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CARTA AOS BRASILEIROS – A VINGANÇA

Por Miguel de Almeida* via Aninha Franco

 

Nunca antes neste país um presidente escreveu tanto ao povo sacrificado, explorado e tão mal informado pela mídia golpista e por esses blogs que o Franklin inventou para nos defender. É uma confusão dos diabo.

É tarde da noite. Estava pensando em nosso encontro com os intelectuais e artistas cariocas. Quer saber? Aqui entre nós? Achei fraco. Antes quem me puxava o saco eram Aziz Ab’Sáber, Pingueli Rosa, Chico de Oliveira e um bando de camaradas da pesada. Poxa, saí de lá carregando livros da Elisa Lucinda e do Eric Nepomuceno. É mole? Só falta eu ter de assistir a um luau dela.

Gleisi, lá só tinha o lado B. No bom sentido, companheirxy. Não me entenda mal porque não quero encrenca com o Paulão.

Não fosse esse Moro eu estaria com o carro na sombra, o carvão na grelha, e o copo cheio, mas estou aqui tendo de defender a linguiça do meu churrasco. E rir das graças do Duvivier. A vida é injusta.

Chico não foi, né? Ele só aparece para jogar futebol. Sei que estava na cidade. Pelo menos ele não pede para eu ler os livros dele. O Marco Aurélio, que lia tudo e que Deus o mantenha longe do Teori, me disse que o “Budapeste” dele é um estorvo, um leite derramado numa tarde em Maricá.

Como ali só tinha o lado B, achei que poderia esnobar aquele pessoal. Saquei do bolso do meu macacão uma informação trazida por um companheiro: o presidente do tribunal que irá me julgar é bisneto do general que matou o Conselheiro lá em Canudos.

Isso sim é coincidência, não?

O problema é que o Conselheiro, me contaram depois, morreu com uma diarreia desgraçada. Nem por bala ele foi morto. Mas lá na hora a coisa fez efeito. Se soubesse como ele morreu, não tinha falado. Imagine as piadas que vão fazer a respeito. Ainda bem que o Duvivier está no papo.

Uma (outra) coisa que me contaram: só no Brasil humorista é a favor. Em geral é um pessoal sempre do contra. Sorte minha. Mesmo assim a vida é injusta: eu ficaria feliz se fosse o Costinha, né?

A companheira Benê veio com o Pitanga. Será que eles sabem a história do Conselheiro? Duvido. Do jeito que o Pitanga fala sem parar, acho difícil ele ler até placa de trânsito.

Por que a Camila não veio? Eu ia querer guardar uma foto ao lado dela. Tenho uma aqui com a Beth Carvalho, mas não é a mesma coisa, né?

Se eles engoliram a minha história do Conselheiro, está aí uma coisa que não entendi: por que o Tabaco chorou ao falar de Cuba? Ele vai lá passear com a filha dele, e daí chora? Artista é um bicho estranho. Imagine eu andando nesses cafundós que ando… eu é que devia chorar: já pensou quanto café requentado vou ter de tomar por causa do Moro?

(Soube agora que o bisavô do juiz de Porto Alegre não era general, mas coronel. Para mim é tudo a mesma coisa. Mas o companheiro que me deu a dica poderia ser mais cuidadoso. Ainda bem que os humoristas no Brasil…).

Em São Paulo, a coisa foi ainda mais fraca, companheirxyz. Na Casa de Portugal não dava para tirar foto. Tirar, tirei, mas estava uma tristeza. A pessoa mais empolgada era o Chico César, imagine. Cá entre nós: ele não acerta mesmo no cabelo, não? Antes parecia a Pedrita, hoje nem sei…

Acho que a culpa é desse terno que usei na Casa de Portugal. Ganhei de presente do Evo Morales. Terno boliviano, corte boliviano, tecido boliviano. Será que foi por isso que o José de Abreu não foi? Artista é um bicho estranho.

Juro que não estou pensando na Bete Mendes. Mas poderia, né?

Lembro quando fiz minha primeira campanha a presidente. Tenho saudade daquela época. Ali sim eu estava bem cercado. O coitado do Collor morria de inveja: nem dava para a saída. Mas agora… No dia seguinte ao evento de São Paulo, ele anunciou que vai ser candidato. Me viu ao lado do Chico César, usando um terno do Evo Morales, acho que é isso.

Não posso mais dar sinais de fraqueza.

Mas você quer que eu faça como? Viu a camisa do Pascoal da Conceição? Aquilo é falta de respeito para comigo, um ex-presidente duas vezes. Viu a camisa do Lindberg (tá certo o nome?)? E ele ainda quer meu apoio para ser governador do Rio. Não vai ganhar nunca. O Paes sim, ele sabe escolher uma camisa. Fica melhor ainda quando tem aqueles piti.

(Soube de outra agora: o general que é coronel, não é bisavô do juiz de Porto Alegre. É tio trisavô. E isso existe? Me ensinaram tudo errado. Com uma assessoria assim eu ainda acabo jogando tranca com o Cabral em Curitiba).

Companheirxyzw, vai me desculpar, mas acho que você pisou nas costas da cobra ao dizer que vai morrer gente se eu for preso. E pisou sem chinelo. O companheiro Stédile já mandou avisar que não tem ninguém disponível no momento. Com os companheiro da CUT eu não também não posso contar. O Boulos? Esse aí passa o dia ouvindo Caetano, anda muito, como é que se diz?, anda muito odara.

O que é odara?

(Para acabar com o meu dia: acabei de saber que o general que é coronel, que não é bisavô mas é tio trisavô, bem, ele morreu duas semanas antes do Conselheiro! Diabo, vão dizer que virei a Dilma!). A vida é injusta.

*Miguel de Almeida é jornalista, poeta e editor.

QUEM QUER LULA?

Por J.R.Guzzo*

Está quase lá: mais uns poucos dias e vamos saber se a sentença que condenou o ex-presidente Lula a nove anos e tanto de cadeia por corrupção será confirmada, ou não, no tribunal superior para o qual ele apelou. Com isso vai se encerrar, enfim, o segundo ato desta comédia infeliz. Ela vai continuar, é claro, mas terá tudo para ir ficando cada vez mais rala, daqui para a frente, se a condenação for confirmada por unanimidade — e se, por conta disso, Lula não for candidato à Presidência da República em 2018. O público vai começar a sair da sala, pouca gente estará realmente prestando atenção no que os personagens falam no palco e, de mais a mais, o espetáculo que de fato interessa — quem será o próximo presidente — estará sendo apresentado em outro lugar. Se o ex-presidente sair do jogo, nos termos do que manda a lei, o Brasil terá uma excelente oportunidade para tornar-se um país melhor do que é. Ao mesmo tempo, será dado mais um passo no desmanche da maior obra de empulhação já montada até hoje na história política deste país.

Essa farsa, em exibição há anos, se deve à seguinte realidade: nada do que existe em relação a Lula é genuíno, verdadeiro ou sincero. Lula se apresenta como um operário, mas já passou dos 70 anos de idade e não trabalha desde os 29. Representa o papel de maior líder de massas da história do Brasil, mas não pode sair à rua há anos, com medo de ser escorraçado a vaias, ou coisa pior. O “irmão” do brasileiro pobre é um milionário — e, como diz a líder de um partido rival de extrema esquerda, ninguém pode ser metalúrgico e milionário ao mesmo tempo. Vive denunciando as diferenças entre ricos e pobres, mas nenhum presidente brasileiro enriqueceu tanto os ricos quanto Lula — e justo aqueles que tiram suas fortunas diretamente do Tesouro Nacional. Os pobres ficaram com o Bolsa Família. A Odebrecht ficou com as refinarias, os “complexos” petroquímicos, os estádios da Copa do Mundo, os portos em Cuba.

Chegaram, neste fim de feira, a chamá-lo de “Nelson Mandela” — imaginem só, Nelson Mandela, que ficou 27 anos preso por ser negro e pedir a igualdade racial em seu país, e não por ter sido condenado como ladrão num processo absolutamente legal. Mandela não teve advogados milionários, nem recursos no TRF4, nem a paciência do juiz Sergio Moro, nem liberdade para ameaçar, pressionar e insultar a Justiça. Não teve acenos de prisão domiciliar e “regime semiaberto”. Mais do que tudo, talvez, Lula foi santificado como o homem mais importante do Brasil nos últimos 500 anos. Criou-se a fábula de que tudo depende dele, a começar pelo futuro de cada brasileiro. Nada se pode fazer sem Lula. Lula vale mais que todos e que tudo. O Brasil não pode existir sem Lula.

Tudo isso é uma completa falsificação — e é por isso, justamente, que as atuais desgraças de Lula na Justiça não estão provocando nenhum terremoto na vida nacional, e sim um final de história barateado pela decadência, rancor e mesquinharia. A verdade, em português claro, é que o Brasil não precisa de Lula. Se cair fora da vida política mais próxima, não fará falta nenhuma. Não há no Brasil de hoje um único problema concreto que Lula possa ajudar a resolver — você seria capaz de citar algum? É verdade que sábios de primeiríssima linha, cientistas políticos, “formadores de opinião” etc. têm se mostrado aflitos com a possível “ausência” de Lula da lista de candidatos — nas suas angústias, acham que isso seria desagradável para a imagem de pureza que caracteriza nossas eleições através do mundo. Mas é uma alucinação: se Lula ficar fora, será porque a lei assim determinou, e ponto-final. Isso apenas mostra a imensa dificuldade que a melhor elite brasileira, até ela, tem para aceitar a ideia de que a sociedade deste país só valerá alguma coisa quando viver sob o império da lei.

Quem precisa de Lula não é a lisura das eleições nem o povo brasileiro. São as empreiteiras de obras públicas. São os que esperam por novas refinarias Abreu e Lima. São os vendedores de sondas ou plataformas para a Petrobras. São os operadores de fundos de pensão das estatais. São os marqueteiros milionários. São os Renan Calheiros, e os Jarbas Barbalhos, e os Sarneys. É a diretorzada velha da Petrobras — gente que não vacilou em meter a mão no bolso e devolver 80 milhões de dólares em dinheiro roubado da empresa. São os Odebrechts, os Joesleys, os Eikes.

Quem precisa mais de Lula — o homem que no dia seguinte ao do julgamento estará às 4 da manhã na fila do ônibus? Ou essa gente aí?

*José Roberto Guzzo é jornalista, diretor editorial do grupo EXAME e colunista das revistas EXAME e VEJA. Integrante do Conselho Editorial da Abril.

Artigo Publicado em Veja 19/01/2017).

A BELA DA TARDE, AOS 74

Por Demetrio Magnoli* 

 

viaAninha Franco**

Meio século, duas vezes. Em maio de 1967, estreou em Paris o filme “Belle de Jour”, de Luis Buñuel, a história da burguesa frígida Séverine que consumia suas tardes trabalhando num bordel. Em janeiro de 1968, emergiu em Nanterre, Paris, a figura de Daniel Cohn-Bendit, indagando ironicamente se um relatório oficial sobre a educação francesa abordava o tema da vida sexual dos estudantes universitários. Hoje, finalmente, cem mulheres disseram “basta!” e denunciaram as neofeministas por almejarem censurar “Belle de Jour” e cancelar a revolução sexual dos anos 60. Apropriadamente, as cem que assinam a carta aberta são francesas — e, melhor que tudo, Séverine (digo, Catherine Deneuve) é a mais conhecida entre as signatárias.

Séverine — linda, distante, gelada — recusava ser tocada por Pierre, seu marido suave e respeitoso. O ponto de fuga de sua jaula asséptica era o bordel ou as violências de um Pierre imaginário, convertido em fidalgo depravado. As saídas por baixo (pelo mundo da sarjeta), e por cima (pelo desaparecido mundo amoral da aristocracia), a conduziam ao desejo, ao gozo e à liberdade. No fim, descobrimos que as tardes da bela da tarde talvez não fossem mais que sonhos. E daí, se o gozo era real?

Deneuve assina a carta aberta para proteger o direito de Séverine sonhar. As neofeministas não têm nenhum problema com a tradição patriarcal ou o machismo. Elas querem, de fato, anular o desejo. A mensagem das cem francesas é que as mulheres não precisam de códigos fundamentalistas de conduta coletiva, da conspícua proteção do Estado, do leito hospitalar reservado às vítimas. Elas estão dizendo que são adultas e sabem cuidar de suas relações pessoais. Que, nesse âmbito, tudo que não é crime pertence à esfera privada. Que a sedução e o galanteio não são crimes. Viva Séverine!

Nos feriados, os prontos-socorros se enchem de mulheres pobres espancadas por maridos bêbados. Nas penitenciárias femininas, as detentas são regularmente abandonadas por seus familiares, que jamais as visitam. E, contudo, o movimento #MeToo, das jihadistas do feminismo pós-moderno, consagra seu tempo a nomear e difamar homens que, anos ou décadas atrás, ousaram pousar a mão no joelho de uma mulher avessa ao seu jogo de sedução. As cem francesas, indignadas com a campanha inquisitorial, provam que o espírito humano vive e resiste. A turba neofeminista não esperava por essa. Agora, as fabricantes do chavão iracundo terão que confrontar o argumento denso, o peso da crítica precisa.

Puritanas — eis a hashtag que as cem francesas colaram às feministas de araque que não aceitam as implicações da revolução sexual. O Cohn-Bendit de janeiro de 1968 ainda não era o “Daniel Le Rouge” do maio das barricadas, mas antecipava as desconcertantes pichações que cobririam os muros do Quartier Latin. Ele queria, na reunião com o representante do Ministério da Educação, o fim da rígida separação entre dormitórios masculinos e femininos nos campus universitários. A revolução sexual foi, antes de tudo, um movimento pela igualdade de direitos entre cidadãos adultos. Sua premissa implícita era que as mulheres não são o “sexo frágil”. Daí decorre que as mulheres assumem as responsabilidades que acompanham a liberdade. As novas puritanas histéricas obrigaram as cem francesas a sair em defesa desse valioso conceito anunciado há meio século.

Deneuve tinha 23 anos quando interpretou Séverine. Imagino o sólido tédio com que, aos 74, leu e ouviu as sentenças ressentidas, rancorosas, odientas, das puritanas disfarçadas de feministas. Puritanas incultas — eis a hashtag completa que a carta aberta associa às militantes da repulsa ao sexo. Sob a insuportável gritaria delas, um nu clássico foi removido do metrô de Londres. As artes, o cinema, os livros e as relações interpessoais cotidianas são os alvos da nova inquisição, que condena sem processo por meio de campanhas difamatórias nas redes sociais. As cem francesas estão nos alertando para o valor da liberdade individual e para o significado das palavras tolerância e diversidade. Elas temem, com razão, o advento de um mundo congelado, paralisado pelo estrito código normativo das Séverines que abdicaram de sonhar.

A geometria política do conflito nada tem de aleatório. O neopuritanismo descontrolado espraia-se, previsivelmente, a partir dos EUA. Na ponta oposta, a carta da resistência emerge na França — o país que, sem escândalo, assistiu ao enterro de um presidente ao qual compareceram tanto a viúva oficial quanto a informal, que era a amante. A força da carta encontra-se não só na sua qualidade intelectual intrínseca, mas no precedente que estabelece. Se as cem francesas insurgem-se contra as ferozes militantes do obscurantismo, por que não eu? Agora, as mulheres comuns já podem dizer, alto e claro, que rejeitam o figurino redutor de vítimas eternas.

Deneuve não é mais autora do que as outras 99 signatárias. Mas é justo que apareça como ícone da resistência: ser Séverine tem consequências.

*Demétrio Magnoli é jornalista e sociólogo

**Aninha Franco é pensadora, escritora, poeta, advogada, dramaturga e ativista cultural

MATÉRIA DE GABEIRA MOSTRA CRISE NA REGIÃO CACAUEIRA DA BAHIA

Por José Américo*

 

Durante dois dias seguidos o jornalista Fernando Gabeira esteve na região sul da Bahia colhendo informações e imagens para uma reportagem que será veiculada no próximo dia 21(domingo), às 18:30 horas, em seu programa no canal por assinatura GloboNews.

Tive a oportunidade de entrevistá-lo na Fazenda Santa Maria do Jenipapo, de Edvaldo Bruni, no município de Ibirapitanga.

Falamos de jornalismo, política, literatura, ecologia e outros assuntos, mas, neste texto, priorizei o motivo da sua visita à região e os assuntos que estarão na pauta do programa.

Aspectos ambientais, econômicos e sociais serão abordados na matéria de Gabeira cujo principal foco é a prolongada crise da cacauicultura regional , suas causas, consequências e possibilidades de soerguimento.

Muitas fontes foram consultadas por ele. Uma das principais foi o documentário cinematográfico “O Nó”, dirigido pelo ipiaúense Dilson Araújo que defende a tese de que a doença conhecida como “vassoura-de-bruxa”( Moniliophtera perniciosa) foi criminosamente disseminada na região. Um ato deliberado de terrorismo biológico.

Cenas de “O Nó” e provavelmente uma entrevista com Dilson serão mostradas no programa.

A questão do desmatamento das “cabrucas”, substituindo-as por pastagens de gado bovino, o desaparecimento de nascentes, indícios de desertificação em algumas áreas da zona cacaueira, o desemprego, o êxodo rural, a crescente criminalidade nos centros urbanos, foram outros aspectos que chamaram a atenção do celebre jornalista.

A introdução da doença vassoura-de-bruxa na zona cacaueira da Bahia aconteceu no final da década de 1980, desencadeando uma ação devastadora que foi acentuada por quedas do preço do cacau no mercado internacional e estiagens prolongadas como a verificada no ano de 2016.

Ao entrevistar o engenheiro agrônomo José Roberto Benjamim, Fernando Gabeira tomou conhecimento do malogro da orientação governamental no combate à doença, fato que potencializou a crise.

O olhar de Gabeira não viu só desastres. Também se voltou para a exuberância da Mata Atlântica e do cacau-cabruca, sua biodiversidade, os projetos preservacionistas e ações regeneradoras.

Ele constatou que homens de boa vontade como Edmond Ganem, Edvaldo Bruni, Victor Becker, dentre outros, que se dedicam à preservação da biodiversidade e ao reflorestamento, reacendem a esperança de melhores dias na região.

Em Ilhéus, Gabeira conheceu uma plantação de cacau consorciada com pau-brasil e no município de Camacan ficou encantado com a reserva Serra Bonita, “uma pioneira e inovadora iniciativa privada de conservação de florestas no sul da Bahia”.

Trata-se de um condomínio que se estende por 2.500 hectares contendo varias RPPNs (Reservas Particular do Patrimônio Natural). A experiência tem recebido prêmios internacionais.

Outros detalhes observados por Fernando Gabeira e registrados pelo cinegrafista Mauricio de Souza serão mostrados no primeiro programa que a dupla gravou neste ano de 2018.

Com essa reportagem o Brasil conhecerá os impactos do terrorismo biológico do cacau e a tentativa de soerguimento de uma das regiões de maior riqueza, biodiversidade e beleza do planeta.

“A região sofreu. Tenho a impressão de que ainda não se recuperou dos impactos que lhe trouxeram dificuldades, mas ela tem potencial de superar tudo isso”, concluiu Gabeira.

*José Américo Castro é jornalista, poeta e escritor

Nota do Editor: Parabéns, Zé. Primeiro pelo profissionalismo. Alguém que, como repórter independente, investe recursos pessoais para ir em busca da informação, da melhor entrevista, do melhor ângulo, extraindo a melhor cepa para lavrar a notícia, unicamente pelo dever da difusão. Segundo, pelo texto conciso e claro, cuja leveza faz sempre a diferença, mesmo em se tratando de tema tão grave para a nossa região e tão cruel para o nosso povo. Que ao levantar o assunto, o respeitado jornalista Fernando Gabeira, de tantos exemplos edificantes e corajosos em sua vida pessoal, possa contribuir para o esclarecimento do episódio e a punição dos culpados. Grande abraço.

NÃO É HORA DE SALVAR PESSOAS E SIM O PAÍS

Via Iracema Carneiro

 

Dr Hélio Martins, juiz da comarca de São João del Rei(MG) recebe um convite do deputado Reginaldo Lopes do PT para o lançamento de Lula/ 2018 e diz, em resposta ao deputado acima, o que todos os cidadãos brasileiros deveriam dizer: 

“Exmo. Senhor Deputado Reginaldo Lopes, em que pese o profundo respeito que tenho pela atuação parlamentar de V. Exa., não é hora de lutar para salvar pessoas, mas sim o País, atolado no caos econômico, na recessão, no desemprego, na violência e na vergonha internacional onde agentes políticos e públicos protagonizam o maior caso de corrupção de que se tem notícia na história da humanidade.
Quero, como tantos outros brasileiros com capacidade de discernimento e compreensão, que se faça justiça!!!
Que todos aqueles que se apropriaram de recursos públicos paguem por tão grave crime, além de devolver o que indevida e criminosamente levaram, privando o cidadão de saúde, educação, segurança, infraestrutura dentre outros. Todos, indistintamente, como republicanamente deve ocorrer, sejam do PT, do PMDB, do PSDB ou de qualquer outro partido político devem responder pelos crimes cometidos. Lugar de ladrão é na cadeia!!!
Lula foi processado, julgado e condenado no primeiro processo, sob a égide dos princípios constitucionais do devido processo legal e da ampla defesa.
Sou juiz de primeira instância, ou de piso, como gostam de dizer. Juiz de carreira, com muito orgulho! Submetido, como em todos os concursos públicos para membros da Magistratura e do Ministério Público, a provas de conhecimento de elevadíssimo nível de dificuldade, além de exames psicológicos, e rigorosa investigação social. Aqui não tem princípio de presunção de inocência não, senhor Deputado. Qualquer “ derrapada” na vida social tira o candidato do certame. Não somos escolhidos por agentes políticos. Somos independentes, como manda a Constituição. A Magistratura e o Ministério Público brasileiro, a que me refiro, merece, pois, absoluto respeito!
Desta forma, falar em “golpe” e envolver o judiciário nesta trama é, no mínimo menosprezar inteligência das pessoas.
Me causa total estranheza ver V. Exa. se referir às “elites” como posto em seu texto. Afinal o PT se aliou às “elites” para alcançar o poder. Foram integrantes da ala da “elite” mais elevada deste país que proporcionaram o desvio de dinheiro público em benéfico não só do partido, mas daqueles que já estão condenados ou sendo processados. Basta verificar as doações para campanhas eleitorais passadas. Então a “elite” que abastece de recursos, é a mesma elite “golpista”? Não há uma gritante incoerência na sua proposição? Não há uma incoerência ideológica por parte daqueles agentes políticos e públicos já condenados ou processados, que pregam distribuição de renda, mas se enriquecem às custas do trabalho alheio das “elites” através do achaque? Este comportamento é moralmente aceitável? Para mim isso tem uma definição: bandidagem!
Me desculpe a franqueza, senhor Deputado, mas Lula, assim como aqueles que já estão condenados e aqueles que estão sendo processados, não estão nem aí para o Estado Democrático! De fato querem poder. Só poder. Poder eterno sobre tudo e todos.
E poder a todo custo é sinônimo de tirania! Basta! Basta! Basta!
Quem conhece realmente história sabe muito bem que os criminosos anistiados do passado, não praticaram ações violentas em nome de democracia, mas para imporem o regime que entendiam ideologicamente adequado. Ditadura! Igualmente ditadura!
Ainda que compreenda seu alinhamento político partidário, senhor Deputado, não se permita, em homenagem à sua história de vida, descer ao nível da excrescência das mentiras deslavadas, como as protagonizadas publicamente pelo ex-presidente Lula, e tantos outros, desprovidos de dignidade e decoro, sustentando o insustentável.
Desejo ao senhor e sua família um Ano Novo abençoado.
Que sua luta seja de fato pelo povo e não por pessoas!”

CONTEÚDO, MEU REI!

Por Aninha Franco*

 

 

Você está pobre agora, mas pode ganhar na mega sena da virada e será milionário na próxima semana. Você está desempoderado agora, mas se descobrir um discurso político, um “pior não fica” de Tiririca ou um “nóis contra eles” de Lula, chegará ao Poder sem a menor condição de ser político e se aproveitará disso longamente. Você só não pode ganhar conteúdo na mega sena ou inventar que tem conteúdo sem ter, o patrimônio mais sólido de um humano porque nunca desmancha no ar.

Ok que no Brasil quem tem conteúdo e depende dele pra sobreviver está frito. Mas isso define a situação do Brasil. Só num país sem conteúdo um condenado por corrupção faz campanha para voltar ao Poder que o condenou e um presidente da República continua no cargo depois de duas denúncias concretas por corrupção. O Brasil sabe o que significa corrupção, definição que se guarda se há conteúdo, patrimônio construído ao longo de décadas de humanização, a partir da infância? Poucos brasileiros. A humanização, conhecimento das criações humanas em outros momentos e culturas, desde que os Sumérios criaram o alfabeto para registrar a contabilidade, e registraram o poema Gilgamesh, é rala no Brasil.

Constrói-se conteúdo conhecendo a poesia de Homero e as obras da Filosofia e Dramaturgia gregas, Platão, Aristóteles, Sófocles, Eurípedes. Como pensar empoderamento feminino sem ter lido Antígona e Medeia algumas vezes? Como desfrutar hedonisticamente do prazer desconhecendo Petrônio e Cícero? Lendo Os 120 Dias de Sodoma de Sade, aos 19 anos, recebi uma aula precisa sobre a espécie humana. E como ter conteúdo não basta, e é preciso saber usá-lo, lembro que disse ao meu professor francês, na Maison de France, nos Anos 1970, que ele falava demais de Napoleão Bonaparte, mas do Marquês de Sade, mais interessante, ele jamais falava, e fui expulsa da sua sala de aula para sempre. – Pour toujours! Lembro dele gritando.

Fui embora da Maison de France e continuei construindo conteúdo noutras plagas. Li os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido de Proust e quase tudo de Huxley nas aulas de Direito da UFBA. E como era difícil ter esses livros na época! Quando comecei a ler Hannah Arendt n’As Origens do Totalitarismo, a edição em três volumes da Ed. Documentário, de 1975, ainda, e encontrei a continuadora dos gregos no século 20, fui atrás de tudo que ela escreveu.

O conteúdo, construção diária e pessoal que ninguém pode fazer por ninguém, fortalece o coletivo, por isso o conteúdo é combatido com veemência pelos colonizadores. E por aqueles que não o têm. Porque quem tem, tem, quem não tem, nunca terá. E as diferenças entre os que têm e não têm são gritantes. Daí os ataques. Milhares de pessoas morreram para proteger o conteúdo. Na Rússia, o conteúdo produzido para denunciar Stálin foi memorizado nos cérebros, porque nenhuns outros lugares eram seguros. O romance O Mestre e Margarina de Mikhail Bulgakov foi guardado no cérebro do autor até o dia da revelação.

A qualidade depende do conteúdo. A qualidade da democracia ou do cardápio de um restaurante dependem do conteúdo. Sem ele, um político ou um Chef podem ter qualidade, mas seus resultados serão sempre naifs. Ou inúteis. Ignoro quando o Brasil, um país sem conteúdo e alheio à Memória, à Arte e à Política mudará sua construção, mas é o que lhe desejo em todas as translações do Planeta Terra: Em 2018, Conteúdo, meu rei!

*Aninha Franco é escritora, pensadora, poeta, dramaturga, crítica, advogada e ativista cultural.

TEMPO, O CAPITAL MAIS VALIOSO, E CONSTELAÇÕES

Por Aninha Franco* 

 

 

 

Letícia Muhana me contou, em data imprecisa, na sua casa da Baía, que a Humanidade receberia uma “coisa” de resultados imprevisíveis. Algum tempo depois chegou a Era Digital, como um tsunami, dividindo os humanos em muito produtivos, nada seletivos e muito seletivos. Captei a chegada da Era quando entrei nas Lojas Americanas e vi, embolados, Callas, Buarque, cowboys, peles vermelhas do cinemascope, malas, molas, mulas, Fellini, Pasolini, Zé do Caixão, botas amarelas, feridas supuradas de mendigos falsos, ignorando que tudo isso era pouco diante do que estava por vir com a Digitabilidade Total. E me ensinei a conviver com ela para aplicar o único capital que me interessa, o Tempo, nos produtos certos.

Voltei às Lojas Americanas, recentemente, atrás dos Rolling Stones cantando Blues, e usei a panorâmica do olhar treinado para ver de perto, para ver melhor. Não tinha Rolling Stones, mas eu não vi mais nada. Assisti o Festival de San Remo, pela WEB, todo, e exultei com a qualidade da TV RAI na internet. Com os Artistas nele. Com Rita Pavone na platéia. Com Fiorella Mannoia no palco. TV que eu não assistia na TV há muitos anos! Voltei a comprar livros para ler, imediatamente, e não para guardar na estante: Uma história do samba, I, as origens de Lira Neto – autor que produz muita coisa boa em pouco tempo! Quelé, A Voz da Cor, escrito por Luana Costa, Janaína Marquesini, Felipe Castro, Raquel Munhoz, que me fez chorar.

Ainda não me dispus aos shows, e ao teatro, lugar onde, originalmente, se via, quase nunca vou porque se antes da Era Digital ele estava obrigado a ser original, inteligente e irrepetível, hoje, na Era Digital em que só ele é analógico, ele tem que ser tudo isso como no V século a.C.

Assistir Constelações de Nick Payne, dirigido por Ulysses Cruz com Marília Gabi Gabriela e Sergio Mastropasqua – assisti com Sergio, pode ser com Caco Ciocler – me provocou a vontade de escrever sobre criações. O texto do dramaturgo inglês é original e mixa as relações humanas velhíssimas com a física quântica, que ninguém sabe muito bem o que é, e que aparece no espetáculo, expondo a força do teatro, Arte que desvenda humanidade. Tudo mais é econômico: cenário, figurino, a música de Briamonte inspirada em Vivaldi, a iluminação de Quintiliano trabalham para não desviar o espectador da dramaturgia e dos atores, resultando num comentário comovente da existência, em tempo preciso.

E nessas criações tenho investido meu Tempo, único Capital que me faz avara, espectando, degustando, lendo, ouvindo, dividindo com vocês as que me capitalizarem, uma vez por semana, às sextas-feiras, a partir de hoje.

Serviço: Constelações está em cartaz no Tucarena, São Paulo, às sextas, sábados e domingos. Comprei Uma História do Samba e Quelé com Henrique Wagner, o livreiro delivery mais rápido de Salvador.

*Aninha Franco é escritora, pensadora, poeta, dramaturga, crítica, advogada e ativista cultural.

VOCÊ QUER MESMO DEIXAR O BRASIL? TEM CERTEZA?

Por Tania Menai*

 

 

Ontem recebi um email dando boas-vindas a um novo estudante na turma de pré-jardim de infância da minha filha, de quatro anos. Muitos pais responderam o email com mensagens acolhedoras e animadas – então o pai do novo menino escreveu de volta, agradecendo o carinho e enviando uma foto da família. Mas avisou: “sou o mais alto.” Ali estava uma família de dois homens negros e um lindo menino. Mostrei a foto para minha filha e disse: “este é o seu novo amiguinho da escola!” Ela sorriu, disse que ele parecia com um outro coleguinha, e voltou a brincar. Nós somos brancas – e judias. Nossa escola é pública. A combinação de três aspectos desse episódio provavelmente, e infelizmente, seria improvável no Brasil, ou pelo menos na Zona Sul carioca, onde fui criada: (1) escola pública, (2) um casal de dois homens negros, pais de um menino e (3) minha filha na mesma turma que ele. No entanto, moramos no Brooklyn, em Nova York. E a vida aqui é assim. Bem-vindo ao avesso do que você conhece. Há quase 20 anos cheguei em Manhattan para ficar três meses. Desde então, nunca fui abordada por tantos brasileiros de classe média (e de classe média alta) querendo deixar o Brasil, como nos últimos cinco meses. O que mais me choca? Não são os cidadãos mais humildes, aqueles dos quais já esperamos uma insatisfação concreta e uma busca por uma vida melhor, a qualquer preço. Tenho falado com pessoas na faixa dos 40 anos, com apartamentos (e que apartamentos!) próprios, carreira sólida, filhos na escola, carros na garagem. Pensam em largar tudo e trocar de país, para dar um futuro melhor para os filhos. A jornada de expatriação deles seria diferente da minha: cheguei com uma mala pequena, fiz um curso, que acabou em estágio, seguido de emprego, uma carreira como correspondente para a mídia brasileira, alguns livros, um Green Card. Nada foi planejado: vim jovem, sem nada a perder, tendo uma família sólida no Brasil, para onde sempre poderia voltar. Então decidi por essa cidade fértil, ao mesmo tempo difícil, onde você começa todos os dias comendo desafios no café da manhã. Nova York é tão internacional que só me senti mergulhando na cultura americana quando minha filha entrou para a escola e passei a conviver com outras mães: é tudo do avesso e de cabeça para baixo. Se por um lado amo não ter babá, por outro me arrepio com o mundo da pizza de um dólar no almoço, e entro em parafuso quando escuto que “beijos espalham germes”.

Sair da zona de conforto é sempre bom. Viver no país da meritocracia, do compromisso e da palavra, é uma delícia. Andar pela rua sem violência é uma dádiva. Aqui “as coisas funcionam” porque as pessoas funcionam. E mostrar um outro lado da vida para os filhos (e eu não estou falando da Disney, senhoras e senhores) é um privilégio. Um dos grandes aprendizados que meus pais me proporcionaram foi viver (sem eles) por dois meses em um kibutz em Israel, aos 17 anos. Eu trabalhava em uma fábrica de alimentos de soja (na época, o mundo desconhecia a soja; hoje, esse grão vale milhões): levantava às quatro da manhã, no inverno, e fazia de tudo. Um dia, um gerente me deu um balde e disse para eu tirar os resíduos de soja dos ralos. Perguntei a ele: “por que eu?”. Ele respondeu: “por que não você?” Esse foi um enorme aprendizado para alguém que nasceu num sistema Casa Grande/Senzala, que o Brasil cultiva até hoje, a ponto de ter se tornado invisível para a maior parte dos brasileiros. Se você tem porteiro, empregada, motorista, babá , folguista e despachante, pense antes de fazer as malas e tirar os filhos da escola, rumo ao exterior. Para sair do Brasil, você precisará rever alguns valores. Talvez seja bacana fazer estas perguntas para si, e para quem você estiver pensando em trazer consigo, antes de tomar a decisão de colocar sua mudança num container: 1. Qual cidade a que você se adaptaria melhor? Você encara neve e inverno de bom-humor? Gosta de competitividade? Prefere uma cidade tranqüila? 2. Qual a sua definição de sucesso? Ser o presidente de uma empresa ou poder chegar cedo em casa e jantar com os filhos? Fazer o que você ama sem ganhar muito ou se sujeitar a um trabalho desinteressante ou estressante para garantir um bom salário? Se você já tem uma carreira estabelecida no Brasil, é muito provável que  tenha de dar um ou dois ou três passos atrás em um novo país. Você está disposto a isso? 3. Caso você emigre para um país de língua estrangeira: você fala e escreve inglês? Você fala e escreve espanhol? Português é lindo, o Tom Jobim é famoso e as Havaianas já conquistaram o mundo. Mas a nossa língua, infelizmente, não nos leva muito longe. Sim, há exceções. Você pode trabalhar em empresas brasileiras. Ainda assim, o mundo em volta não fala português. 4. Você tem família no Brasil? Pais vivos? Eles precisam de você? Uma das tristezas de morar fora é ver nossos pais envelhecendo sem a nossa presença. Pense bem nisso. 5. Adaptabilidade é uma das maiores virtudes das “pessoas do mundo”. Qual a sua capacidade de se adaptar a novas rotinas e culturas? 6. Você é casado? Seu marido ou mulher são abertos a mudanças? Estão com a mesma vontade de emigrar? Vivem sem feijoada, futebol e churrasco? Há pessoas que não conseguem abrir mão de alguns hábitos, e têm dificuldade de enxergar as coisas boas do novo país. São os chamados “impermeáveis”: a cultura nova não entra de jeito nenhum. E isso é um problema gravíssimo, que pode acabar em depressão e isolamento. O Brasil, não posso esquecer, recebeu meus quatro avós, vindos da Alemanha, do Líbano e da Síria. Nessas duas gerações, nosso país deixou de abraçar levas de imigrantes para exportar gente mundo afora. Não se engane: todo mundo sente falta do pão de queijo, da afetividade, da música brasileira. A saudade, no entanto, termina, muitas vezes, na boca do guichê do consulado brasileiro, onde sempre falta uma cópia autenticada de um documento que não serve para nada. Escrevi um livro que reúne depoimentos em primeira pessoa de 23 brasileiros que se mudaram para Nova York. Eles vieram de todos os cantos e origens sociais, mas têm uma característica em comum: a persistência. Um deles, o fotógrafo Vik Muniz, ressalta que “não existe Shangrilá”. Mesmo emigrando, você vai reclamar de algum aspecto na nova morada. E, depois ou durante uma experiência no exterior, é importante devolver algo ao Brasil. Seja em forma de filantropia, de investimento que gere empregos, ou voltando para melhorar algo que pode ser aprimorado. Por fim: nunca espere que o governo (seja esta lástima atual ou qualquer outro) faça algo por nós ou em nosso lugar. Regra que vale para qualquer lugar do mundo. Mas, especialmente no Brasil, já aprendemos que isso é esperar demais.

* Tania Menai, jornalista brasileira, vivendo há 20 anos em Nova York.  Escreve para diversas publicações brasileiras e acaba de lançar a Anáma Films, para contar histórias de famílias. Seu livro “Nova York do Oiapoque ao Chuí – relatos de brasileiros na cidade que nunca dorme” está disponível também em e-book.

70 ANOS DE ‘ASA BRANCA’, O HINO DOS NORDESTINOS

Xilogravura de Luiz Gonzaga por José Lourenço

No dia 3 de março de 1947 Luiz Gonzaga gravava pela primeira vez nos estúdios da RCA, no Rio de Janeiro, a canção que ficaria imortalizada como hino dos nordestinos. Uma composição dele com o médico Humberto Teixeira, que passou dois anos para ser concretizada. A gravação foi acompanhada pelo grupo de Regional do Canhoto.
Ao fim do trabalho, Canhoto, líder do grupo, olha para Gonzaga e diz que a “letra era música para cego pedir esmolas”. Sai dos estúdios e zomba com um chapéu pedindo esmolas ao som da canção. Mal sabia Canhoto que Asa Branca iria ser um nos maiores sucessos da música brasileira.

Foram duas versões da música que virou referência e marca de um povo. A primeira foi gravada pelo próprio Gonzaga em forma de toada e logo fez sucesso, levando o artista pela primeira vez ao cinema, tocando a música no filme ‘O Mundo é um Pandeiro’.
Nesta época, Gonzaga já havia iniciado a transposição dos gêneros musicais nordestinos para a mescla com o choro carioca. Asa Branca foi essencial para preparar o terreno para o Baião, que seria gravado ano seguinte e viraria uma febre nacional.

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira em 1947 

O sanfoneiro logo percebe que uma repaginação poderia ser a saída para reinventar a toada. Talvez Luiz Gonzaga não imaginasse o tamanho da proporção que Asa Branca ganharia ao gravar um Baião com a mesma letra. Essa nova versão foi lançada três anos mais tarde, em 1950, num compacto que trazia ‘Paraíba’ do outro lado, o que aumentou ainda mais o sucesso, já que as duas canções ecoaram nas rádios e vitrolas do Brasil.
O professor e historiador Armando Andrade diz que a identidade do cantor se confunde com a letra de Asa Branca. Para ele a canção é marca registrada de Gonzaga. É nela que se misturam o homem, a música e seu povo. “A partir de Asa Branca o Brasil viu o drama através da voz do próprio nordestino. É dessas coisas que a poesia e a literatura conseguem fazer, transportar através da linguagem as pessoas a vivenciar a dor do outro” diz.
Outra característica marcante de Asa Branca é a saudade do amor perdido com o exílio forçado devido a seca. Se os clássicos traziam as guerras como o motivo da partida do homem e a promessa de volta para o grande amor, em Asa Branca, é a seca que expulsa o homem e a ave, numa metáfora que se estende à condição humana.
“Talvez aí resida a universalidade e aceitação pelo grande público, além de retratar a real condição das famílias nordestinas. A promessa da volta do homem para seu grande amor está presente desde a literatura grega, como a Odisséia. É um tema universal com que todos se identificam”, diz Armando Andrade.
A força de Asa Branca pôde ser vista em 2009, quando a Revista Rolling Stone Brasil, publicou uma lista com as 100 maiores músicas da história do país. Um honroso 4º lugar, ficando atrás de clássicos como Carinhoso, Águas de Março e Construção.
O tempo passou e Asa Branca segue inspirando artistas de outras gerações. Anderson do Pife, que mora em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, diz que enquanto estudante de música, acredita que a letra é parte de um método brasileiro de ensino de música popular. “Essa melodia composta por conjuntos e de fácil execução, traduz o início de uma trajetória musical para quase todos os que iniciam seus estudos com ou sem ajuda de profissionais da área”, diz.
Ele disse ainda que a música retrata poesia, cotidiano, paisagem e todo o referencial histórico do Nordeste. “Eis o hino do Nordeste e a primeira música que aprendi a tocar. Essa é a força que representa a Asa Branca em minha vida”, finaliza.

– Fonte G1 e Mário Flávio – Caruaru (PE)

LANÇAMENTO DO NOVO LIVRO DE VITOR HUGO MARTINS SERÁ HOJE EM IPIAÚ

O professor, cronista e contista Vitor Hugo Martins presenteia Ipiaú com mais uma obra literária. Desta vez ele traz a narrativa infanto-juvenil “Pepê Perguntador”, cujo lançamento acontece no final da tarde deste sábado, 11, no Bar Costelinha, localizado na Avenida Getúlio Vargas, em frente à Cesta do Povo. Em “Pepê Perguntador”, Vitor Hugo Martins brinca com a linguagem e nos conduz ao mundo da criança, com seus questionamentos e razões. A obra tem o selo da Via Literrarum Editora e conta com ilustrações e capa do artista ipiauense Jurnier Costa. Vamos lá, prestigiar. (José Américo Castro)