gente precisava levá-lo escorado até o carro no final da gravação”, diz. E essa é apenas uma das surpreendentes revelações desta entrevista exclusiva ao bahia.ba – resultado de três horas de conversa. Difícil (embora inevitável) foi cortar trechos.

Aqui Roberto conta, com riqueza de detalhes, como evitou que Alcione fosse demitida da Polygram antes mesmo de iniciar sua carreira. Fala da relação difícil com Elis Regina: “Vivia pedindo minha cabeça. Era uma filha da puta! Morreu, vira deusa”. E, ao mesmo tempo, diz por que a considera a maior cantora brasileira de todos os tempos. E é nessa aparente dicotomia que está uma chave para ler bem e proveitosamente a presente entrevista: sem simplificações maniqueístas. “Já votei em Lula e em Paulo Souto”, diz ele, que expõe também seu “anti-petismo consagrado” e devido ao qual os desafetos tentam carimbá-lo, mesmo com o seu passado comunista, como “de direita”.

Livre, inocentado de um processo que durou 11 anos, acusado de desvio de verba de um projeto cultural que é o seu xodó, as Domingueiras, Roberto Sant’Ana descobriu recentemente um câncer de próstata que o fez chorar madrugadas a dentro e até mesmo questionar a justiça divina. Mas, com sua voz firme e um temperamento que pode ser tomado por excessivamente viril, grosso mesmo, Roberto sorri. Sorri franco e sempre. E seu sorriso guarda e revela algo de extremamente infantil e, portanto, puro e delicado, em sua alma. É simbólico que a abreviatura de seu nome seja “RS” – sinônimo de riso na internet. Fica a dica. Como já foi dito, a entrevista durou três horas e, pela importância e interligação de tudo, mesmo cortando com pena alguns trechos, o resultado é enorme. Mas vale a pena! Confira a íntegra abaixo:

bahia.ba – Então, para começar, você agora é um homem livre, não é, daquele processo por causa das “Domingueiras”?

Roberto Sant’Ana – Sou livre da sanha criminalista do PT, de todos os seus ladrões e de todos os seus viados. É o único partido que tem ladrões e viados (risos).

.ba – O único? Os outros não têm?

RS – Os outros também têm, mas em menor quantidade.

.ba – Menor quantidade de ladrão ou de viado?

RS – Dos dois (mais risos).

.ba – Mas, de qualquer forma, fale um pouco sobre esse processo, para os leitores entenderem. O que houve? Continue lendo
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EM MEMORÁVEL ENTREVISTA, JERÉ, FILHO DE TONHE REGINA CONTRA ATACA JORNALISTA

Retomando antigo projeto de enfocar fatos históricos e personalidades marcantes da região, tendo como parceiros os blogs GiroemIpiau e Revistabahiaemfoco, o jornalista José Américo, passageiro de um tempo de experimentação, transformação, evolução, amadurecimento e a caminho da plenitude como poeta, literato e ainda repórter, começa a publicar as entrevistas e reportagens de maior relevância em sua atuação nas emissoras de rádio e jornais impressos: hoje ele nos brinda com a entrevista de Jeré, doido manso, amigo, filho de um dos mais tradicionais ipiauenses. Jeré estava sempre surpreendendo  com recorrentes lampejos de lucidez e sabedoria, que, intempestivamente vai em busca de passados remotos e de quando em vez projeta futuros impensáveis. Vamos ao texto:

JERÉ,O TITÃ DOS LÁBIOS DE BRASA

Por José Américo Castro*

Jeré surtado e, na foto menor, aplicado aluno do GEI. (Fotos do acervo de Zé Américo)

E o gigante tombou na senda da existência. Tinha algo de Atlas, o titã, e muitas vezes se mostrava como o próprio Rei Zulu, com sua nobreza tribal, pelas ruas de Ipiaú. Perambulando, aprontando, filosofando, aplicando pegadinhas, confirmando que “o doido vê a vida pelo ponto de vista original”, ele resistiu com bravura àquele suplício, mas, por não ser eterno, tombou! Não suportou o peso que lhe impuseram.

Sexta Feira da Paixão, dia 18 de abril deste ano de 2014,  após algum tempo internado no Hospital do Estado (HGI), Jeremias Almeida Oliveira, o descomunal “Jeré”, expirou. Saía da cena do cotidiano da cidade mais uma personalidade folclórica. Agora é só história,  memória.

“Cadê a liberdade de imprensa Zé? Perguntava toda vez que me encontrava. Eu tinha que admitir que a tal liberdade continuasse engessada e restrita, devido ao comprometimento da mídia com os interesses de grupos empresariais e de políticos que insistem em camuflar a verdade nas emissoras subvencionadas com verbas públicas.

Grande Jeré, figuraça! Jorge Camafeu o descreveu com precisão: – corpanzil de negro estivador, calção abaixo da linha da cintura, peito desnudo, lábios avermelhados, brasas vivas’. Lambada de serpente, tal qual cantava na “noite fria, tempo quente”.

Nascido na Rua Alfredo Brito, Jeré,54 anos, era o caçula de 10 filhos do sapateiro Antônio Regina,ex-goleiro e roupeiro do Independente Esporte e Cultura, que adquiriu prestígio com o pessoal do futebol dedicando-se ao conserto de chuteiras e couraças de bolas.

A infância de Jeré foi naquela mesma área, cruzando o beco dos Dez Quartos, descendo o barranco, correndo pelo areão, deliciando-se nas águas do Rio de Contas, comprando pão na padaria de seu Zezito. Se sobrasse algum trocado exigia que Chico Gaso não economizasse manteiga no manjar de trigo e fermento que degustava ali mesmo, ao pé do balcão, com um ki-Suco de morango.

Inteligente, bom aluno, Jeré ingressou no GEI, destacando-se na matemática. Nem Samarone, com toda a sua pose de mestre no Ginásio de Rio Novo, sabia lidar tão bem com cálculos, métodos numéricos e trigonometria, quanto Jeremias. Com tanto conhecimento, ele ganhou status de professor e não tardou a ensinar outros alunos.

Concluiu o curso técnico em Administração de Empresas e foi trabalhar em São Paulo. De lá voltou pirado. Dizia que era Pelé e que transava com Xuxa. Falava em Mário Covas e elogiava ACM. Embrutecia sem perder a ternura jamais.

Surtado, era aterrorizante. Armava barraco, quebrava prateleiras, derrubava garrafas, pagava sapo e fechava a cara que habitualmente era amarrada. Se o caldo entornasse pesado, sabia tirar de tempo, mostrando que doido também tem juízo.

Um dia, Babão e outros funcionários do CRAS foram capturá-lo na ponte do Japumirim, com a missão de conduzi-lo até um hospício em Itabuna. Quando já estava dominado e amarrado no interior do carro da Prefeitura, eis que chega ao pedaço, vindo da Fazenda Oceania, o prefeito José Mendonça. Este salta do seu Citroen de luxo, toma conhecimento do ocorrido, e, cheio de complacência, determina a imediata soltura daquela figura exótica que lhe olhava com cara de fera pacificada.

Em liberdade, Jeré não perde tempo: se aproxima do alcaide e expressa reconhecimento pelo gesto benevolente com as seguintes palavras:- “Valeu colega!

O bloco Turma do Funil seguia cheio de animação pela Avenida Lauro de Freitas, em direção à Praça do Cinquentenário. Jeré assistia ao desfile examinando cada detalhe, inclusive os minúsculos abadás que vestiam os foliões. Pouco tempo depois se encontra com o organizador da folia e dispara:“ Ô Ral, tu é sabido mesmo! Pinta um pedacinho de pano, vende caro aos bestas que vão dançar no trio elétrico e depois, com o rabo cheio de dinheiro, tu fica curtindo com a cara deles”.

Era certa a visita diária de Jeré à lanchonete Shark. Ali sempre apresentava algumas das suas pérolas. Um dia ele chegou e foi logo dizendo a Beto, o proprietário da casa: – “Pensa em uma pessoa que vive no regime capitalista e não gosta de dinheiro. Essa pessoa sou eu. Sempre fui contra esse sistema, mas agora mudei de idéia: – me dá um real aí que eu quero encher o tanque”.

Na Rua Dois de Dezembro, perto do bar de Belisca Lua, alguns idosos jogavam dominó e falavam da dificuldade em obter a aposentadoria. Jeré escuta a conversa e se intromete:- “Vocês tão reclamando porque são otários. Se botassem um, enchessem a cara de cachaça e bancasse o doido, como eu, já estavam encostado há muito tempo!

Chegando ao Bar de Paulo Moura, próximo ao Ginásio de Esportes, Jeré é provocado por alguém que pretende tirar um sarro com sua cara: ”Tu ainda bate uma? Pergunta o provocador. Jeré pensa por alguns segundos e afirma que sim! Animado com a resposta o sujeito vai além:- “E tu cobra quanto pra bater uma em mim? Rápido no cálculo, Jeré propõe: ”Tu me dá o teu de entrada e o resto eu parcelo em suaves prestações!

Um conhecido jurista adentrava no seu escritório, quando foi abordado por Jeré:”O senhor ainda é advogado? O nobre bacharel assegurou que sim. Diante da afirmativa, Jeré emendou :-”Então a tua vida é tirar a razão de quem tem prá dar a quem não tem”.

A um antigo contabilista ele indagou: “Tu continua ensinando o povo a sonegar imposto? E concluiu: Contador só sabe fazer isso!

Achei que uma entrevista com Jeré daria grande audiência ao nosso programa de jornalismo na Rádio Livre. Álvaro Luís ( Sikilingue) estava na sonoplastia, enquanto eu entrevistava. Cada pergunta era respondida com incrível precisão. Algumas respostas provocavam gostosas gargalhadas, outras eram contidas de muita seriedade. Em determinado momento, Jeré, invertendo as funções, pede para fazer uma pergunta. Concordei e veio a clássica “Cadê a liberdade de imprensa? Com a minha habitual resposta, a entrevista retorna à surreal normalidade.Já finalizando o programa, Jeré solicita outra pergunta.E esta chegou como um torpedo: -”Ô Zé, tu ainda fuma maconha? Estupefato, olhei prá Álvaro, bebi um gole d’água e dei o troco: – Tu é doido, Jeré!

É claro que eu já saí dessa e que não concordo com as colocações de Jeré em relação a advogados e contabilistas, salvo raras exceções. Também é claro que o genial Ariano Suassuna está certo quando diz que “o doido vê a vida pelo ponto de vista original”.

Jeré foi um doido cheio de lucidez e originalidade. Marcou seu tempo, deixou saudades.

*José Américo da Matta Castro é poeta e jornalista