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CRÔNICA SOBRE JOSÉ DIRCEU:

Por Luiz Carlos Nemetz*

 

 

 

A cabeça da serpente. Inteligente, frio, calculista, meticuloso, disciplinado, culto, treinado, discreto, articulado, organizado, vaidoso, ambicioso. O mais importante, lúcido e preparado líder do PT vai preso definitivamente. 30 anos.

Ele, mais do que qualquer outro, é o mentor intelectual e executor do plano detalhadamente planejado de aparelhar o Estado brasileiro e usurpá-lo para construir uma fina e capilarizada estrutura de poder para implantar uma doutrina radical de esquerda na América Latina a partir do Brasil. Foi pego e derrubado no último degrau da escada que construiu milímetro a milímetro.

Nunca omitiu seus ideais ideológicos. É um guerreiro que não transige nas suas ideias e não tem limites para alcançar seus objetivos. Não teve escrúpulos para tentar implantar a revolução na qual acredita, pelo meio mais torpe e vil que lhe sobrou: o aparelhamento do Estado para roubar. Muitos dos seus seguidores, e outros ingênuos e bobos alegres, seguiram-lhe os passos para encher as burras. Dirceu não roubou só para si. Roubou para corromper outros. É o eixo de todo o mal que está aí e que movimenta muitas engrenagens marginais que ainda vão aparecer. Coisas muito sérias ainda precisam vir e virão à tona. Armas…Drogas…

Sua prisão definitiva é muito mais significativa e importante que a prisão de Lula. José Dirceu é o “capo”. Ele é o verdadeiro líder. O comandante em chefe. Sua saída de cena desestrutura a pior esquerda que existe: aquela que não mede esforços, nem consequências para tentar dominar. Não há – e nunca houve – outra inteligência sequer comparável à de Dirceu na esquerda brasileira. Zé Dirceu representa o que há de mais sofisticado na esquerda e o que há de pior para o país. Por mais duro que – humanamente isso possa parecer – foi mandado para o lugar certo. Não por ser comunista radical. Eu tenho respeito pela sua clareza ideológica! Mas por ser um ladrão perigoso, atrevido e reincidente. E isso eu não posso respeitar! E, por mais doloroso que seja admitir, o Roberto Jeferson tinha razão…

* Sócio fundador da Banca Nemetz & Kuhnen Advocacia – Bacharel em Direito pela Universidade Regional de Blumenau, turma 1983. Especialista em Economia e da Empresa (pós graduação) pela Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 1997. Habilitação para Docência. Professor concursado de Direito Processual Civil e Direito Econômico da Universidade Regional de Blumenau, FURB, onde atuou por 17 anos. Professor das cadeiras de Direito das Coisas e Direito Processual Civil, Execuções, pela Faculdade Bom Jesus de Blumenau, FAE, ano 2009.

 

LAVA JATO E A CULTURA DA BAHIA

Por Lula Martins*

 

 

 

 

Grande parte dos artistas e produtores culturais da Bahia anda assustada com a real possibilidade de ser envolvida nas investigações da Lava jato. As investigações logo irão revelar os esquemas fraudulentos de superfaturamento e privilégios a serviço de figuras representativas da elite cultural baiana.

O que assistimos há mais de uma década é o declínio, desestímulo e claro impedimento das produções que não estejam atreladas aos ideais da esquerda. Está na hora de virar esse quadro injusto e excludente abrindo espaço para uma cultura artística ética e livre que dê apoio e oportunidade aos novos talentos.

Quando deixaremos de ser uma província povoada pela mentalidade ideológica rançosa?

Talento e caráter nem sempre andam juntos. Essa pretensa consciência superior e humanismo altruísta da esquerda bolivariana tem sido nestes treze anos de mentiras políticas, fonte de recursos para artistas e produtores encherem as burras de grana superfaturadas e prestações de contas fraudulentas. Quem não pertence ao esquema tem ficado de fora da possibilidade de ter o seu projeto aprovado.

Já nos anos sessenta Ernst Fischer em A Necessidade da Arte, faz uma reflexão marxista sobre o labor artístico que deu margem a polêmicas acaloradas sobre a arte socialista e a arte pela arte. Eu já amava os Beatles e os Rolling Stones, Hoodstock e a libertária arte pop, sem o condicionamento ideológico repressor da esquerda. A reviravolta da história mostra hoje, que os verdadeiros alienados são os comunistas amantes de ditaduras escravizantes.

Atenção espertos afanadores do erário. Lava jato vem aí.

A Máscara da Tragédia

 

*Antônio Luis Martins é cineasta, escritor, roteirista, compositor, artista plástico, design gráfico e ator do filme “Meteorango Kid, Herói Intergalático”

 

VOLTA, MÃE…

Por Reinaldo Pinheiro*

 

 

 

 

 

Vem dar vida

A minha alma

Colocar jarros 

Nas minhas janelas

Atrair borboletas e beija flores

Não deixes esse poço de amor secar…

 

*Reinaldo Moura Pinheiro é pedagogo, músico, poeta e ex-prefeito de Jequié.

 

O CENTRO DA CIDADE?

Por Aninha Franco*

 

Li um texto escandaloso — aliás, que homem escandaloso!!! – de Milton Santos no livro “Pelo Pelô” (Edufba, 1995), organizado por Marco Gomes, e me perguntei em que lugar está o Centro de Salvador hoje, tema da tese de mestrado de Milton, “O Centro da Cidade do Salvador”, publicado em 1959. Em que Centro está o centro da primeira capital do Brasil que está tão descentrada?

Uma cidade precisa ter seu Zocalo, sua Praça Maior, sua Ágora. Precisa ter a cabeça que lhe pense, ainda que tenha nascido com duas cabeças, como a cobra, com veneno, a cabeça da Praça Tomé de Souza com o poder militar de Tomé de Souza, palácio, prisão, alfândega. E a cabeça do Terreiro de Jesus na Escola, no Centro Educativo da Companhia de Jesus, controlando e adestrando o pensamento brasileiro em formação, com os Jesuítas aos quais o governador Mém de Sá devotava obediência absoluta e não fazia nada sem consulta e aprovação.

Em 1760, os jesuítas saíram do Brasil porque o Marquês de Pombal, o português poderoso do momento, pretendeu modernizar as colônias do Reino sem suas companhias, que prepararam centenas de gerações brasileiras para a felicidade e o prazer no outro mundo, depois da libertação do corpo. Com isso, a Colônia não se tornou laica porque a Igreja Católica é quase invencível e estava instalada na Bahia com centenas de ordens, mas a Praça Tomé de Souza fortaleceu-se com a expulsão dos melhores pensadores da Igreja, os jesuítas, que voltaram ao poder através de Francisco, o papa hippie que está aí, mostrando o Vaticano comandado por um humano infalível que tem dúvidas e fez o voto de pobreza. Pensar é fazer a coisa no momento que a coisa precisa!

Até os anos 1970 nada alterou a força da primeira Ágora, do primeiro Zocalo, do Centro inicial alterado — que ironia!!! — por um shopping, uma casa de passagem criada pelos franceses e multiplicada pelos estadunidenses, o Shopping Iguatemi instalado em 1975 numa região distante do Centro original, que se mudou para o seu novo Zocalo aos poucos, os escritórios comerciais e jurídicos, a vida financeira, o centro administrativo espalhados nos arredores do novo bairro, nomeado Iguatemi como o Shopping.

Enquanto viveu, ACM concentrou todos os centros da cidade e todos os seus poderes em si, às vezes despachando pelos três. Depois dele, o Centro, a Ágora, o Zocalo se multiplicou como Smith em Matrix.

Defronte do Shopping Iguatemi que perdeu o nome que nomeou o bairro, existe um templo da Igreja Universal do Reino de Deus. É lá a Ágora da Cidade da Baía? Está lá o poder do sucessor de Tomé de Souza, Rui Costa? Está no Iguatemi, no Palácio de Ondina ou no Centro Administrativo? E a Praça Thomé de Souza onde está o Palácio do Prefeito e a Câmara de Vereadores que durante a colônia era tão poderosa com seus Homens Bons e Honestos decidindo todas as questões, da exportação de açúcar à liberação de água ardente aos escravizados? Se Milton Santos estivesse vivo, e retomasse sua tese sobre o Centro da Cidade da Baía que, atualmente, tem tantos centros que centro avistaria? Curiosa!

*Aninha Franco é pensadora, escritora, poeta, advogada, dramaturga, crítica, cronista e ativista cultural.

A CAMINHO DA MÚSICA UNIVERSAL

Por Carlos Eden*

 

 

 

 

Na manhã do dia sete de maio, recebi a triste notícia da partida de um velho amigo, companheiro de jornadas musicais ao longo de mais de cinquenta anos.  Paulo Roberto Figueiredo Vieira (Paulo Krupa) nos deixa aos setenta anos de idade, num momento em que ele vinha buscando “dar a volta por cima” após longos anos, afastado da música por motivos de saúde. Criativo, inteligente e bom instrumentista, Paulo influenciou uma nova geração de jovens músicos, principalmente guitarristas e violonistas, já que sua música, mesmo sendo de estilo eclético, era mais voltada para o rock e ritmos relacionados.

Estava recuperando o tempo perdido, compondo, cantando em clips bem produzidos, sendo acompanhado por ótimos jovens músicos, buscando aperfeiçoar o trabalho vocal, já que algumas deficiências auditivas vinham prejudicando um pouco sua performance. Mas em sua incrível força de vontade continuou forçando sua persistência ao extremo, minando assim seu estado de saúde, interrompendo-lhe a trajetória de vida. Agora, sua música está incorporada à Música Universal das Forças do Bem Absoluto.

Juntamente com outro saudoso amigo e companheiro na música, o baixista Cesar Almeida, (a quem quero prestar aqui também, uma homenagem e à sua família), fiz parte de grupos musicais com Paulo na guitarra e ao microfone. Não sendo eu pessoa espiritualmente forte o suficiente para lidar com a dor cruel da perda, forço minha natureza ansiosa para conseguir escrever estas minhas sentidas homenagens, e palavras de conforto aos familiares de Paulo: seu filho Pablo, a ex-esposa Conceição, os irmãos Aroldo, Francisney e Gleyde, e demais membros da família. Descanse em paz, amigo.

*Carlos Éden Meira é jornalista, cartunista, DRT 1161

AQUELE MOMENTO FATAL

Por Nelson Motta* – via Aninha Franco**

 

 

A meia hora fatal em que Lula e Dilma se trancaram em uma sala, e ela saiu candidata à reeleição, mudou o rumo do Brasil

Com a participação de todas as suas correntes internas na discussão dos programas do partido e na ocupação de cargos de governo, com suas assembleias intermináveis, o PT sempre se orgulhou de sua democracia interna, de ser um partido sem caciques — embora comandado por Lula e José Dirceu. Lula sempre mandou no partido, nas executivas, nos diretórios, nas assembleias, em Dirceu, mas reinava principalmente nos comícios, insuperável com sua inteligência, seu histrionismo, sua malandragem política e suas bravatas que incendiavam a militância. Que partido não gostaria de ter um líder com o carisma e a personalidade de Lula?

O lado ruim de ter um líder carismático absoluto, cultuado e incontestável é depender de suas decisões pessoais, de acordo com as suas conveniências de momento.

Ao indicar no “dedaço” Dilma Rousseff para presidenta, enfrentando profundas e fundadas resistências no partido, afinal o DNA dela era brizolista, assumiu o seu maior risco — e conquistou a sua maior vitória. Depois, para eleger Fernando Haddad prefeito de São Paulo, chegou a fazer uma aliança e posar ao lado de Maluf, para estupor dos petistas de todas as correntes. E, cheio de orgulho e certeza, cunhou uma de suas grandes frases: “De poste em poste vamos iluminando o Brasil”.

Se houvesse democracia interna no PT, com convenções para escolher candidaturas, em 2014 Lula teria sido aclamado pelo partido para a sucessão de Dilma e massacraria Aécio Neves. Mas, assim como a havia escolhido imperialmente, Lula teria que discutir com a rainha, só com ela, a sua sucessão.

Aquela meia hora decisiva em que os dois se trancaram em uma sala, e Lula saiu abatido e Dilma candidata à reeleição, mudou o rumo do PT e a História do Brasil. No momento em que sua força, sua experiencia e sua inteligência foram mais necessários, Lula piscou. E Dilma ganhou no grito, rompendo o acordo de o poste devolver-lhe o trono depois de quatro anos.

O resto é história, com as consequências funestas que teve para o Brasil, para o PT e para Lula, porque um grande líder popular quase religioso e infalível falhou num momento fatal.

Aquele momento fatal!

* Nelson Motta é jornalista, compositor, escritor, roteirista, produtor musical, teatrólogo e letrista brasileiro – Publicado no site O Globo

**Aninha Franco é pensadora, escritora, poeta, advogada, dramaturga, crítica, cronista e ativista cultural.

GLÓRIA E DESGRAÇA

Por Joaci Goes*

 

Ao velho amigo Duda Mendonça, artífice da primeira eleição de Lula!

O naufrágio moral e político de Lula confere atualidade e aproxima dois aforismos fundamentais da fé e da razão: o bíblico, “De que vale ao homem ganhar o mundo se perder o reino dos céus”(Marcos, 8:36), e o laico, da lavra de Goethe, “O maior de todos os erros é permitir que as coisas menores impeçam a realização das maiores”.

Como dissemos a respeito de Lula, no livro (as) 51 personalidades (mais) marcantes do Brasil, são várias as singularidades de sua rocambolesca biografia. Uma delas é o absoluto recórde brasileiro de 5 candidaturas à presidência da República, em que perdeu as três primeiras (1989, 1994 e 1998) e venceu as duas últimas (2002 e 2006). A segunda é ter sido o primeiro presidente do Brasil nascido em Pernambuco. A terceira é a de ser o único presidente sem curso superior. A quarta é haver terminado o governo com os mais altos índices de popularidade. A quinta é a de ter feito sua sucessora depois de governar oito anos seguidos, com a marcante singularidade de nunca haver ela, Dilma Roussef, exercido qualquer função pelo voto popular. A sexta é a de figurar, com o melhor rank, entre os brasileiros, nas listas das personalidades mais influentes do mundo. Segundo a revista americana Newsweek, Lula era, em 2008, a 18ª pessoa mais poderosa, caindo para o 33° lugar, em 2009, de acordo com a revista Forbes. A sétima peculiaridade foi ser considerado pelo jornal francês Le Monde e pelo espamhol El País, o Homem do Ano, em 2009.

O jornal inglês Financial Times incluiu-o entre as 50 pessoas que moldaram a primeira década do terceiro milênio, pelo seu charme e habilidade política, enquanto o Instituto Datafolha apurou que ele foi considerado a mais confiável entre 27 personalidades pesquisadas, no início de 2010, tendo recebido no Forum Econômico Mundial, em Davos, na Suiça, o prêmio, pela primeira vez deferido, como Estadista Global, pela sua atuação para redistribuir renda, reduzir a pobreza e preservar o meio ambiente, com reflexos mundiais. Enquanto isso, o jornal israelense Haaretz declarou em março de 2010 que Lula é “o profeta do diálogo”, por suas mediações para promover a paz no Oriente Médio, e a revista Time, em abril de 2010, situou-o como um dos 25 líderes mais influentes do mundo. A ONU, por sua vez, condecorou-o como o Campeão Mundial na Luta Contra a Fome e a Desnutrição Infantil. Tudo isso levando a crer que pudesse ganhar o Nobel da Paz, edição 2011. E a maior de todas as singularidades, esta de caráter universal: “nunca antes na história desse país”, para não dizer do mundo, alguém chegou tão longe a partir de tão modesta origem.

Tudo isso foi jogado na lata do lixo, a partir do momento em que, cedendo ou em sintonia com os seus mentores, José Dirceu à frente, Lula decidiu colocar todo o seu prestígio a serviço da manutenção do poder, ainda que ao preço da dilapidação do patrimônio moral e material do País, mancomunando-se com partidos de todas as tendências e empresários anéticos para organizar a maior pilhagem contra o Erário de que se tem notícia na história do mundo. Do ponto de vista do resultado prático, esse assalto contra a bolsa popular constitui crime de genocídio perpetrado contra um povo, de dimensões comparáveis ao holocausto do povo judeu, sob o guante de Hitler.

Com efeito, a maioria dos que pereceram nos acidentes provocados por deficiências de nossa infraestrutura física, os mortos na violência das ruas, nas filas dos hospitais ou de causas derivadas da ignorância teria sobrevivido se esses recursos não tivessem sido desviados sob a orientação maior de Lula, a partir do momento em que se sentiu apto a alçar o voo das garças que deixam o pântano exibindo plumas imaculadamente brancas.

Ironia do destino: o Forum de São Paulo, inaugurado em 1990 e concebido para reavivar a combalida esquerda, na esteira da implosão da União Soviética, ao tempo em que alavancou a carreira de Lula, transmitiu-lhe um sentimento de onipotência que o levou a supor que tudo poderia num país de maioria analfabeta, facilmente seduzível com a reiterada promessa de lhe dar o céu na terra. A impunidade alcançada no mensalão foi a senha para dar sequência ao momentoso assalto contra o patrimônio público e as instituições brasileiras, resultando na escumalha em que se transformaram o Executivo, o Legislativo e o Judiciário brasileiros, com as exceções que confirmam a regra.

Adepto de um pragmatismo que esnoba os valores da cultura, Lula ignorava a lição de Lord Acton segundo a qual “todo poder tende a corromper, e o poder absoluto a corromper, absolutamente”.

Está claro que uma maioria circunstancial no Supremo Tribunal Federal já se manifestou decidida a acabar com o início do cumprimento da pena pelos condenados em segunda instância, modo subliminar de assoalhar, erga omnes, que no Brasil o crime compensa. A sociedade brasileira vive, doravante, o desafio de se armar contra esse crime hediondo que quer perpetrar a mais alta corte de justiça, a de mais baixa qualidade moral em toda a nossa história.

A prisão de Lula, por 31 dias, em 1980, projetou o seu nome na política nacional. A prisão de agora decreta seu triste fim, por ele mesmo tecido.

*Joaci Góes é bacharel em Direito, empresário, colunista, escritor, membro da Academia de Letras da Bahia (Artigo publicado na Tribuna da Bahia)

51 COISA NENHUMA

Por Aninha Franco* em Trilhas**

 

 

O Brasil está profundamente chato! Dividido entre petistas e antipetistas, mestiços e racistas reais ou imaginários, LGBTS e heteros, corruptos e honestos, elites e zelites, ele não consegue construir nada porque divisão é a operação matemática inversa à multiplicação.

Essa obsessão divisória deve ser sequela do lulopetismo, que assim que chegou no poder, em 2003, começou a discutir tudo em seminários, sem jamais concluir coisa alguma. Mas dividindo todxs. Por isso, quando Lula discursando para sua seita, sábado, 7 de abril, disse que ele agora era uma ideia, a representação mental de algo concreto, abstrato ou quimérico, e muita gente viu uma água ardente 51, eu vi o Brasil dividido, brega, velho, sem projetos, mal-humorado e triste que Lula idealizou. Então, nada de 51 como espalharam por aí.

Há muito tempo o Brasil não tem a alegria de uma boa ideia. Com Dilma, entre uma pedalada e outra, pós prisão de João Santana, ouvindo loucuras, o Brasil não foi feliz, mas deu suas últimas gargalhadas. Quando não se tem uma boa ideia, um caminho é fazer o povo rir. É a lógica do teatro. Porque é impossível manter seriedade diante das ideias de Dilma.

Temer, que parece sem ideias, bem que poderia nomear Dilma porta-voz de sua presidência, com autonomia para dizer o que quisesse. Executar não, que ela é capaz de fazer o peão levitar! Só dizer! Saudar a mandioca, orgulhar-se da mulher sapiens, propor o estocamento de vento e acrescentar coisas novas, Dilmices inéditas para alegrar o Brasil que a cada noticiário chora.

É uma grande injustiça que Dilma atualmente distraia a imprensa internacional com esse papo de golpe, chatíssimo, patrocinada por nós, e nós tenhamos que suportar Gleisi Hoffman ao quadrado, como presidente do PT e como porta-voz de Lula, que parece adorar uma loura…

Por que Lula, o tutor de Dilma Rousseff, o cara que fez sua seita eleger a “mulher de Lula” em 2010 e em 2014, não fez dela sua porta-voz? Por que a “Ideia” só tem péssimas ideias? Porque é uma ideia obtusa da “Ideia” fazer de Gleisi sua voz. Uma “Ideia” condenada a 12 anos por corrupção e lavagem de dinheiro com uma porta-voz acusada de se eleger superfaturando taxa de administração cobrada de funcionários públicos, pensionistas e aposentados endividados que recorreram a empréstimos consignados é a desmoralização do Brasil.

Disso a imprensa internacional não é informada. Que o PT, segundo a PF, arrecadou mais de 100 milhões de reais em cinco anos aplicando esse estelionato, e elegeu Gleisi senadora com ele a imprensa internacional não recebeu notícia. E Gleisi é a Voz da “Ideia”!

Além de escorchar velhinhos – Lula da Silva que se cuide, mas os dois são brancos e eles que se entendam –, Gleisi é “uma ideia” esganiçada. Gleisi fala e, imediatamente, pensa-se (…) Deixa pra lá! Os tempos estão repletos de ideias bizarras, mas elas não durarão para sempre.

Minha mestra Hannah Arendt me ensinou que “o poder nunca é propriedade de um indivíduo; pertence a um grupo e existe somente enquanto o grupo se conserva unido.” Como há tudo no Brasil, menos união, os tempos sombrios estão por um fio.

*Aninha Franco é pensadora, escritora, poeta, advogada, dramaturga, crítica, cronista e ativista cultural.

**Publicada em CORREIO24HORAS.COM.BR

“UMA IDEIA”

 Por William Waack*

 

Lula preso deveria ser página virada na história política do País, mas temo que não seja. É óbvio que a prisão do principal chefe populista brasileiro em mais de meio século virou símbolo de enorme relevância numa esfera, a da política, que vive de símbolos. Não é pouca coisa ver atrás das grades um poderoso e rico, como Lula. Também não se pode ignorar o efeito para a autoestima de enorme parcela da população da noção do fim da impunidade. Um homem que nunca demonstrou grandeza exibiu-se apequenado e raivoso ao ser preso em meio a seguidores da seita que ainda conduz. Contudo, não é o destino do indivíduo aqui o mais relevante.

Ironicamente, Lula foi condenado e inicialmente preso por crime incomparavelmente menor em relação aos que cometeu, e não considero como pior deles o formidável aparato de corrupção que presidiu com a alegre colaboração de elites sindicais, acadêmicas, empresariais e o corporativismo público e privado. Apequenar o Brasil lá fora, diminuindo nosso peso específico, destruir o tecido de instituições (começando pelo da Presidência), fazer a apologia da ignorância e decretar o atraso no desenvolvimento econômico compõem pesada conta que mal começou a ser paga. O Brasil teve o azar de abraçar o lulopetismo na curva de subida de um benéfico superciclo global de commodities que não se repetirá por muito tempo. Em outras palavras, a pior e imperdoável obra lulista foi ter desperdiçado uma (única?) oportunidade de livrar o País rapidamente de desigualdade e injustiça sociais.

A prisão de Lula, paradoxalmente, não parece estar aprofundando entre nós o debate em torno dos eixos que seriam essenciais para recuperar o País em prazo mais dilatado – digamos, a próxima geração. Será que, além dos erros de conduta do indivíduo Lula, percebe-se que a crise em que estamos (começando pela econômica) é resultado do apego a ideias completamente equivocadas? O ímpeto de punir aumentou e, junto dele, consolida-se a perigosa noção de que vale tudo para pôr rápido na cadeia quem for denunciado – claro, diante da ineficiência da Justiça não chega a ser tão espantosa assim a evolução dessa mentalidade punitiva. Estamos na fase de mandar às favas os princípios (o verbo mais usado é outro, impublicável), contanto que o safado esteja preso. Porém, temo ter de afirmar que já caímos na armadilha, começando pelas elites pensantes, de acreditar ingenuamente que lavando a jato corruptos o sistema político volta a funcionar.

Não parece ter ganhado ainda sentido e direção claros essa onda de descontentamento e indignação que encurralou a política e agora fracionou perigosamente o Judiciário – que de fato manda hoje na política, por meio de figuras populares que não foram eleitas. Primeiras instâncias do Judiciário, por exemplo, pegaram o gosto de sangue e emparedam instâncias superiores pela atuação política em redes sociais e mídia. Por sua vez, as instâncias superiores estão profundamente divididas e renderam-se ao hábito de falar dentro e fora do plenário do STF para o que consideram que sejam suas audiências prediletas. Nesse quadro fluido e volátil não consigo identificar um Estado-Maior ou Central da Conspiração (muito menos das Forças Armadas).

No plano geral da política hoje não há quem puxe, só há empurrados. Por um fluxo que pede “mudança” sem apontar qual (fora o anseio, legítimo e correto, pelo impecável ficha-limpa). Falta algo importante ainda para que o encarceramento do populista sem caráter corresponda a uma página de histórica virada. Meu receio é de que a prisão de Lula acabe surgindo como grande evento que, na percepção do dia a dia, não se revela tão grande assim. Nesse sentido, vale a pena citar o que ele disse ao discursar para integrantes da seita no dia da prisão, quando declarou ser ele mesmo “uma ideia”. É ela que nos atrasou e conduziu à beira do abismo. Precisa ser derrotada, e ainda não foi.

*William Waak é jornalista. Publicada no jornal O Estado de São Paulo

O BRASIL QUE CONTA: O DOS AFETOS, DAS PESSOAS REAIS

Por Eduardo Affonso via Iracema Carneiro

 

 

Ainda bem que não escrevi nada sobre a pantomima deste fim de semana. Diante do que outros escreveram, teria sido molhar o encharcado.

Enquanto o vermelho escorria pela fachada do prédio da Carmen Lúcia ou coagulava no asfalto em frente ao Instituto Lula, eu estava envolvido em beijos, abraços, delicadezas e boa prosa. Fiquei, assim, a salvo do ódio, da indignação, do nojo, da vergonha alheia.

Acompanhei de rabo de olho a Sexta-feira da Paixão da alma mais honesta do país, mas com os ouvidos ligados no diálogo que se dava à minha frente, numa livraria do Leblon, não nas palavras de ordem gritadas em São Bernardo.

Via manchas rubras difusas na tevê sem som, mas preferi o verde aveludado dos olhos da minha mãe, suas poucas sílabas e seus veementes silêncios.

Caravanas de desocupados marchavam para Curitiba, mas um sobrinho queria era andar de bicicleta, uma sobrinha tirava o capacete para me dar um beijo, uma terceira contava o confuso enredo do romance açucarado no qual se lambuza (adolescentes e abelhas têm tanto em comum).

Não houve tempo de comemorar a prisão pela qual esperava todos esses anos. Nem para lembrar que nas últimas três décadas chorei poucas vezes – no dia da morte do Tancredo; no dia seguinte à morte do meu pai; enquanto me decidia pela morte da Benedita; no final do filme “Dançando no escuro”; na terapia, quando falei da perda da minha avó; e na posse do Lula – este, o único choro de esperança.

Nenhum desses choros foi exclusivo – pai, avó, cachorra, personagem, presidente, cada um trazia consigo uma legião de outras dores, outros danos irreparáveis. A posse do Lula tampouco foi só a posse dele: assumiam o poder todos os sonhos de igualdade, justiça, inclusão.

Sonhos não envelhecem. Olha eles aí, firmes e fortes, enquanto quem um dia os personificou – e traiu – sobe embriagado num palanque, tropeça na verdade, trapaceia um pouco mais, e não engana ninguém além dos que, por conveniência, decidiram devotar-se a ser enganados.

Amanhã, enquanto as bandeiras vermelhas dos sem escrúpulos se agitam sob o céu de Curitiba, em Juiz de Fora nasce a Laura (mais uma sobrinha para a coleção!). Ainda não se sabe se sairá à mãe ou ao pai, aos avós ou ao tio-avô coruja; se terá os olhos negros da Júlia e do João ou a íris azul do Eros. Mas verá um país em que, finalmente, ninguém está acima da lei.

É esse país que conta, o dos afetos, o das pessoas reais – não o das notícias falsificadas, das licitações superfaturadas, das mentiras repetidas à exaustão, das liturgias cheirando a cachaça.