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VALE A PENA REVER: RECORTES CULTURAIS DA BAHIA

Confira o talento do compositor e jinglista baiano Walter Queiroz Jr. numa de suas peças que marcaram época nos anos de 1970.

 

DEUS SEGUNDO SPINOZA*

Para pensar e refletir…

Einstein quando perguntado se acreditava em Deus, respondeu: “Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens”.

“Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida.
Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.
Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa.
Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.
Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria.
Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.
Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho… Não me encontrarás em nenhum livro! Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?
Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.
Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz… Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio.
Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti?
Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez?
Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade?
Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.
Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti.
A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.
Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.
Eu te fiz absolutamente livre.
Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho.
Vive como se não o houvesse.
Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir.
Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei. E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não.
Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste… Do que mais gostaste? O que aprendeste?
Pára de crer em mim – crer é supor, adivinhar, imaginar.
Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti.
Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
Pára de louvar-me!
Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam.
Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo.
Te sentes olhado, surpreendido?… Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.
Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim.
A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas.
Para que precisas de mais milagres?
Para que tantas explicações?
Não me procures fora!
Não me acharás.
Procura-me dentro… aí é que estou, batendo em ti.

*Baruch Espinoza – nascido em 1632 em Amsterdã, falecido em Haia em 21 de fevereiro de 1677, foi um dos grandes racionalistas do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz. Era de família judaica portuguesa e é considerado o fundador do criticismo bíblico moderno. Acredite, essas palavras foram ditas em pleno Século XVII.

DIA DA CRIANÇA!

Por Oscar Vitorino*

 

“A melhor maneira de tornar as crianças boas, é torná-las felizes.” (Oscar Wilde)

 

 

Em 1923, nasceu a ideia de existir uma data para celebrar as crianças. Essa idéia ganhou corpo, e tornou-se projeto de lei depois que o Rio de Janeiro sediou o 3º Congresso Sul-Americano da Criança. Apesar de aprovado e oficializado pelo então presidente da república, Artur Bernardes, o dia 12 de outubro, como data comemorativa, só foi vingar em 1955, por questões comerciais. Por coincidência, a data é a mesma do Dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, sendo então um feriado nacional.

Mas criança é criança a qualquer hora, em qualquer lugar, não importa o tempo!

        Criança! Símbolo da inocência e da ternura! Sorriso de anjo, feito de doçura e de meiguices! Botão, que se contempla no mistério de sua essência. A cada criança que nasce, vale a pergunta que os vizinhos de Zacarias e Isabel fizeram quando nasceu João Batista: “o que virá a ser essa criança?” (Lc 1, 66)

        Tudo numa criança é feito de luz: luz auroral, luz nascente, luz fulgurante, que se espalha na suavidade de um sorriso! E quanto mais tenra, mais bela na grandeza do que será, quando crescer! E se nos estende os bracinhos rechonchudos, tal como os braços dos anjos, ninguém há que não se sinta, nesse pedido mudo e significativo, levado a ampará-la, como se retirasse do berço uma flor, tal a doçura do gesto que vem dessa criança.

        Semana da criança! Sete dias a ela consagrados. Sete dias destinados muito mais a condensar todos os benefícios para aquelas que não sentiram, nos primeiros anos da existência, o calor do colo materno, a ternura do abraço de um pai, o amparo dos que lhes trouxeram à vida. Elas necessitam receber todo o apoio, toda a ternura, todo o carinho dos bons corações, porque nada pode confortar mais as almas bem formadas do que servir às crianças – almas ainda um botão, a desabrochar nas primaveras da existência, nesse constante desenrolar de gerações, que se vão formando em alas que se enfileiram e alongam-se no tempo, para subirem os degraus do presente e descerem, no futuro, as ladeiras da outra encosta da montanha, quando chegam os ocasos da vida!

        Mas, as crianças são como as auroras. Nelas há somente luz e esplendor, num contínuo espetáculo de claridade! Do berço ao manifestar-se; dos primeiros passos aos monossílabos; dos monossílabos às palavras mal pronunciadas; daí aos Jardins de Infância até à aprendizagem da leitura e da escrita. Cânticos alegres, e recreios inocentes.  A vida da criança, que é amparada, é sempre rodeada de alegrias. Não há maldade na criança, salvo se, desamparada; nesse caso, ela cai no ‘inferno’ do vício. Cabe-nos, quanto possível, evitar que isso aconteça. E sabe Deus quanta vocação, quanta inteligência, quanta grandeza se perde naquelas pobres criaturas que, abandonadas, transviadas, lançam-se à própria sorte! Sorte?! Que sorte?

        Não! E não! As crianças não podem e não devem ser destinadas a sinas tão cruéis. Ampará-las, educá-las, encaminhá-las deve ser a preocupação de todos em todas as nações. As crianças são os nossos sucessores naturais. Cuidemos das crianças, hoje, para que tenhamos um mundo melhor, mais humano, mais fraterno, no qual seja banida a guerra, o trabalho escravo, a droga. O mundo só será melhor quando for povoado por pessoas melhores; e a paz só reflorescerá em impressionante beleza primaveril, se decidirmos, hoje, preparar em cada lar, em cada escola, em cada fábrica, em cada grupo social, familiar ou religioso, uma geração nova, com valores imutáveis e inegociáveis.

“Só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a” (Johann Goethe)

*Oscar Vitorino Moreira Mendes é Médico Veterinário, professor aposentado da UESB e presidente da AMVEJ

JORGE PORTUGAL DEIXA SECULT ALEGANDO QUE NÃO SABE FAZER GESTÃO

foto Lucas Rosario

O professor Jorge Portugal deixa o comando da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult) na tarde desta segunda-feira (2) e em seu discurso de despedida do ele admitiu, em tom de brincadeira, que não possuía todas as características necessárias para assumir o cargo. “A coisa que eu menos sei fazer é gestão”, declarou pouco antes da posse da sua sucessora, Arany Santana. Portugal acrescentou ainda que o governador Rui Costa foi maluco em ter feito o convite para ele. Em um breve balanço do seu período como secretário, Portugal avaliou seu trabalho como satisfatório, destacando que deu “alguns pontapés iniciais”. Ele citou projetos realizados pela sua gestão, como o Concha Negra, e lembrou que foi o primeiro negro a assumir o comando da Secult em mais de 400 anos. Por outro lado, ele ressaltou que “não deu pra fazer tudo que eu tencionava fazer”.

Nos bastidores da política corre rumores de que o secretário demissionário não teve condições foi de gerir as demandas advindas do deputado Rosemberg Pinto, o todo-poderoso da pasta. Outros comentários dão conta de que Portugal ainda foi muito elegante ao aceitar sair com o estigma de mau gestor. Aliás, por falar em cultura, convoquemos Shakespeare: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia”. Pode-se aplicar, secretário?

VEM AÍ… ANÉSIA CAUAÇU: LENDA E HISTÓRIA NO SERTÃO DE JEQUIÉ

Edições ALBA

Anésia Cauaçu: Relatos da histõria. Anésia guerreira ou cangaceira? Quantas famílias remanescentes daquele tempo ainda vivem em Jequié e outras cidades da região? Bandida ou fazendeira? Você saberá o que registra a história. Mais uma edição da ALBA. Confira. Lançamento em breve.

Anésia Cauaçu – Lenda e história no sertão de Jequié

“É a história como base da ficção e a ficção permeando a história, intercambiando os fatos reais, com uma narrativa lúdica, mítica, resultado das representações do imaginário popular e da criatividade”.

Wilson Midlej

 Capa e Mensagem: Lula Martins; Orelhas: Zé Américo Castro; Prefácio: Sergio Mattos Revisão: Dermival Rios, Jussara Midlej.

CARTA ABERTA AO GOVERNADOR RUI COSTA

Senhor governador.

Eu o conheci ainda num cantinho lá no último andar da governadoria, uma espécie de sótão, onde o senhor, ainda se preparando para assumir a secretaria de relações institucionais. Na equipe, desempenhou as missões com equilíbrio e competência tornando-se autoridade, assessor imprescindível e sucessor do governador. Introspectivo, de poucas palavras, com a fisionomia meio amuada, revelou-se um executivo sério e objetivo.

Depois, candidato a deputado federal, circulou por Jequié em companhia do meu amigo Euclides, buscando angariar os votos necessários à conquista do mandato. Mais adiante, candidato à sucessão de Wagner, saiu vitorioso em uma eleição que eu já dava como certa a vitória de Paulo Souto. As informações que me chegavam até as vésperas do pleito davam conta de uma acachapante derrota do PT. 46% Paulo Souto, contra 24% de Rui Costa e 6% Lídice. Como vimos, os prognósticos e análises de profissionais de notório saber, não se concretizaram e o senhor foi eleito com 54.53% contra 37.39% de Paulo Souto. O resultado de Lídice permaneceu inalterado com 6.62%. Resultado surpreendente, convenhamos.

Pois bem, por absoluta falta de provas, não considerei os argumentos e acusações ouvidas, e procurei encarar o eleito como o governador de todos os baianos. E pus-me a observar.

Nesse ínterim, confesso que tive gratas surpresas com o seu comportamento como autoridade maior do nosso estado e passei a escrever as matérias dando relevância à primeira dama, jequieense, simpática e proativa, bem como relativas às andanças do governador pela Bahia. Enfocava a sua figura com mais tolerância, chegando mesmo a algum entusiasmo com a sua correria, sua simplicidade, determinação, uma certa ojeriza a aplausos e elogios gratuitos. Tudo isso fez com que, aos poucos eu fosse narrando os seus feitos, encontros e reuniões de trabalho com esperança e otimismo na quebra de paradigmas há muito arraigados entre os políticos brasileiros.

Cheguei a considerar a possibilidade de uma reeleição, caso o senhor se desvencilhasse do partido dos trabalhadores, hoje encardido pelas sucessivas acusações de desvios de conduta e variados maus feitos de membros de todos os escalões. Claro que eu não cria que o senhor abandonasse os seus companheiros para ingressar em outra sigla. Foi só especulação minha, mesmo.

Passei a vê-lo, desde aí como um espécime raro, capaz de descartar os oportunistas e aproveitadores numa suposta campanha eleitoral.

Entretanto, logo em seguida, já começaram a brotar ações infelizes por parte do seu governo, seja na área da educação pública superior, na área da saúde, na segurança e nos transportes.

E para sepultar de vez as minhas esperanças, recebo não apenas como analista e repórter, mas como beneficiário, as informações advindas dos médicos e clínicas de que o Planserv estabeleceu um sistema de cotas mensais, penalizando direta e perversamente o associado do Plano de Saúde dos Servidores do Estado.

Com o título “PLANSERV 503 mil associados submetidos a cota nos consultórios médicos” em outra oportunidade escrevi sobre o tema e replico aqui:

“Contrapondo-se ao anúncio que está sendo veiculado na mídia, o plano de saúde dos funcionários do governo do estado da Bahia PLANSERV, sucessor do IAPSEB, dono de uma respeitável carteira de 503 mil associados, com inadimplência zero, já que a contribuição é debitada em folha de pagamento do servidor, acaba de decidir que cada consultório médico ou clínicas estarão sujeitas ao regime de cotas. Ou seja, um determinado número de atendimentos por mês.

Ora, se um associado do PLANSERV, cujos valores que desembolsa  tem significativa representação em seu orçamento, precisa de um atendimento médico em momento de crise alérgica, de otorrino laringologia, cefaleia intensa, desarranjo intestinal, febre renitente, ou seja lá que doença em estado agudo se apresente, ao tentar marcar o seu médico para um atendimento ou procedimento, tem que se submeter à demanda de marcações na data, pois a cota estabelecida, não tem critérios atuariais e pode esgotar-se ainda nos primeiros dias do mês.

Aí, caso o paciente insista em ser atendido, é preciso desembolsar, no mínimo,R$ 250,00 reais por uma consulta, sem contar o procedimento a que precisará ser submetido.

Para a professora que prefere não se identificar, “É verdadeiramente uma decisão infeliz dos governantes do Estado. Muitas vezes a população se submete aos salários humilhantes pela compensação de um bom serviço conquistado ao longo do tempo, através dos planos de saúde…”.

A propaganda ressalta que deve-se “Espalhar a verdade. O Planserv é o melhor plano de saúde da Bahia e o melhor do Nordeste”, garantindo ainda, que não será privatizado. Que os quase 1 milhão de associados terá o atendimento garantido, sem suspensão ou descredenciamento. Que só no primeiro semestre foram 2 milhões de atendimentos a mais do que no primeiro semestre do ano passado. Finaliza dizendo que o Planserv está sempre ao lado do servidor e da servidora…

Ao lado de quem, cara-pálida? O leitor que em crise, com febre alta, procurou o médico hoje pela manhã, foi informado que a cota terminou desde o dia 10. Tenham paciência, senhores. E o Rui, que estava indo bem, beneficiando a população, cuidando da Bahia e dos servidores estaduais, como fica agora? Seria exagero publicar o que o servidor expressou quanto às saudades do PFL? É lamentável. Qualquer gestão responsável ofereceria serviços de extrema qualidade com a receita de 503 mil associados e inadimplência zero. Onde estão estes recursos? Fica a pergunta e fica também a dúvida do servidor doente: onde ir, já que o SUS também faliu? Socorro!!!!”

Pois é Governador, imagino que Vossa Excelência tenha lá os seus motivos, o amplo quadro de fornecedores e prestadores de serviços requer uma gestão pontual e firme, com fiscalização constante. Insista nisto, portanto, e mantenha o nosso PLANSERV a funcionar, fora das especulações dos burocratas. Preserve a saúde e o certo conforto que os servidores do estado gozavam, até então. Amplie as possibilidades assistenciais do Plano e invista em sua gestão de modos seguro e eficaz evitando ações extremas de quem merece e precisa ter de volta as condições que fazem o servidor público estadual se orgulhar de ser Planserv. Finalmente, evite que uma horda de desassistidos saiam às ruas, antes, durante e após o período eleitoral, substituindo o fora Temer, por fora Rui.

Enquanto isso, mesmo indignado, ainda mantenho os meus pontos de vista de admiração, esperança e respeito por sua atuação.

Wilson Midlej

Jornalista e membro do Instituto Pensar Jequié

UMA HISTÓRIA DE AMOR

Por Caca Diegues*

 

 

via Aninha Franco**

Eu também já amei muito Luiz Inácio Lula da Silva. Quem não o amou, em algum momento de sua vida, neste país? Em 2003, assisti pela televisão à sua posse em Brasília, sem perder um só segundo daquela festa possivelmente seminal, lágrimas nos olhos por tão bela e radical transformação pacífica pela qual passava o Brasil. Quando Fernando Henrique lhe entregou com gosto a faixa presidencial, me senti vivendo a realização de um sonho de juventude, a inteligência reconhecida dando cidadania à vitória do povo pobre.

Apesar de alguns conflitos genéricos, causados pelos rumos que estava tomando a administração da cultura pelo Estado, minha primeira grande e estranha surpresa veio, claro, com o mensalão.

Como todo mundo, fiquei chocado, sem saber o que pensar diante das revelações provocadas pela denúncia de Roberto Jefferson, um precursor da delação premiada. Mas, como todo mundo, acreditei no que Lula então disse publicamente, que não sabia de nada, que tinha sido traído por colaboradores em que havia confiado. Entre outras coisas, o silêncio de José Dirceu, uma antiga admiração pessoal, me fez acreditar nessa versão e, em 2006, não vacilei em votar pela reeleição, contra a pinta de Opus Dei de Geraldo Alckmin (e lá vem ele outra vez!).

Acho que comecei a desconfiar de meu herói quando li uma declaração sua, dizendo se sentir melhor agora, vestido de terno e gravata, do que na época em que usava um macacão de operário. Por mais que essa sinceridade pudesse fazer sentido material, não era aceitável que um líder popular daquela envergadura avacalhasse tanto os valores simbólicos de sua origem. E, pior ainda, quando Lula começou a abrir o jogo de seu desprezo pela cultura, pelos livros e pelo conhecimento, como se devesse seu sucesso à ignorância a que tinha sido condenado por sua situação de classe. Um ressentimento agressivo, um rancor mal disfarçado em declarações de subestimação do estudo e da inteligência.

Não sei quando começou a tragédia que vivemos hoje no Brasil. Ela vem possivelmente de longa data, passando certamente pelos oito anos do governo Lula, para se agravar no de Dilma Rousseff. Ao sofrer o impeachment, a então presidente já tinha jogado 11,5 milhões de brasileiros no desemprego e consolidado, segundo Thomas Piketty, o famoso neomarxista francês, a desigualdade em nosso país. “É deprimente”, diz o ensaísta, “ver que décadas de democracia foram incapazes de promover mudanças no Brasil”. Era nessas mudanças que estavam nossas esperanças; mas elas se resumiram a políticas assistencialistas, dignas de aplauso mas nada dinâmicas, incapazes de promover qualquer ascensão social. E muito menos uma revolução.

Lula deixou de ser “o cara”, o líder popular mais atualizado que o Brasil poderia ter tido, para se tornar um chefe populista, como qualquer outro dessa maldita tradição latino-americana alimentada pelo patrimonialismo, o instrumento das oligarquias que ele tentou mimetizar. No extremo populismo latino-americano, religioso e sebastianista, os partidos se tornam seitas e seus chefes divindades que não erram. A política se desmaterializa em crenças e superstições estimuladas pelos apóstolos do chefe redentor.

Caímos na mais velha arapuca de nosso subdesenvolvimento, a proclamação da necessidade de indivíduos indispensáveis, santos vivos responsáveis por nós. Mesmo que reconheçamos a clareza de presentes, palestras, sítios, apartamentos, prédios, recibos falsos, a honestidade autoproclamada, temos certeza que só de sua redenção pode surgir nossa salvação como povo e como país. Numa época em que, segundo Steve Coll, professor de Columbia, os algoritmos e seus programadores são uma nova fonte de poder, ainda estamos entregues ao populismo de cordel.

O oposto de Lula não é o nariz empinado de FHC e suas aves de estimação. Bolsonaro ou o general Mourão, também não. Nem, por óbvio, Eduardo Cunha, Aécio, Geddel, Cabral. Não devemos querer sermos governados, a partir de 2019, pelos iguais dos que já nos desgovernam (não há nada de novo em Dória ou Alckmin). O contrário deles é o contrário de seu contrário e assim sucessivamente, até que possamos desembocar em alguma coisa que nos traga de volta a esperança de 2002, fragilmente representada nas ruas em 2013.

Em sua carta patética à direção do PT, Antonio Palocci tem um momento de iluminação: “Minha geração talvez tenha errado mais que acertado. Ela está esgotada. É nossa obrigação abrir espaço a novas lideranças, reconhecendo nossas graves falhas e enfrentado a verdade”. Eu sei que não posso mais ter meu amor de volta; mas que pelo menos a esperança do amor não morra.

*Cacá Diegues é cineasta

**Aninha Franco é escritora, pensadora, poeta, dramaturga, crítica, advogada e ativista cultural.

SERÁ ENTRE 5 e 8 DE OUTUBRO, A FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE CACHOEIRA – FLICA 2017

A Festa Literária Internacional de Cachoeira já se tornou tradição no calendário de eventos literários do Brasil. A sétima edição, entre os dias 5 e 8 de outubro, segue trazendo para o Recôncavo Baiano influentes nomes da literatura nacional e internacional, com programação para adultos e crianças. Em 2017, como nas edições anteriores, estão programados debates literários, lançamento de livros, exposições, apresentações artísticas, contações de histórias e saraus.

Este ano, Ruy Espinheira Filho será o homenageado. Autor de mais de 20 livros, recebeu diversos prêmios, como o Nacional de Poesia Cruz e Sousa,  Nestlé, Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores, de Poesia da Academia Brasileira de Letras, Portugal Telecom, Rio de Literatura, além de ganhar o Jabuti. Tem contos e poemas em diversas antologias publicadas no Brasil e no exterior (Portugal, Itália, França, Espanha e Estados Unidos).

A Editora Galinha Pulando vai estar presente durante a programação. A escritora Rita Pinheiro e o poeta Valdeck Almeida de Jesus estarão no estande.

Entre os títulos que a Editora vai comercializar, durante o evento, está o “Memorial do Inferno”, de Valdeck Almeida de Jesus, que conta a história da família Almeida, natural de Jequié, que passou fome por mais de 25 anos e que conseguiu se estabelecer, apesar das adversidades. Valdeck Almeida também apresenta “Gayroto de Programa: 5000 mil tons de sexo”, que é o relato da vida nada romântica de um homossexual nascido na pequena Upabuçu, cidade da região de Lagedo do Tabocal, no Vale do Jequiriçá e emociona pela crueza e beleza da luta de um gay interiorano que tenta, a seu modo, ser aceito e conquistar um amor;

Já Rita Pinheiro estará autografando “Os poemas que eu não gostaria de escrever e nem você de ler”. A professora Rita Pinheiro faz poemas que cortam, dilaceram, sangram. A obra é forte, dura, incisiva, luta contra todo tipo de injustiça, principalmente contra a violência contra a mulher. Emocionante e pleno de afetividade, este livro marca um lugar na história da poesia da Bahia.

Na Feira há sempre espaço para as crianças. Livros e brincadeiras criam um universo lúdico para a Fliquinha, um espaço literário direcionado aos pequenos. A curadoria é de Lília Gramacho e Mira Silva, que já estão no posto há cinco anos.

Aos amantes da literatura de todas as idades e gostos, a Flica é um espaço para contemplar o mundo das letras, sendo um dos maiores eventos literários do país.  As mesas de debate ocorrem, desde a primeira edição, no já mencionado Claustro, enquanto a Fliquinha tem lugar no Cine-Theatro Cachoeirano, outro prédio tombado pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Parte da programação acontece no Espaço Educar para Transformar, localizado em frente à Câmara Municipal de Cachoeira. Lá, o público pode participar de diferentes atividades, como lançamento de livros, exposições, apresentações artísticas, contação de histórias e saraus.

O Governo do Estado da Bahia apresenta a Flica 2017. O projeto é realizado pela Cali e Icontent e tem patrocínio do Governo do Estado, por meio do Fazcultura, e apoio do Hiperideal, da Prefeitura Municipal de Cachoeira e da Coelba.

O EFEITO CASCATA DA MENTIRA QUE VEM DA ALTA POLÍTICA

 Por Francisco Daudt* via Aninha Franco*

“É tudo mentira. Ele é um simulador, frio, calculista, ele é capaz de simular uma mentira mais verdadeira que a verdade.”

Pois é. Eu estava bem feliz de tratar de assuntos conceituais da natureza humana, de não ter que falar de política, desde que Madame retornou à insignificância de onde nunca deveria ter saído, mas essas frases acima…. Nas palavras de Michael Corleone, “eu quero sair, mas eles me puxam de volta!”

Para minha sorte, elas se referem a uma condição humana pouco entendida: a sociopatia. O sociopata é um psicopata que opera no atacado. Não se contenta em ser um assassino em série, um pequeno trapaceiro, um malfeitor de voo curto. Como o psicopata, ele não tem barreiras morais que se interponham a seus propósitos criminosos. Não há remorso, não há reconhecimento de erro, não há humildade. Ao contrário, há megalomania: a convicção de superioridade, de estar acima do bem e do mal, de ser possuidor de uma clareza mental assassina que transforma todos os demais em imbecis. E um gozo infinito em fazê-los de imbecis. Não poderia dar explicação melhor de como funciona um psicopata do que aquelas frases do início: a simulação fria do que for necessário para seus propósitos. Fazer-se de vítima? Ele será a maior vítima do mundo. Mentir descaradamente? Ele fará a mentira soar como a maior das verdades. Ignorar o que disse ontem e dizer o justo oposto? Foi você que ouviu mal, ele sempre pensou assim. Compromisso com a verdade, com a dignidade, com a honestidade? Zero. Mas se a aparência disso lhe for útil, ele se dirá a pessoa mais honesta do Brasil.

Manipulação? É fascinante assistir a ela. Televisionado na presença de um juiz, ele o usará como palanque para falar com seus seguidores, e dar-lhes argumentos –ainda que rudimentares– que mantenham sua crença nele.

Não existem psicopatas burros. O despudor, o cinismo e a leviandade retiraram-lhes as travas mentais que nos restringem. Dizem que os psicopatas não têm superego. Não é isso, pois tudo o que fazem é direcionado justamente contra aquilo que o superego manda. Eles são obcecados pela quebra das leis e da ética. É uma vida devotada à transgressão e à trapaça: seu maior gozo é chutar o superego para o alto.

O sociopata descobriu a mais eficiente das armas para manipular multidões: o sentimento de culpa. “Eu fui ferrado na vida, e os culpados são ‘eles’, e agora eu falo em nome de todos os ferrados, para nos vingar ‘deles’.” Como pastor do coitadismo, tudo lhe é desculpado, a culpa é dos outros. Não é à toa que sentir-se ofendido e culpar os outros virou uma praga em que o politicamente correto tomou carona.

O que nos leva à cascata. Quando Pedro Aleixo recusou-se a assinar o AI-5, perguntaram-lhe se ele temia que o presidente fizesse mal uso dele. “Não temo o presidente”, respondeu, “mas quando o autoritarismo se instala no alto da cadeia de comando, desce em cascata até o guarda da esquina. E este eu temo”.

É a cascata o pior legado do sociopata e seus asseclas: a corrupção moral do país, o coitadismo, a incompetência abençoada são ainda mais graves que os horrores que têm aparecido.

 

*Francisco Daudt é psicanalista, médico e colunista da Folha de São Paulo

**Aninha Franco é escritora, pensadora, poeta, dramaturga, crítica, advogada e ativista cultural.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

JEQUIÉ: ACADEMIA DE LETRAS DISCUTIU, EM MESA REDONDA, A OBRA DE WALY SALOMÃO

 

A iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura de Jequié, em parceria com a Academia de Letras de Jequié e outras entidades envolvidas, tem o reconhecimento do significativo público que tem acorrido todas as noites ao Museu Histórico.  Foi assim, também, na noite de ontem (21), quando foi dado prosseguimento, no salão da Academia de Letras, a mesa redonda que discutiu a obra de Waly Salomão. Os palestrantes convidados foram os professores Antônio Brito, Anísio Assis, Maurício Bastos e Lucas Ribeiro. O evento fez parte das atividades em homenagem ao poeta jequieense no Museu Histórico de Jequié, que se extende até o fim do mês. De parabéns o secretário de Cultura Alisson Andrade, o presidente da ALJ Júlio Lucas, o diretor de Cultura, Bené Sena, além dos representantes dos vários segmentos culturais da cidade que se irmanaram ao projeto.

Uma pena que mês de aniversário do poeta, escritor, compositor, produtor musical jequieense, quando a comunidade se reúne para discutir a sua obra e lembrar da data do seu nascimento, o seu irmão, Omar Salomão, se encontre no leito do hospital, em Salvador, acometido por uma crise cardíaca.

Mesmo abalada e orando pela recuperação do querido amigo, a sociedade continua celebrando as justas homenagens pela passagem do aniversário de nascimento de Waly.

Vale a pena conferir, até dia 30 de setembro, no Museu de Jequié a programação de homenagens à obra de Waly Salomão com apresentações teatrais, shows da Orquestra Municipal, espetáculos de dança, cordéis, saraus, mesas redondas e a esquete itinerante, que continuará rodando os coletivos e praças públicas do município. A homenagem a Waly Salomão será encerrada com um show musical com Rosy & Banda, com um repertório pinçado das composições criadas pelo artista.

Waly Salomão, era casado com Marta, pai de dois filhos, Omar e Khalid, irmão de Guilherne, Jorge, Omar, Kadija, Rilene e Samira, jequieense, filho de pai sírio e mãe sertaneja, foi um poeta que agitou o Rio de Janeiro nos anos 70, 80, 90 nasceu em 3 de setembro de 1943 e morreu precocemente em 2003, quando perdeu a luta contra um câncer. Foi também o compositor de canções como “Vapor Barato”, gravada por Jards Macalé, Gal Costa e O Rappa; “Mel”, sucesso gravado por Maria Bethânia e Caetano Veloso; e “Assaltaram a Gramática”, interpretada por Lulu Santos e Paralamas do Sucesso, entre muitos outros. A homenagem pública organizada pela Prefeitura de Jequié ganhará ainda exposições multimídias no Museu Histórico de Jequié João Carlos Borges, intituladas “Algaravias” e “Janela de Marinetti”, nomes de obras literárias do poeta.

Foi secretário nacional do Livro e Leitura, nasceu em 3 de setembro de 1943, em Jequié (BA), e notabilizou-se por escrever letras muito disputadas por cantores e cantoras nacionais.

Participou do movimento cultural Tropicália, na década de 60, protagonizado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Torquato Neto, Jards Macalé, Gal Costa e Maria Bethânia. A Tropicália misturava temáticas e termos americanos aos utilizados pela popular Bossa Nova, sofrendo crítica na época.

Espera-se que a comunidade cultural, não apenas de Jequié, mas de toda a região, prestigie com suas presenças as atividades que a gestão do prefeito Sergio da Gameleira promove em Jequié, em homenagem a este artista nacional e poeta extemporâneo.