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POPA OU SUCO?

Por Aninha Franco* em Trilhas

 

 

As melhores histórias de um povo vêm de seu canto e, como se ouviu, a popa da bunda foi o canto preferido do Carnaval de 2018 em Salvador. Mas a popa não arrastou as multidões sozinha com o “tá de shortinho, bem coladinho, tá bem safado, descaradinho.” Rolou o suco de Igor Kannário, e quem ouviu Kannário, de longe, descobriu que “se bater com a gente é suco”, suco, aquilo que é triturado nos multiprocessadores para virar líquido. Ou liquido? Igor Kannário, o príncipe do gueto, pode ter levado até 500 mil baianos, um sexto da população da cidade, moradores das favelas, às ruas do Carnaval. Pela TV, assisti ele avisar que é barril dobrado, abençoar a multidão com amém, como os lideres messiânicos, e cantar que o “carnaval é da paz”, da paz e do amor! Desnorteei.

Talvez por causa dessa emissão estranha de Kannário de querer transformar em suco quem bater de frente com seu principado, tudo com muito amor, a lírica de Leo Santana venceu as multidões. As novinhas adoraram e desceram, desceram, desceram. E até sua excelência, o governador, participou da lírica de Santana cantarolando “Vai dar PT” como se fosse uma poética política, quando é, na verdade, Perda Total porque a novinha “foi pro baile muito louca a fim de se envolver, só tem 18 anos, o que vai acontecer? (…) Misturou tequila, whisky, vodka, e a mina vai embrazar, vai dar PT, vai dar, vai dar PT, vai dar, ela vai dar PT, vai dar.” E o governador Rui Costa e a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, acabaram festejando a Perda Total da novinha.

– Misericórdia! Bradaria minha senhora mãe!

Psirico aconteceu no Carnaval em ritmo só de luxúria, sem equívocos políticos, com seu cartão de visita, sua apresentação de desempregado da Rousseff, duro, pé-rapado, com o salário atrasado, sem ter pra onde correr, despejado, sem carro, mas dono de um Lepo Lepo irresistível. Ou com a lírica que criou pra seu amigo que deixou a putaria por causa de uma mulher. Que deu uma de “Bob Nelson”. Que recebeu a lâmina no abdômen, tomou uma rasteira que nem sabe de onde veio porque “quem gosta de homem é gay, mulher gosta de dinheiro, isso é padrão no mundo inteiro, você não é o primeiro nem vai ser o derradeiro, e isso nunca vai mudar, por isso seja…fiel à putaria.”

Infiel à putaria, a poesia da Beija Flor no RJ, estado que sofrerá intervenção federal até dezembro, poetizou a barbárie instalada no estado. No desfile da escola e na vida real, a violência é a mesma estrela. E o Rio de Janeiro está tão perto da Bahia. Apesar desse tamanho todo do Brasil, está tudo perto, Rio de Janeiro, Roraima, Laranja Mecânica de Anthony Burgess, o livro, Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, o filme, Maranhão. E se tudo aconteceu no Rio de Janeiro, a voz do Brasil, o resto do corpo corre perigo.

A poesia e o poder estão gêmeos no Brasil. O melhor livro de história de um povo é seu canto. E o canto da Beija Flor pediu socorro porque o pedido de socorro começa com a voz, depois se espalha pelo corpo: “(…) Ganância veste terno e gravata/ Onde a esperança sucumbiu/ Vejo a liberdade aprisionada/ Teu livro eu não sei ler, Brasil! (…) Oh pátria amada, por onde andarás? Seus filhos já não aguentam mais!”

*Aninha Franco é pensadora, escritora, poeta, advogada, dramaturga, crítica, cronista e ativista cultural.

INDIGNADO, PALESTRANTE ESPÍRITA SAI EM DEFESA DE DIVALDO FRANCO

O advogado e palestrante espírita Jefferson Rodrigues Bellomo gravou um vídeo em que manifesta sua indignação pela tentativa de desqualificação e desrespeito aos conhecimentos doutrinários e filosóficos do médium baiano Divaldo Franco.

Você pode conferir a resposta de Divaldo a um jovem congressista sobre a Ideologia de Gênero na matéria abaixo, abordando o Congresso Espírita de Goiás. Lá é possível conferir o episódio que teve como palco do Congresso goiano e que para alguns espíritas indica não apenas a possibilidade de rachar o sesquicentenário movimento, como considera que, enfim, foi revelada a penetração da política petista, que idolatra Lula e eleva Marx a condição de iluminado, no seio do espiritismo nacional.

Os espíritas, cujas características principais são, a absoluta independência de manifestação do pensamento, da visão política, da ausência de hierarquia e manifestamente democrática, não pode e nem deve sofrer o patrulhamento sistemático que se instalou no movimento na última década. A caridade, o conhecimento e a ética são fundamentos inalienáveis preconizados pelos que abraçam, como verdade, os princípios da codificação em movimento religioso-cultural agregador, cuja militância peregrina, tem no incansável Divaldo, vivenciando a doutrina espírita na maior parte dos seus 91 anos, em torno de grande número das nações de vários continentes, o seu divulgador incansável e referência maior.

O que lemos, em alguns comentários, são além de desrespeitosos, uma demonstração inequívoca do fanatismo político de alguns espíritas que infelizmente sucumbiram diante do convite a eterna luta pelo privilégio da farra do poder e perderam a lucidez e a percepção ao não enxergar a corrupção entranhada na maioria dos líderes dos partidos a que estão ligados, e a destruição da moral, da ética e da família, defendida desde lá atrás no manifesto comunista em que Karl Marx propunha a revolução operária e, sutilmente, a destruição da família, para que o proletariado chegasse ao poder.

Pois bem, os partidários da tese chegaram ao poder. Entretanto, antes de proporcionar propriedades rurais para os “Sem-Terra”, moradas dignas construídas sem corrupção, para os “Sem-Teto”, emprego e previdência plenos, mais uma longa lista de carências em que foi prometido providências, nada disso aconteceu em mais de uma década no poder, preferiram chafurdar na lama da propina e desvios, de acordo com os processos transitados em julgados, que tiveram como alvo e condenados os dirigentes e militantes. É inimaginável tamanha polêmica envolvendo espíritas que tanto contribuem para a formação da cidadania e o aperfeiçoamento moral.

A PARCERIA

 Por Carlos Eden Meira*

Quando a primeira diretoria da ASSAM sob a presidência do jornalista Raymundo Meira, conseguiu realizar o antigo sonho de adquirir o prédio onde funcionava o Grupo Escolar Castro Alves, para implantação do Museu Histórico de Jequié, a situação física do local que foi desocupado, já não era adequada dentro dos padrões modernos para ser uma escola. Constatou-se inclusive, após minucioso levantamento técnico, que suas instalações se encontravam em péssimo estado de conservação, colocando em risco a segurança de alunos e funcionários, o que poderia causar um desabamento como o que ocorreu com saudoso e belíssimo edifício Grillo, e certamente com consequências muito mais graves. Pode-se assim, deduzir sem nenhum exagero, que a citada desocupação pode ter salvado vidas.

Naquele período, a ASSAM contava com um grupo de cidadãos cujo objetivo principal sem quaisquer outros interesses, era a criação do museu no citado prédio, fazendo-se uma parceria com a Prefeitura Municipal, na qual a ASSAM como órgão gestor, comprometia-se em entrar com o seu acervo e a PMJ colocava o prédio à sua disposição para implantar ali, o museu. Isto foi feito, o sonho se realizou. Entregamos à cidade um museu num lindo prédio restaurado, que durante alguns anos funcionou dentro dessas diretrizes, tendo dado grande contribuição à História, à cultura e à educação em nossa cidade.

Hoje, após um período fechado para reformas, o museu reabriu suas portas ao público, sob o comando da nova equipe de funcionários da PMJ, e a ASSAM, também renovada, mantendo ainda alguns dos seus antigos associados. Como ex-membro dessa associação e sendo um dos seus fundadores, acho que cumpri o meu dever para com as duas entidades, já que vejo o museu funcionando, inclusive utilizando modernas técnicas de conservação do acervo, graças à nova equipe da Secretaria Municipal de Cultura e à nova diretoria da ASSAM, cujos membros certamente devem manter o espírito dos primeiros tempos, no objetivo de conservar a parceria com a PMJ, sem nenhum interesse de caráter pessoal ou político, o que em nada contribui para a continuidade do Museu Histórico de Jequié. Qualquer possível tentativa por motivações individuais de quem quer que seja, para separar o acervo do histórico prédio onde hoje se encontra, já reconhecido e valorizado pela população, seria como jogar no lixo toda a história da ASSAM em sua árdua luta para conseguir aquele local para implantação do museu, já que sempre consideramos o próprio prédio como a peça principal do acervo. O MUSEU PERTENCE AO POVO DE JEQUIÉ, E EM SEU NOME DEVE SER CONSERVADO!

*Carlos Éden Meira é jornalista, cartunista, DRT 1161

QUE TIRO FOI ESSE?

MUITAS TRILHAS

Por Aninha Franco, em Trilhas*

 

 

 

No meu Carnaval 0, ano de 1951, a trilha foi Confete “pedacinho colorido de saudade, ai, ai, ai, ao te ver na fantasia que usei, confete, confesso que chorei” interpretada por Francisco Alves, e Tomara que chova “três dias sem parar” que depois do sucesso em 1950, com Isaura Garcia, nunca mais deixou de fazer sucesso. Agora mesmo os moradores de Ilha de Maré devem estar cantando alto Tomara que chova, coitados, pra ver se a Embasa escuta: “A minha grande mágoa é lá em casa não ter água! Eu preciso me lavar.” E o Restaurante Preta precisa funcionar!

Em 1952, eu me esbaldei com Sassaricando, e Maria Candelária “é alta funcionaria, saltou de paraquedas, caiu na letra ó,ó,ó. A uma vai ao dentista, às duas vai ao café, às três vai à modista, às quatro assina o ponto e dá no pé. Que grande vigarista que ela é.” Pois é, com um ano de idade eu tive aula de Brasil com Blecaute. Em 1953, eu não lembro bem qual foi a música, mas em 1954 foi “é ou não é piada de salão, Se acham que não é, então não conto não.”

Em 1955, foi ano de Maria Escandalosa, um clássico do machismo.BR com a maravilhosa, com a inesquecível, com a para sempre viva Dalva de Oliveira: “Maria Escandalosa desde criança sempre deu alteração, na escola não dava bola, só aprendia o que não era da lição.” Em 1956, foi ano de dançar “Quem sabe, sabe, conhece bem como é gostoso gostar de alguém. Ai, morena, deixa eu gostar de você, boêmio sabe beber, boêmio também tem querer.” Em 1957, eu cantei Maracangalha de Caymmi o ano inteiro. Até hoje eu canto.

Em 1958, ganhei uma Rodouro, torci pela seleção e cantei, ufanista, “a taça do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa, êh eta esquadrão de ouro, é bom no samba, é bom no couro”. Primeira copa! Em 1959, taludinha, me dividi entre Jardineira “por que estas tão triste, mas o que foi que te aconteceu? Foi a Camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu” e Touradas em Madrid, luxo poético: “Eu fui às touradas em Madri e quase não volto mais aqui pra ver Peri beijar Ceci. Eu conheci uma espanhola natural da Catalunha, queria que eu tocasse castanhola e pegasse touro à unha. Caramba! Caracoles! Sou do samba, não me amoles, pro Brasil eu vou fugir! Isto é conversa mole para boi dormir!”

Em 1960 só deu “Ca-ca-ca-ca-re-co, Cacareco é o maior, Ca-ca-ca-ca-re-co, Cacareco de ninguém tem dó.” Melhor explicar que Cacareco foi uma rinoceronta do Zoológico do RJ emprestada ao Zoológico de São Paulo. Esse movimento rinocerôntico no Brasil pacato dos Anos 1950 provocou tanta confusão, que nas eleições municipais de 1959, os paulistas elegeram Cacareco vereadora com cerca de 100 mil votos. Sim, na época, era possível eleger rinocerontes e onças, candidatos mais respeitáveis que os humanos, porque os eleitores usavam cédulas de papel e escreviam os nomes dos candidatos. A Onça Peteleca que fugiu do Zoológico de Salvador nos Anos 1970, foi bem votada para vereadora no ano da fuga.

Em 1961 foi uma loucura de opções: Foi “Índio quer apito, se não der pau vai comer” com Jorge Goulart, foi “Lua, ô lua, querem te passar pra trás” com Ângela Maria, foi Cantareira com Gordurinha. Fiquei com todas. Bem, não há espaço, hoje, pra chegar em “Que tiro foi esse, viado?” de Toddynho. Mas outras trilhas virão. Prometo. Feliz Carnaval!

*Aninha Franco é pensadora, escritora, poeta, advogada, dramaturga, crítica, cronista e ativista cultural.

MELHOR IDADE?

Por Ruy Castro*

 

 

 

Melhor idade é a puta que te pariu – a melhor idade é de 18 aos 40 anos…

A voz em Congonhas anunciou: “Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência etc.”. Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a “melhor idade” – algo entre os 60 anos e a proximidade da morte.

Para os que ainda não chegaram a ela, “melhor idade” é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica.

Privilégios da “melhor idade” são o ressecamento da pele, a osteoporose, as placas de gordura no coração, a pressão lembrando placar de basquete americano, a falência dos neurônios, as baixas de visão e audição, a falta de ar, a queda de cabelo, a tendência à obesidade e as disfunções sexuais. Ou seja, nós, da “melhor idade”, estamos com tudo, e os demais podem ir lamber sabão.

Outra característica da “melhor idade” é a disponibilidade de seus membros para tomar as montanhas de Rivotril, Lexotan e Frontal que seus médicos lhes receitam e depois não conseguem retirar.

Outro dia, bem cedo, um jovem casal cruzou comigo no Leblon. Talvez vendo em mim um pterodáctilo(que têm os dedos ligados por uma membrana) da clássica boemia carioca, o rapaz perguntou: “Voltando da farra, Ruy?”. Respondi, eufórico: “Que nada!

Estou voltando da farmácia!”. E esta, de fato, é uma grande vantagem da “melhor idade”: você extrai prazer de qualquer lugar a que ainda consiga ir.

Primeiro, a aposentadoria é pouca, quase uma esmola, e você tem que continuar a trabalhar para melhorar as coisas. Depois vem a condução.

Você fica exposto no ponto do ônibus com o braço levantado esperando que algum motorista de ônibus te veja e por caridade pare o veículo e espere pacientemente você subir antes de arrancar com rapidez como costumam fazer.

No outro dia entrei no ônibus e fui dizendo: – “Sou deficiente”.

O motorista me olhou de cima em baixo e perguntou: – “Que deficiência você tem?”

– “Sou broxa!”

Ele deu uma gargalhada e eu entrei.

Logo apareceu alguém para me indicar um remédio. Algumas mulheres curiosas ficaram me olhando e rindo…

Eu disse bem baixinho para uma delas:

– “Uma mentirinha que me economizou R$ 3,00, não fica triste não”, foi só para viajar de graça.

Bem… fui até a pedra do Arpoador ver o por do sol.

Subi na pedra e pensei em cumprir o ritual que costuma ser feito pelos mais jovens no local. Logicamente velho tem mais dificuldade. Querem saber?

Primeiro, tem sempre alguém que quer te ajudar a subir: “Dá a mão aqui, senhor!!!”

Hum, dá a mão é o cacete, penso, mas o que sai é um risinho meio sem graça.

Sentar na pedra e olhar a paisagem era tudo o que eu queria naquele momento.

É, mas a pedra é dura e velho já perdeu a bunda e quando senta sente os ossos em cima da pedra, o que me faz ter que trocar de posição a toda hora.

Para ver a paisagem não pode deixar de levar os óculos se não, nada vê.

Resolvo ficar de pé para economizar os ossos da bunda e logo passa um idiota e diz:

– “O senhor está muito na beira pode ter uma tontura e cair.”

Resmungo entre dentes: … “só se cair em cima da sua mãe”… mas, dou um risinho e digo que esta tudo bem.

Esta titica deste sol esta demorando a descer, então eu é que vou descer, meus pés já estão doendo e nada do por do sol.

Vou pensando – enquanto desço e o sol não – “Volto de metrô é mais rápido…”

Já no metrô, me encaminho para a roleta dos idosos, e lá esta um puto de um guarda que fez curso, sei eu em que faculdade, que tem um olho crítico de consegue saber a idade de todo mundo.

Olha sério para mim, segura a roleta e diz:

– “O senhor não tem 65 anos, tem que pagar a passagem.”

A esta altura do campeonato eu já me sinto com 90, mas quando ele me reconhece mais moço, me irrompe um fio de alegria e vou todo serelepe comprar o ingresso.

Com os pés doendo fico em pé, já nem lembro do sol, se baixou ou não. dane-se. Só quero chegar em casa e tirar os sapatos…

Lá estou eu mergulhado em meus profundos pensamentos, uma ligeira dor de barriga se aconchega… Durante o trajeto não fui suficientemente rápido para sentar nos lugares que esvaziavam…

Desisti… lá pelo centro da cidade, eu me segurando, dei de olhos com uma menina de uns 25 anos que me encarava… Me senti o máximo.

Me aprumei todo, estufei o peito, fiz força no braço para o bíceps crescer e a pelanca ficar mais rígida, fiquei uns 3 dias mais jovem.

Quando já contente, pelo menos com o flerte, ela ameaçou falar alguma coisa, meu coração palpitou.

É agora…

Joguei um olhar 32 (aquele olhar de Zé Bonitinho) ela pegou na minha mão e disse:

– “O senhor não quer sentar? Me parece tão cansado?”

Melhor Idade ??? – Melhor idade é a puta que te pariu !

*Ruy Castro é escritor e jornalista, trabalhou nos jornais e nas revistas mais importantes do Rio e de São Paulo. Considerado um dos maiores biógrafos brasileiros, escreveu sobre Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda.

PABLLO VITTAR E A ROUPA INVISÍVEL DO REI NU

Por Tom Martins*

Sua música é péssima, lidem com isso. Porém, criticá-lo nestes aspectos meramente musicais faz do crítico um criminoso, preconceituoso, invejoso e homofóbico.

Eis que chegamos ao tempo em que se faz necessário provar às pessoas que a grama é verde e a água é molhada.

Antes de embarcar na insólita investida de argumentar sobre os porquês de a música de Pabllo Vittar ser tão ruim – fato que deveria ser captado menos pelo intelecto do que pela própria experiência sensorial não racional –, serei obrigado a esclarecer dois pontos.

Primeiro, e mais importante: aqui nessas paragens, a discussão é adulta e civilizada. Qualquer acusação de “homofobia” ou correlatos será rechaçada com vigor, porque injusta com quem, como eu, cresceu ouvindo Freddie Mercury, Ney Matogrosso, Tchaikovsky, Bernstein, enfim, a lista é longa, e nunca o fato de serem homossexuais nem sequer ofuscou minha admiração e respeito a eles. O segundo aspecto é que, apesar de estudar música há mais de 30 anos, de ser regente profissional há 17, professor há 25 e de ter ajudado a fundar uma das maiores orquestras jovens do Brasil, a qual dirijo há 12 anos, falarei menos sobre música e seus aspectos técnicos do que sobre ideologia porque, afinal, é disso que o fenômeno se trata.

Pabllo Vittar é a roupa invisível do rei. Sua música é péssima, lidem com isso. Falta-lhe afinação, técnica, noções básicas de harmonia e ritmo, etc. Coisas que são exigidas de qualquer estudante rudimentar de música. Porém, criticá-lo nestes aspectos meramente musicais, na loucura do neocoletivismo identitário em voga atualmente, faz do crítico um criminoso, preconceituoso, invejoso e homofóbico. Por outro lado, as portas se abrem a quem exalta as finas vestes do rei nu, como ocorreu com Ed Motta recentemente.

Vítimas da “espiral do silêncio”, as pessoas deixam de falar aquilo que pensam, com medo da calúnia e do isolamento. Enquanto isso, o objeto da crítica e, mais do que isso, a ideologia da qual esse objeto é símbolo, avança livre.

O escracho e a obscenidade estão presentes nas artes desde as comédias gregas, passando pelas cantigas de escárnio e maldizer barrocas, a ópera-bufa, até o punk rock oitentista dos Garotos Podres. A diferença é que nem os poetas de escárnio nem os Garotos Podres buscavam moldar o mundo de acordo com o próprio espelho. Todos sabiam que eram escrachados, obscenos ou toscos e, ainda assim, tinham uma preocupação com o produto final ser minimamente bem feito.

O que vemos em Pabllo é o grotesco alçado à condição de algo sacrossanto e imune às críticas, por justificativas ideológicas, extra-artísticas. Pabllo é também uma vítima, uma voz com prazo de validade, marionete de um esquema muito mais poderoso do que ele sequer imagina. Podemos verificar o mesmo fenômeno nos esportes, com Rodrigo “Tiffany” de Abreu e Fallon Fox. O problema não é Pabllo, em si, mas a máquina que o maneja. Para o establishment, não se trata de música, mas de um símbolo a ser defendido politicamente.

Em relação a Vittar, há duas questões: uma estética e outra ideológica. Forjar, na cultura de massas, uma figura desprovida de qualquer noção musical é tornar natural o feio, o grotesco, o mal-acabado. É um problema estético. Da questão estética (acostumar o público com o grotesco) advém a questão ideológica: censurar as divergências para fortalecer uma narrativa política.

Por isso Vittar – e Anitta, o funk carioca, o rap proibidão etc. – são tão nefastos.

*Tom Martins é regente titular da OFSSP, compositor, instrumentista e bacharel em Composição e Regência pelo Instituto de Artes da Unesp.

Fonte: Gazeta do Povo

ORGASMO JURÍDICO

Por Aninha Franco* em Trilhas

Da trilha de sábado passado, que preferi não publicar, conservei apenas o título que descreveu minha sensação quarta-feira, 24 de janeiro, quando escutei os acórdãos dos jovens desembargadores confirmando a sentença de Moro no processo do “triplex”. Vivi para escutar Juiz e Desembargadores, todos com 45 a 54 anos, condenarem o político mais famoso do Brasil, de 72 anos, presidente da república que, no fim do segundo mandato, em 2010, esnobava 83,4% de aprovação popular.

A confirmação da sentença foi a maior derrota que a impunidade – que nos devasta desde sempre – sofreu em sua vida brasileira, e demoliu o mais amado líder que o País já teve.

Os acórdãos desmontaram, com precisão cirúrgica, o argumento primário de que não havia provas contra Lula, mantra repetido diante de provas documentais, testemunhais e periciais que sustentaram a sentença de Moro, contratos, termos de adesão, fotos, declaração de IR, depoimentos e benesses aprovando instalações de elevador, cozinhas, armários e dormitórios, deck de piscina e compra de eletrodomésticos, pacote burguês que enobrece e dá status no Brasil de capitalismo predatório.

E foi esse pacote burguês que fez de Lula da Silva inelegível para desespero do PT, partido de líder único, que se auto declara de esquerda.

Ser corrompido é desprezível, ser corrompido por essas miçangas é duplamente desprezível, mas ser Lula da Silva e ser corrompido por elas é não ter nenhuma idéia de quem é, confiar demais na impunidade e entrar na overdose de poder.

A corrupção do “tríplex” é clichê patrimonialista que seduz a maioria dos políticos brasileiros, mas que não poderia chegar no pau-de-arara que se moveu da miséria ao poder máximo, e desmontou essa conquista quase milagrosa por um elevador privativo e uma cozinha Kitchens, mostrando de que barro é feito quando viajou para assistir ao espetáculo do desmonte num jatinho de Michael Klein, dono das Casas Bahia, e se hospedando no Sheraton.

Desconfio que ele não tem dimensão do que construiu e desconstruiu neste País de milhares de analfabetos, ainda, neste continente onde em se plantando tudo dá mas que guarda famintos. Desconfio que ele não tem consciência do que fez com o Povo que diz amar e de como será difícil construir outro cara saído do povo com o poder que ele teve. E, por fim, desconfio que o cara que fica tão bem de chapéu de couro e roupa de camponês era, é, sempre foi, apenas o personagem de uma opereta em cartaz. Lula da Silva em Concerto nunca foi de verdade. Seus espectadores é que fizeram dele um líder real.

Aquele líder que representou o Povo no Poder pela primeira vez, em cinco séculos, é mentira.

De verdade é o cara que asfixiou o Palácio e o País com essa corrupção avassaladora, demoliu instituições e estatais, embotou a cultura, desempregou milhares de brasileiros de todos os estratos e levou a criação e a produção de volta aos Anos 1980, desmoralizando o discurso de que a “esperança venceu o medo”.

Lula fortaleceu a idéia de que o medo estava certo e empurrou o País para trás, de volta a 1989, às candidaturas de Collor e Bolsonaro, depois que conseguiu fazer da Democracia, literalmente, o Povo no poder.

*Aninha Franco é pensadora, escritora, poeta, advogada, dramaturga, crítica, cronista e ativista cultural.

A BAHIA, OS BAIANOS E O CARNAVAL

Carnaval baiano chegando bonito com o povo misturado e feliz até a quarta feira

A uma semana do início oficial da folia, o clima de celebração já toma conta de Salvador, palco do famoso carnaval da Bahia. O desencontro partidário ou ideológico a partir do fim dos anos oitenta, com prefeito de um lado e governador do outro, fez com que fosse massificada a marca “Carnaval de Salvador” e extinta a consolidada expressão “Carnaval da Bahia”.

Desde muito tempo, independentemente do governante, o carnaval dos baianos vinha se descaracterizando. O circuito Osmar, que compreende o trecho do Campo Grande à Praça da Sé deixou de ser o foco da folia, misturando desfile de blocos, afoxés, trios elétricos, desfile independente “Mudança do Garcia” e, em tempos mais remotos, a existência do Corso (automóveis ao longo da avenida). O carnaval se estendeu para o circuito Dodô que vai do Farol da Barra a Ondina e para alguns bairros.

O Brasil inteiro sabe que a denominação Dodô e Osmar, é uma homenagem aos criadores da fobica com som eletrificado para, gratuitamente, animar a festa.  Com o passar do tempo, a fobica virou sofisticadas carretas conduzindo toneladas de som e renomadas bandas, o carnaval virou indústria e atividade de amplo e variado comércio; extinguiu-se a mortalha e as tradicionais caretas que levava, no anonimato, pessoas de ambos os sexos vestidas de pierrot e colombinas a grande aventuras. Rasgou-se as fantasias e foi inaugurada a era dos “Abadás”. Toda essa mudança contribuiu para o aumento significativo do fosso no convívio entre as classes sociais. O carnaval deixou de ser improviso e o folião passou a ser cliente e público alvo. A implantação das famigeradas cordas de isolamento, os blocos e camarotes, verdadeiras fontes de milionários recursos, estabeleceram os limites entre elite e o que foi denominado povão, para ira do genial Walter Pinheiro Queiroz Júnior.

Festa da Pipoca no carnaval da Bahia

A música de péssima qualidade executada por bandas pagas pelo poder público, segundo comentaristas, já fazem do frevo pernambucano o ritmo mais executado nos pré-carnavais do Brasil.  além de, para alguns, contribuírem para uma certa revolta implícita, empurra-empurra e solavancos, transformaram as descomprometidas “Pipocas” em verdadeiras “praças de guerra”, troca de socos generalizadas e ao ritmo da música, tornando a participação arriscada e o cenário feio de se ver. 

O compositor Waltinho Queiroz, uma das mais expressivas e bravas resistências ao novo modelo de carnaval, com espaço privatizado entre cordas, tem um acervo significativo de poemas, letras e discursos rebeldes sobre o tema. Transcrevo aqui um trecho de sua música “No meio da rua, no meio do povo” que diz muito sobre a desfiguração do que foi a festa mais democrática do Brasil:  Tomara que esse ano/Eu lhe encontre de novo/No meio da rua/No meio do povo/Mortalha encharcada/De cerveja até o pé/E a boca lambuzada/De acarajé.

As crianças compunham o cenário do carnaval da Bahia.

Mas, apesar das desfiguração, a luta de Waltinho em seu Bloco do Jacu não foi em vão e agora no “Chegando Bonito”, a Bahia se reconhece nos velhos carnavais. Algumas práticas se mantiveram e o carnaval da Bahia ganhou o mundo e virou a maior festa popular do planeta. Os três dias de folia passaram a cinco. Em determinado período chegou a seis e até mais, tudo indica que retornaremos aos cinco dias de folia, senão, vejamos: a brincadeira, na prática, começou na sexta-feira, dia 2 de fevereiro, com a Festa de Iemanjá, no Rio Vermelho, e o desfile do bloco Habeas Copos o já famoso circuito Sérgio Bezerra, na Barra. Felizmente ainda podemos ver o grande tapete branco formado pelos turbantes dos Filhos de Ghandi, o ritmo contagiante do Olodum, a beleza pura do Badauê, a negritude linda do Ilê Ayê… Ah! e o Araketu é bom demais!…

A abertura oficial do Carnaval será na próxima quinta-feira (7), com a cerimônia de entrega da chave da cidade pelo prefeito ACM Neto e festa comandada pela cantora Claudia Leitte e seu convidado, o rapper norte-americano Pitbull, em parceria com a Zumba. Eles vão dar o grito inicial da folia na Barra-Ondina, a partir das 17h.

Confira a programação dos três maiores circuitos, com horários, blocos e atrações, no site oficial da festa. www.salvadormeucarnaval.com.br‎      

A PRAIA DA PACIÊNCIA SE ENFEITA PARA A SAUDAÇÃO A RAINHA DO MAR: ODOYÁ JANAÍNA

Fotos Correio

Hoje é dia de festa no mar, dia de saudar Iemanjá! Também é dia de homenagear todas as rainhas das águas… Dundalunda, Oguntê, Marabô, Caiala, Sobá, Oloxum, Ynaê, Janaina e Iemanjá.

Como acontece desde sempre, já pela madrugada os soteropolitanos e agora os baianos de todos os cantos, se irmanam com os brasileiros de toda parte e se reúnem, tornando-se um imenso bando de devotos,  precisamente no largo de Santana, no Rio Vermelho, para as diversas saudações a rainha das águas salgadas, estrela guia dos pescadores e enamorada dos homens do mar. Bem em frente a Casa do Pescador, partem as galeotas onde são colocadas as oferendas, ramalhete de flores, vasos, perfumes, sabonetes, pentes de todos os tipos… ou simplesmente um gesto, uma prece, o ato de umedecer a ponta dos dedos levando-os à fronte, são simbolismos que fazem a ligação com a orixá das águas, poderosa mediadora entre os devotos e a divindade.

É neste dia, o dia 2 de fevereiro, que o baiano mergulha nas águas do Rio Vermelho para energizar o seu corpo, estabelecendo um longo e duradouro fio de conexão que permanecerá em seu campo astral ao longo do ano.  Também no Dique do Tororó acontecem as homenagens a Oxum mais bonita que se veste com o azul do céu da Bahia.