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MORRE UBALDO MARQUES PORTO FILHO, O ESCRITOR DO RIO VERMELHO

Ubaldo Marques Porto Filho deixa como principal legado o seu amor pelo Rio Vermelho

Foi sepultado na tarde desta quarta feira (16) o corpo do administrador e escritor Ubaldo Marques Porto Filho, historiador com vários livros pulicados e uma vida voltada para o bairro do Rio Vermelho. De acordo com informações passadas para o Blog ele sofreu um infarto e estava internado há alguns dias no Hospital Português.

Formado em administração pela Universidade Federal da Bahia, com 27 obras publicadas (14 relacionadas ao Rio Vermelho), Ubaldo foi um dos fundadores da Amarv – Associação dos Moradores e Amigos do Rio Vermelho, e da Academia dos Imortais do Rio Vermelho. A notícia da sua morte deixou o bairro entristecido.

Incentivador e ex-presidente da AMARV, Ubaldo Marques Porto Filho era apaixonado pelo bairro e num trabalho constante agregava sócios para a entidade, que se reunia mensalmente.

Ainda me lembro da última reunião em que estive presente, levado por Lauro Loly. Aconteceu no Bahia Park Hotel, no largo da Mariquita. Ubaldo sempre gentil e receptivo funcionava como um mestre de cerimônias. Da Vila Matos à Fonte do Boi, da Chapada à Paciência, os moradores mais antigos rendiam homenagens ao mineiro que aportou no Red River.

Nota da AMARV

É com tristeza que a Associação dos Moradores e amigos do Rio Vermelho, informa aos seus sócios, amigos e moradores do bairro, o falecimento do Sr. Ubaldo Marques Porto Filho. Fundador e ex- presidente dessa entidade; escritor e historiador do bairro, que descansou ontem no Hospital Português.

Mensagem do professor doutor Héllio Campos – Mestre Xaréu

O Rio Vermelho perde uma expressão singular do Bairro. Ubaldo desde criança se ocupava pelas coisas do Rio Vermelho, mas foi durante a juventude que convivi diuturnamente com Ubaldo, e pude perceber a sua dedicação ao futebol, especialmente ao Clube do Parque como jogador e dirigente. Em seguida se dedicou ao Grêmio da Juventude do RV., festejos do Rio Vermelho, criou a AMARV, a Academia dos Imortais do Rio Vermelho e tantas outras instituições com a finalidade de preservar a memória do bairro, melhorar a infraestrutura e dá visibilidade turística. Inquieto Ubaldo começa a escrever, neste momento tenho em mãos o meu livro favorito de Ubaldo o Rio Vermelho. Ubaldo amplia, sobremodo seus horizontes literários escrevendo vários livros sobre personalidades marcantes do RV. Por mais que escreva e fale, sempre será pouco, muito pouco mesmo traçar a trajetória sobre a fantástica contribuição. Ubaldo um amante inveterado das coisas do Rio Vermelho. Ubaldo Fica com Deus.

Mensagem do jornalista e pesquisador Jorge Ramos

O corpo de Ubaldo Marques Porto Filho será sepultado nesta quarta-feira (16) às 16 h no Cemitério Jardim da Saudade, em Salvador. Ubaldo era filho de Ubá (MG), a terra de Ari Barroso, mas se criou em Cachoeira Bahia, onde seu pai foi durante muito tempo gerente do Banco do Brasil (agência de São Félix) e uma destacada liderança pessoal junto à comunidade, com muitos serviços prestados ao comércio e à sociedade local. Mais tarde, Ubaldo Marques Porto transferiu-se para o Rio Vermelho, bairro que amava e do qual se tornou uma das figuras mais emblemáticas, tendo escrito vários livros sobre Yemanjá, Caramuru, a história dos nomes das ruas do bairro e sobre a presença da Família Taboada na comunidade. Grande pesquisador, era presença cativa no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, do qual era sócio. Deixa um livro inédito “De UBá a Cachoeira e ao Rio Vermelho”, onde conta a sua trajetória de vida, contextualizando a vida em cada um desses locais onde viveu e amou. Escreveu no ano passado, juntamente com Álvaro Dantas de Carvalho Júnior, o livro “2 de Julho, a Independência da Bahia e do Brasil”. Há poucos dias, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, dividíamos informações sobre a figura histórica de Geraldo Rocha ( tio e padrinho político do ex-governador Antonio Balbino), um engenheiro baiano, notável empreendedor, que entre 1907 e 1912 esteve à frente da construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré, na região amazônica, e que foi jornalista e dono de jornais e revistas no Rio de Janeiro (A Noite, A Noite Ilustrada, O Mundo Ilustrado). Sobre ele, Ubaldo pretendia escrever a biografia dele e estava na fase de coleta de dados. Que Deus acolha a sua alma!

PARA REFLEXÃO

Roberto Ampuero* 

(Compartilhado de Antonio Magalhães Ribeiro)

 

 

“A experiência do Chile de Pinochet, da Cuba dos Castro e da escrita deste romance me ensinaram algo mais: não há nada que se pareça mais com uma ditadura de direita do que uma ditadura de esquerda… nada mais parecido com o hitlerismo do que o stalinismo…

Para aquele que aguarda o interrogatório em uma célula de segurança do Estado, dá na mesma se seu torturador é de esquerda ou de direita, se é religioso ou ateu, se acredita no comunismo ou na segurança nacional…

O terror e a dor, a angústia e o sofrimento, a impotência e a arbitrariedade que experimentará nesses calabouços serão simplesmente uma afronta à espécie humana. Nesse instante, todas as ditaduras são uma e a mesma, e toda dor que o ser humano sente diz respeito à humanidade em seu conjunto, não importa quais sejam suas convicções políticas.

Enquanto releio este manuscrito, pergunto-me o que leva o ser humano, ou melhor dizendo, o que leva tantos seres humanos a condenar uma ditadura de direita e a celebrar ao mesmo tempo uma ditadura de esquerda. Que retorcido mecanismo mental os conduz a denunciar o abuso, a tortura, a marginalização, o escárnio, o exílio, a repressão e o assassinato daqueles que pensam de modo diferente sob uma ditadura de direita, mas os faz justificar essas mesmas medidas contra aqueles que se opõem a uma ditadura de esquerda?

 O que leva uma pessoa a condenar um general que dirige durante dezessete anos um país andino com mão de ferro e a elogiar em contrapartida um comandante que há 50 anos comanda de igual modo uma ilha? Será que isso se deve à ignorância, à hipocrisia ou ao oportunismo, ou a uma lealdade mal entendida em relação a bandeiras ideológicas, à postergação da realidade diante da utopia e do indivíduo em relação à massa, ou simplesmente à exacerbação extrema da falta de humanidade de nossos dias”?

*Roberto Ampuero foi membro da juventude comunista do Chile e, após o golpe de Pinochet, se exilou na RDA e, posteriormente, em Cuba, por alguns anos. No livro:  “Nossos anos verde-oliva”, Editora Saraiva/Benvirá, São Paulo, 2012, pp 481-482.

NASCIDO NA BAHIA, POETRIX MOVIMENTA LITERATURA MUNDIAL COM FORMAS, CORES E DEBATES

Os poetrixtas baianos Goulart Gomes, Jussara Midlej, Gersinio Neto, Djalma Filho, Cristina Amorim, Marco Bastos, Oswaldo Martins, Ronaldo Jacobina, Vera Trindade, assim como a carioca Lilian Maial, entre tantos outros, do Brasil e exterior, integram o grupo de 43 poetas participantes da Antologia Poetrix 5, seleção de sensibilidade e poesia num texto conciso e inteligente. O lançamento será no dia 11 de agosto na Livraria Cultura – Rua Senador Dantas, 45, mezanino, Centro, Rio de Janeiro das 18 às 21 horas e no dia seguinte, 12/8, em São Paulo no Espaço Scortecci – Rua Deputado Lacerda Franco, 96, Pinheiros, das 17:30 às 20:30 horas.

Poesia contra corrupção, fome, injustiças  ou guerras. Poesia que se veste que carrega as compras e até protege o celular. Não é de hoje que o senso comum parou de associar a linguagem poética a uma visão desconectada da vida prática. É com essa proposta que o Movimento Internacional Poetrix (MIP) chega aos 17 anos com histórias pra contar e mais uma antologia. As comemorações já têm data marcada com lançamento da Antologia Poetrix 5 no Rio de Janeiro e em São Paulo, dias 11 e 12 de agosto, respectivamente.

Quinta edição de uma série, o título reúne 43 autores do Brasil, Portugal, Estados Unidos e Colômbia, com textos em português  e inglês. No conteúdo, os integrantes do MIP mostram engajamento e sintonia com seu próprio tempo e colocam em discussão guerras, intolerância, fome, política, corrupção, além dos já tradicionais temas existenciais e afetivos. Esse volume conta com mais de 300 poetrix.

A linguagem poética Poetrix surgiu em 1999, com uma proposta minimalista, conquistando praticantes, no Brasil e no exterior. Em 2002, portanto há exatos 15 anos, seria publicada a primeira antologia, com apresentação dos escritores Alice Ruiz e Aníbal Beça.

De lá pra cá, a irreverência tomou conta do MIP, especialmente na forma, a exemplo do Tautotrix, em que todas as palavras começam com a mesma letra; Acrostrix, no qual as primeiras sílabas de cada verso formam o título; ou Mesostrix, em que as sílabas centrais formam o título. E ainda Videotrix e Grafitrix, com nomes que falam por si. Este último, inclusive, saltou das páginas para a vida do leitor, em formato de canecas, sacolas, capas de celulares, almofadas. Em maio deste ano, alguns autores realizaram uma exposição de Grafitrix em Buenos Aires.

Poetrix

O Poetrix é um terceto contemporâneo de temática livre, com título e um máximo de trinta sílabas. Proposto, inicialmente, como uma evidente alternativa ao hai-kai, mantendo a sua forma em tercetos, mas subvertendo o seu conteúdo, ao admitir título, rimas, figuras de linguagem e um maior número de sílabas. Mais informações: Bula Poetrix no site www.movimentopoetrix.com.br

O MIP já realizou sete concursos literários e publicou seis coletâneas com a participação de poetrixtas do Brasil, Argentina, Uruguai, Colômbia, Venezuela, Estados Unidos, México, Espanha, Portugal, Angola e Suíça. Estimulou a publicação de diversos livros e a divulgação de poetrix na Internet, que já ultrapassa a marca dos 150.000 poetrix publicados por centenas de autores (ver www.recantodasletras.com.br).

Goulart Gomes, o criador da linguagem poética Poetrix, é baiano, administrador de empresas, tem pós-graduação em Literatura Brasileira (UCSAL) e em Gestão de Comunicação Integrada (ESPM-RJ). Trabalhou por quase 20 anos na área de Comunicação Empresarial. Obteve 70 prêmios em concursos de poesia, prosa e festivais de música e participou de 48 coletâneas publicadas no Brasil, Cuba, Espanha, USA, Itália, França e Coréia do Sul e tem trabalhos divulgados em vários outros países. Atualmente é o coordenador geral do Movimento Internacional Poetrix. Como editor alternativo propiciou a publicação de 53 livros e coletâneas de novos autores.

A LUTA POR UM PARLAMENTO INDEPENDENTE!

por Ângelo Coronel*

 

 

 

A sociedade está chegando no limite da paciência para com os poderes constituídos. Os poderes a cada dia vêm perdendo a credibilidade. Estamos no olho do furacão. Todos devem fazer exame de consciência e começar a mudar as atitudes, focando sempre no bem estar da sociedade.

Como parlamentar, defendo que o Poder Legislativo não deva se curvar e tornar-se capacho do Executivo. Tudo o que o Executivo planeja e realiza (empréstimos/convênio para construção de estradas/hospitais/escolas, equipamentos para seguranca, etc), depende da aprovação/autorização do Poder Legislativo, pois sem ela o Poder Executivo deixa de executar.

Qual o chefe de Poder Executivo no Brasil que, quando em público, fala: “Essa obra só está sendo possível realizar pois o Parlamento aprovou?”. Na Bahia, todos os governantes que por aqui passaram, com raríssimas exceções, fizeram alguma menção em público sobre a parceria com o Poder Legislativo.

A sociedade deve ser informada de que o Legislativo é sócio “Fifty-Fifty” quando houver o sucesso nas ações executadas pelo Poder Executivo, proveniente das nossas prévias aprovações/autorizações. Basta de sucesso unilateral.

Não executamos, mas damos o direito e autorização para executar. O Parlamento independente deve ser convidado, previamente, para participar dos debates visando sempre buscar ações que objetivem o bem-estar da sociedade. Na essência, esse deve ser o papel do Parlamento, além do de fiscalizar.

Os governos (Federal, Estaduais e Municipais) preferem o Parlamento fraco e subserviente e acham que, com algumas migalhas, se apropriam do Legislativo. E a pior constatação: na maioria dos Estados…é a verdade.

A independência de um Parlamento não significa briga e sim buscar o respeito mútuo, pois quando há esse respeito a harmonia será sempre imperiosa. Mas quando esse respeito é relegado a cizânia entre os Poderes começa a andar em passos largos.

Os 180 dias que completei estando de plantão à frente da Assembleia Legislativa do nosso Estado tenho tentado mudar esse conceito, apesar de ter encontrado algumas resistências. Mas sinto nos olhos, nos gestos e nas palavras da maioria dos colegas a vontade e a determinação de buscarmos a nossa alforria parlamentar.

Tenho a convicção de que já avançamos muito e já começamos a ganhar o respeito da sociedade, não só com as atividades parlamentares, mas com nossas ações sociais, já com repercussão em outras Assembléias do Brasil. A ALBA, nesse novo tempo e com novas atitudes, está fazendo a sua parte no sentido de dar início ao resgate da classe política.

Ainda se tem tempo. É só querer!

* Angelo Coronel é deputado estadual pelo PSD e presidente da Assembleia Legislativa da Bahia.

TENTATIVA DE EXPLICAR O FANATISMO QUE ENVOLVE A FIGURA MÍTICA DE LULA

É recorrente, na imprensa brasileira, a tentativa de explicar a insistência de alguns em sonhar com o retorno de Lula às disputas eleitorais de 2018. O pessoal que se diz militante do petismo se esforçam em redobrar as forças no sentido de reconquistar o governo e a hegemonia política perdidas. 

Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser faca amolada / O brilho cego de paixão e fé, faca amolada / A fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada

A jornalista paulista Vera Magalhâes, do Estadão, se inspirou na música de Milton Nascimento para definir os habituias militantes e defensores do ex-presidente Lula. Oportuna a simbologia da fé e da faca amolada!

FÉ CEGA, FACA AMOLADA

Por Vera Magalhães*

 

O ex-presidente Lula cada vez mais prega apenas aos que estão cegos pela fé

16 Julho 2017 | 05h00

 

“Um brilho cego de paixão e fé, faca amolada.” Diante da cena de um líder cansado, roufenho, enumerando fantasias diante de uma plateia reduzida, anestesiada aos fatos, aplaudindo bovinamente nas pausas pré-fabricadas e entoando cantos religiosos, só me vinham à cabeça os versos de Milton Nascimento.

Lula deixou o terreno da política e está operando na seara do messianismo. Na quinta-feira passada, ao se defender da condenação a 9 anos e 6 meses de prisão, parecia mais um pastor de igreja neopentecostal do que um ex-presidente da República.

Ao desenhar um diabo, no caso Sérgio Moro, contra o qual os fiéis devem lutar; ao prometer o reino do céu a quem der seu dízimo e sua energia pela igreja-partido; e, sobretudo, ao atribuir os infortúnios a causas metafísicas, ele mostrou mais do que nunca o fenômeno que acompanha sua imagem desde o início, mas que agora se acentuou: o lulismo nada mais é do que uma expressão de messianismo.

A novidade pós-petrolão é que, diante dos fatos, ele se despiu do que já teve de significado histórico, político ou sociológico. O “messias” hoje se aproxima mais de figuras como Antonio Conselheiro ou Jim Jones, liderando poucos e fanáticos, que de outros líderes carismáticos da política a quem Lula sempre foi comparado.

E quando uma questão política se reveste de fé cega entra em campo a faca amolada, que mostra seu fio autoritário em falas como as vistas desde que Lula recebeu sua sentença.

O PT diz que não vai reconhecer (!) as eleições se Lula não puder disputar (será que o fará caso ele dispute e perca, uma hipótese bastante possível?), o partido promete “parar o País” em protesto contra a decisão de Moro, a igreja conclama seus fiéis a lincharem publicamente as instituições, um seguidor da seita apresenta uma emenda para impedir prisão oito meses antes das eleições, entre outras demonstrações de perigoso fanatismo político-religioso.

Como nos rituais que buscam o transe dos fiéis, o PT repete à exaustão que não há “uma única prova” contra Lula. Caso descessem do altar e fossem à sentença, achariam o encadeamento de todos os fatos e documentos que demonstram que Lula: 1) negociou o triplex do Guarujá; 2) fez chegar à OAS que seria bem visto que ela assumisse a obra quando a Bancoop ficou mal das pernas; 3) continuou a negociação do imóvel com seu chapa Léo Pinheiro, agraciado com lautos contratos por seu governo; 4) pediu, aprovou e vistoriou as reformas do apartamento.

Quem diz não é um delator vítima de semitortura, como Lula descreveu em um de seus recursos às “fake news” na quinta-feira passada. É um depoente que também foi condenado, cujo relato foi corroborado por vários outros.

Uma demonstração de que a fé cega prescinde de lógica ou coerência é que os documentos cuja existência os petistas negam foram periciados. A título de comparação, eles já aceitavam como verdade absoluta a gravação da conversa de Michel Temer com Joesley Batista antes mesmo da perícia.

No caso de Lula, os fiéis dizem que a prova de que o apartamento não era dele é que não está em seu nome. Mas, no de Temer, pouco importa se os R$ 500 mil de Rocha Loures chegaram ou não ao presidente. A corrupção passiva de um é diferente da do outro.

Também escapa aos fiéis o fato de que foi seu pastor quem indicou o “demônio” Temer. Não haveria o atual governo sem os de Lula e Dilma.

Assim, reduzido à figura de um missionário das próprias mentiras, Lula vai correr o Brasil repetindo sua ladainha cada vez mais delirante. A essa altura pouco importa se estará preso ou não em 2018: o mito foi exposto à luz e à própria mesquinhez. Cada vez mais prega apenas aos que estão cegos pela fé.

*Vera Magalhães é jornalista especializada na cobertura de política e economia, colunista do jornal O Estado de São Paulo

IPIAU DIZ ADEUS AO CAPITÃO MILTON

Por José Américo*

 

Aos 83 anos de idade, faleceu no início da manhã dessa quinta-feira (13), na sua residência, na Rua Siqueira Campos, o capitão Milton Pinheiro dos Santos, uma das pessoas mais estimadas e respeitadas de Ipiaú. Ele era casado com a professora Sonia Pinheiro (dona Sonia) e deixou quatro filhos (Miltinho, Fátima, Sandra e Jener) e alguns netos.

O sepultamento aconteceu às 16horas no Cemitério da saudade, também conhecido como “Cemitério Velho”. Capitão Milton, estava há muitos meses com a saúde debilitada, inclusive vinha sendo submetido a hemodiálise.

Proveniente de Feira de Santana, ele chegou em Ipiaú no ano de 1960, com a patente de tenente da Policia Militar. Tinha cursado a Academia da PM, em Salvador, onde se formou em aspirante de oficial, graduando-se sub-tenente e depois promovido a tenente. O município estava sendo administrado pelo prefeito José Motta Fernandes.

Idealista, cheio de determinação, o jovem militar ganhou a simpatia da comunidade e não tardou a assumir o cargo de Delegado de Policia, protagonizando atos de bravura e inteligência. Em um desses atos, resgatou um homem que se encontrava aprisionado na Fazenda Oceania, domínio do lendário “Urbano Cem Contos”.

Nessa perigosa empreitada contou apenas com o auxilio de dois auxiliares: o Cabo Zezito e Zé Soldado.

Em outra ocasião negociou a liberdade de alguns jovens que furtaram um carro para curtir uma festa. Os delinquentes juvenis seriam liberados se consentissem em deixar cortar os longos cabelos, símbolo da rebeldia dos anos 60.

Convidado por Dr. Salvador da Matta, o tenente Milton tornou-se professor de matemática no Ginásio de Rio Novo, onde também ensinou educação física, incentivou a pratica dos esportes e fundou o time Estudante Esporte Clube, que revelou grandes atletas para o futebol ipiaúense. Submeteu-se a concurso publico e também passou a lecionar no Ginásio Estadual de Ipiaú (GEI).

Pelos relevantes serviços prestados à Policia Militar foi promovido à patente da capitão e algum tempo depois entrou na reserva.

O carisma que desfrutava junto à comunidade ipiaúense conduziu Capitão Milton à política. No ano de 1972 concorreu ao cargo de prefeito municipal, pela ARENA (Aliança Renovadora Nacional), obtendo 2.470 votos, mas perdeu a disputa para Hildebrando Nunes Rezende que foi eleito com 3.465 sufrágios.

Capitão Milton continuou na militância política e no ano de 1999 foi eleito vereador, tendo exercido um mandato exemplar. Em entrevista concedida ao jornalista Vicente Andrade ele confessou não ter gostado da experiência como político.

Nessa mesma entrevista, talvez a ultima da sua vida, Capitão Milton reafirmou seu amor por Ipiaú, salientando que gostaria de ver a cidade mais livre, do ponto de vista social e educacional, e com a população cada vez mais unida e fraterna.Na oportunidade ele ressaltou a condição fraterna da comunidade local:

“Ipiaú toda vida foi assim e agora não será diferente. Vamos pra frente”.

Foram as ultimas palavras do Capitão Milton na histórica entrevista a Vicente Andrade.

Ipiaú disse adeus ao capitão, professor, ex vereador e amigo de tantas jornadas, Milton Pinheiro dos Santos. Ele merecia ser sepultado com honras militares, mas com certeza será lembrado com muita gratidão pelo povo desta terra.

*José Américo da Matta Castro é jornalista.

 

AO 2 DE JULHO

Por Aninha Franco*

Publicado em Trilhas: Correio da Bahia

 

 

 

O hino mais adequado ao Brasil, hoje, é “a situação do Brasil vai muito mal, qualquer ladrão é patente nacional” de Juca Chaves, mas amanhã precisamos cantar o “nasce o sol a 2 de Julho, brilha mais, brilha mais que o primeiro” para lembrar de nossos antepassados de muitas etnias que se matavam de dia e se inventavam de noite. Antes, durante e depois de 1823, o caboclo, a cabocla, os escravos boçais e sabidos, os homens nobres, os mulatos desavergonhados, todos juntos, para impedir que os mazombos levassem o dinheiro do Brasil! 1823 foi um fora Portugal de brasileiros unidos. Os mazombos juntaram as trouxas, entraram nos barcos e se foram pra casa de onde, hoje, assistem novelas.br, aprendem a prosódia dos muitos Brasis e difamam os brasileiros com piadas de preguiça. Dizem que estão muito bem, que morar em Portugal está bom de doer, e que é o melhor mercado para a música brasileira estraçalhada.

Os mazombos se foram mais ou menos, porque o Príncipe dos Mazombos ficou dono do Império, do celeiro do mundo, do gigante pela própria natureza, da floresta amazônica, do Caipora, do Curupira, dos orixás que as tribos africanas trouxeram nas cabeças, do bumba meu boi, dos Xangôs do Maranhão, dos maracatus de Pernambuco, da Cerâmica Marajoara, da moqueca e da maniçoba, do Santo Antônio Além do Carmo, do Pelourinho, do Rio Vermelho, de Arempebe e da Praia do Forte. O dinheiro continuou saindo, como antes, neste eterno quartel de Abrantes.

E a cada proclamação, a da República, a da Velha República, a da Nova República, os proclamadores proclamavam e protegiam àquela senhora que nos foi imposta por razões coloniais e ficou, a senhora que nós, os cafusos, os curibocas, os pretos, os sararás, os morenos claros, os escuros, os negros, os caboclos, os carijós, os cabos-verdes, os aracuiabas, os canelas, os pardos, os mambeles, os acaboclados, os gazulas, os crioulos, os roxos de cabelo bom, mantemos conosco, apesar da sua feiura.

Esta senhora é o nosso horror. É ela quem elege os políticos sucessores dos mazombos, e é protegida por eles, que protegem sua permanência e impedem sua expulsão que precisa acontecer, a expulsão da ignorância, a única que diminuirá essa carnificina que continua acontecendo de dia e se inventando de noite na cidade da Baía, em seus arredores e nesse Brasil que um dia lhe teve como capital.

Se a ignorância tivesse sido expulsa na Independência ou na Proclamação da República, Lula nunca teria sido eleito. Se tivesse sido expulsa na Velha ou na Nova República, a Odebrecht, a OAS e a JBS jamais saqueariam o Estado. Se tivesse sido expulsa na redemocratização, Aécio e Lula já estariam presos, usando a mesma cela e o mesmo boi. Mas ela continua abrigada em milhares de casas brasileiras, nas ruas, protegendo a sanha patrimonialista e a incompetência dessa gente que nunca se sacia.

Por isso, amanhã, reverenciemos o Sol que nascerá no 2 de Julho de 2017, aplaudamos a cabocla, o caboclo e o caminhão fantasma do vereador Cosme de Farias subindo o Largo do Pelourinho com a faixa Abaixo o Analfabetismo, trazendo Cosme, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Consuelo Pondé, Betinho, Ruth Cardoso, exigindo, com eles, a expulsão da inimiga pública número 1 da Bahia e do Brasil, mais atroz que a corrupção, mais trágica que a desigualdade, mais violenta que a violência, porque fomenta, protege e admite todas elas!

*Aninha Franco é escritora, pensadora, poeta, dramaturga, crítica, advogada e ativista cultural.

A FARRA DO BOI

Por Guilherme Fiúza*

Via Iracema Carneiro (Publicado em O Globo e Blog do Noblat, 01/07/2017)

“Lula e Dilma não davam um pio sem pedir a bênção do vice. Todo mundo sabe que Dirceu morria de medo de Temer”.

O país do carnaval foi salvo do marasmo pelo procurador-geral da banda.

Isso aqui estava um tédio de dar dó. Depois do golpe de Estado que arrancou do palácio a primeira presidenta mulher, cuja quadrilha estava roubando honestamente sem incomodar ninguém, a sombra desceu sobre o Brasil. Um mordomo vampiresco entregou a Petrobras a um nerd que deixou os pais de família da gangue do Lula no sereno — extinguindo sumariamente o pixuleco, principal direito trabalhista conquistado na última década.

Mas não foi só isso. Além de arrancar a maior empresa nacional da falange patriótica de José Dirceu, o governo golpista da elite branca e velha deu um tranco na economia. Em pouco mais de um ano, estragou um trabalho de três mandatos presidenciais que levara o país a um recorde — a maior recessão da sua história. Enxotou do comando da tesouraria nacional todos aqueles cérebros amanteigados, e aí se deu o choque: inflação e juros caíram, dólar e taxa de risco idem. Uma tragédia.

Como se não bastasse, o mordomo começou a fazer as reformas estruturais que passaram 13 anos na geladeira do proselitismo coitado, que é o que enche a barriga do povo. Antes que o pior acontecesse — a retomada do emprego e do crescimento — apareceu Rodrigo Janot.

Mas não apareceu sozinho, que ele não é bobo e sabe que com elite branca e velha não se brinca. Veio com o caubói biônico do PT — aquele vitaminado por injeções bilionárias do BNDES, o brinquedo predileto do filho do Brasil. Só mesmo um caubói de laboratório teria a bravura suficiente para dizer ao país que comprou todo mundo e o culpado é o mordomo. A partir daí foi só alegria.

A dobradinha do procurador-geral da banda com o supremo tribunal companheiro nunca foi tão eficiente. A enxurrada de crimes da Lava-Jato envolvendo atos diretos e indiretos de Dilma Rousseff passou dois anos morrendo na praia. Já a homologação da pegadinha do caubói caiu do céu como um raio. Aí o delator foi amargar o exílio no seu apartamento em Manhattan, deixando o país paralisado, mas feliz — como no carnaval.

Nesta revolução progressista, também conhecida como farra do boi, Joesley Batista apontou Michel Temer como o chefe da quadrilha mais perigosa do país. Os brasileiros já deviam ter desconfiado disso. Lula e Dilma não davam um pio sem pedir a bênção do vice. Todo mundo sabe que Dirceu morria de medo de Temer, e não deixava Vaccari, Delúbio, Valério, Duque, Bumlai, Palocci e grande elenco roubarem um centavo sem pedir a autorização do mordomo. Chegaram a pensar em denunciá-lo à Anistia Internacional, mas se calaram temendo represálias. Já tinham visto no cinema como os mordomos são cruéis.

Agora estão todos gratos ao caubói biônico, que por sua vez está grato ao procurador-geral da banda — e ao seu homem de confiança que saiu do Ministério Público para montar o acordo da salvação da boiada (sem quarentena, que ninguém é de ferro). O pacto que emocionou o Brasil, festejado nas redes sociais como Operação Free Boy, é um monumento à liberdade talvez só comparável à Inconfidência Mineira.

Nada seria possível sem o desassombro de Edson Fachin, o homologador-geral da banda. Um candidato a juiz capaz de circular no Senado a reboque do lobista de Joesley não teme nada.

O legal disso tudo, além de bagunçar esse governo recatado e do lar com mania de arrumação (a melhora dos indicadores estava dando nos nervos), foi ressuscitar o PT. Depois da delação de João Santana, o roteiro criminal sem precedentes elucidado por Sergio Moro se encaminhava para a prisão de Lula e Dilma — os presidentes do escândalo. Aí veio a farra do boi dizer ao Brasil que, na verdade, Lula e Dilma eram coadjuvantes do mordomo — quem sabe até laranjas dele. E o Brasil, como se sabe, crê.

Alegria, alegria. Zé Dirceu solto, Vaccari absolvido pela primeira vez na Lava-Jato, pesquisas indicando aumento de aceitação ao PT! (Ok, é Datafolha, mas o Brasil crê). E você achando que não viveria para ver rehab de bandido. O auge da poesia foi o lançamento da denúncia de Janot em capítulos, como uma minissérie. Alguns especialistas classificaram-na como “inepta” (ou seja, a cara do pai), mas estão enganados. A denúncia de Janot é apenas um lixo. Quem gosta de inépcia é intelectual.

A alegação de corrupção passiva, por exemplo, é uma espécie de convite à investigação do Cade. Só faltou escrever “tem coisa estranha ali…” Um estudante de Direito poderia achar que quem denuncia sem apurar está cambaleando entre a negligência e a falsidade ideológica. Algum jurista na plateia?

Farra do boi não tem jurista. Tem quadrilha dançando em torno da fogueira de mais uma greve geral cenográfica, porque sacanear o país nunca é demais. Mas eis que chega um correio do amor para o procurador-geral do bando (devem ter errado a grafia). Vamos reproduzi-lo: “Companheiro, agora dê um jeito de completar o serviço e botar esse presidente na rua, depois em cana; acabe com ele, parceiro, porque dizem que maldição de mordomo é terrível. Só não é pior que a de mordomo-vampiro.”

 

*Guilherme Fiuza é jornalista

IPIAÚ: EXPOSIÇÃO DE ARTE E CULTURA PROSSEGUE NO CASARÃO DE ZÉ AMÉRICO

Em mais uma promoção do Coletivo Cultural de Ipiaú, a Exposição de Arte e Cultura, teve inicio no dia 26 de junho no novo espaço cultural “CASARÃO DE ZÉ AMÉRICO”. O imóvel, cuja recuperação e adaptação teve a participação da Prefeitura de Ipiaú, contando inclusive com a prefeita Maria das Graças Mendonça na abertura do evento, pertenceu aos ancestrais do jornalista José Américo Castro e foi a primeira casa construída em Ipiaú. A programação teve sequência na noite desta terça feira (27), com intensa visitação, pela população de Ipiaú e Região, das obras de arte que ocuparam 5 salões do Casarão, com quadros a óleo sobre telas, desenhos a mão livre, máscaras artesanais de material variado, esculturas, fotografias temáticas, retratos a pincel, mandalas etc.  

Na parte externa, sob toldo de proteção, a plateia acompanhava, atenta, a apresentação da tradicional manifestação cultural de “Reisado”, “Bumba-Boi” e “Mulinha de Ouro”, colaboração do grupo São Francisco de Folia de Reis, do Projeto Raiz do Umbuzeiro, coordenado pela professora ipiauense, radicada em Manoel Vitorino, Nilceia Hohlenwerger num belo espetáculo encenado pelo grupo da cidade de Manoel Vitorino. A dança rítmica e alegre criou o clima de festa e beleza de cores na cantoria nordestina. Apesar de cada vez mais raro, o espetáculo, cuja existência, hoje, é bastante reduzida, proporcionou a empolgação dos que assistiram ao desempenho do grupo composto por mulheres e homens de todas as idades. A presença de idosos, rapazes, moças e crianças, é uma tentativa de preservação da tradição milenar do Reisado no sertão brasileiro.

O evento no Casarão proporcionou, também, o encontro entre amigos queridos.

Outra atração muito aplaudida na noite de ontem foi a encenação da peça teatral “Histórias de Cabaré”, pelo grupo de teatro da Ong Cultural Maktub de Ilhéus, cujo texto narrou trechos da obra de Jorge Amado, “Gabriela, Cravo e Canela”, bem como fez críticas sociais e políticas, além de promover a interação com a plateia em sketchs  improvisados, sátiras jocosas entre os presentes e os frequentadores da famosa boate ilheense do século passado.

O ponto negativo foi a introdução, no texto da peça, de jargões e palavras de ordem político-partidária, absolutamente fora de contexto.

O Coletivo Cultural e o Casarão de Zé Américo se consolidam como importante instrumento de promoção cultural, haja vista que no evento programado, iniciado no dia 26 de junho e a ser encerrado no dia 29, várias linguagens culturais foram utilizadas, demonstrando que a arte é um viés significativo para agregar pessoas de todos os níveis e criar massa crítica qualificada para a deflagração de movimentos sociais e políticos na comunidade. Na programação elaborada pelo Coletivo cultural consta, para hoje, 28, o festival de música instrumental, além do ensaio da Quadrilha Junina.

Apoio: Doce Mel, Farmácia Bahia, Território Médio Rio das Contas, Educar Educacional, Ortooticas, Pousada Cardoso, Reinaldo Magalhães, Padre Marcio, Prefeitura de Manoel Vitorino, Schincariol, Juarez Compra de Cacau, Padaria Rodrigues, Panorama Ipiaú (Beto Marques), Celso Rommel, RS Supermercado, Aceserv Dutinho.

OPINIÃO

Por Erick Brêtas*

“Se você analisa as delações da JBS, as da Odebrecht e as das demais empreiteiras, a conclusão é mais ou menos a seguinte:

O Brasil foi dividido entre cinco grandes quadrilhas nas últimas duas décadas.

A maior e mais perigosa, diferentemente do que diz o Joesley, era a do PT: mais estruturada, mais agressiva, mais eficiente e com os planos mais sólidos de perpetuação no poder. Comandava a Petrobras, os maiores fundos de pensão e dividia o poder com as quadrilhas do PMDB nos bancos públicos. Sua maior aliada econômica (mas não a única) foi a Odebrecht. O chefão supremo, o cappo di tutti i cappi, era o Lula. Palocci e Mantega, os operadores econômicos. José Dirceu, até ser defenestrado, o consigliere. Politicamente equivalia ao Comando Vermelho: pra se manter na presidência era capaz de fazer o Diabo.

A segunda maior era a do PMDB da Câmara. Seus principais chefões eram Temer e Eduardo Cunha. Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima, Moreira Franco e Henrique Eduardo Alves eram os subchefes. Lúcio Funaro era o operador financeiro. Mandava no FI-FGTS, em diretorias da Caixa Econômica, em fundos de pensão e no ministério da Agricultura. Por causa do controle desse último órgão, tinha tanta influência na JBS. Era o ADA dos políticos — ou seja, mais entranhada nos esquemas do poder tradicional e mais disposta a acordos e partilhas.

A terceira era o PMDB do Senado. Seu chefão era Renan Calheiros. Seu guru e presidente honorário, José Sarney. Edison Lobão, Jader Barbalho e Eunício Oliveira eram outras figuras de proa. Mandava nas empresas da área de energia e tinha influência nos fundos de pensão e empreiteiras que atuavam no setor. Por divergências sobre o rateio da propina, vivia às turras com a quadrilha do PMDB na Câmara, que era maior e mais organizada. Esta facção tem ainda a simbólica figura de Romero Jucá, que circula entre todos os grupos listados nesse texto como uma espécie de cimento que os une e protege (“delimita tudo como está, estanca a sangria.”).

A quarta era o PSDB paulista, cuja figura de maior expressão era o Serra. Tinha grande independência das quadrilhas de PT e PMDB porque o governo de São Paulo era terreno fértil em licitações e obras. A empresa mais próxima do grupo era a Andrade Gutierrez, mas também foi financiada por esquemas com Alstom e Odebrecht.

A quinta e última era o PSDB de Minas — ou, para ser mas preciso, o PSDB do Aécio. Era uma quadrilha paroquial, com raio de ação mais restrito, mas ainda assim mandava em Furnas e usava a Cemig como operadora de esquemas nacionais, como o consórcio da hidrelétrica do Rio Madeira.

Em torno dessas “big five” flutuavam bandos menores, mas nem por isso menos agressivos em sua rapinagem — como o PR, que dava as cartas no setor de Transportes, o PSD do Kassab, que controlou o ministério das Cidades no governo Dilma, o PP, que compartilhava a Petrobras com o PT, e o consórcio PRB-Igreja Universal, que tinha interesses na área de Esportes.

Havia também os bandos regionais, que atuavam com maior ou menor grau de independência. O PMDB do Rio e seu inacreditável comandante Sérgio Cabral, por exemplo, chegaram a ser mais poderosos que os grupos nacionais. Fernando Pimentel liderava uma subquadrilha petista em Minas. O PT baiano também tinha voo próprio, embora muito conectado ao esquema nacional. Os grupos locais se diferenciavam das quadrilhas tucanas pelas aspirações e influência mais restritas aos territórios que governavam.

Por fim, vinham parlamentares e outros políticos do Centrão, negociados de maneira transacional no varejo: uma emenda aqui, um caixa 2 ali, uma secretaria acolá. Esses grupos se acoplavam ao poderoso de turno e a suas ideologias: de FHC a Lula, de Dilma a Temer. O neoliberal de anteontem era o nacionalista de ontem, o reformista de hoje e o que estiver na moda amanhã.

Digo tudo isso não para reduzir a importância do PT e o protagonismo do Lula nos crimes que foram cometidos contra o Brasil. Lula tem de ser preso e o PT tem que ser reduzido ao tamanho de um PSTU.

Mas ninguém pode dizer que é contra a corrupção se tolerar as quadrilhas do PMDB ou do PSDB em nome da “estabilidade”, “das reformas” ou de qualquer outra tábua de salvação que esses bandidos jogam para si mesmos.

E que ninguém superestime as rivalidades existentes entre esses cinco grupos. Em nome da própria sobrevivência eles são capazes de qualquer tipo de acordo ou acomodação e farão de tudo para obstruir a Lava Jato.”

* Diretor de mídias digitais da Globo: via Aninha Franco em página do Facebook

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