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TEMPO, O CAPITAL MAIS VALIOSO, E CONSTELAÇÕES

Por Aninha Franco* 

 

 

 

Letícia Muhana me contou, em data imprecisa, na sua casa da Baía, que a Humanidade receberia uma “coisa” de resultados imprevisíveis. Algum tempo depois chegou a Era Digital, como um tsunami, dividindo os humanos em muito produtivos, nada seletivos e muito seletivos. Captei a chegada da Era quando entrei nas Lojas Americanas e vi, embolados, Callas, Buarque, cowboys, peles vermelhas do cinemascope, malas, molas, mulas, Fellini, Pasolini, Zé do Caixão, botas amarelas, feridas supuradas de mendigos falsos, ignorando que tudo isso era pouco diante do que estava por vir com a Digitabilidade Total. E me ensinei a conviver com ela para aplicar o único capital que me interessa, o Tempo, nos produtos certos.

Voltei às Lojas Americanas, recentemente, atrás dos Rolling Stones cantando Blues, e usei a panorâmica do olhar treinado para ver de perto, para ver melhor. Não tinha Rolling Stones, mas eu não vi mais nada. Assisti o Festival de San Remo, pela WEB, todo, e exultei com a qualidade da TV RAI na internet. Com os Artistas nele. Com Rita Pavone na platéia. Com Fiorella Mannoia no palco. TV que eu não assistia na TV há muitos anos! Voltei a comprar livros para ler, imediatamente, e não para guardar na estante: Uma história do samba, I, as origens de Lira Neto – autor que produz muita coisa boa em pouco tempo! Quelé, A Voz da Cor, escrito por Luana Costa, Janaína Marquesini, Felipe Castro, Raquel Munhoz, que me fez chorar.

Ainda não me dispus aos shows, e ao teatro, lugar onde, originalmente, se via, quase nunca vou porque se antes da Era Digital ele estava obrigado a ser original, inteligente e irrepetível, hoje, na Era Digital em que só ele é analógico, ele tem que ser tudo isso como no V século a.C.

Assistir Constelações de Nick Payne, dirigido por Ulysses Cruz com Marília Gabi Gabriela e Sergio Mastropasqua – assisti com Sergio, pode ser com Caco Ciocler – me provocou a vontade de escrever sobre criações. O texto do dramaturgo inglês é original e mixa as relações humanas velhíssimas com a física quântica, que ninguém sabe muito bem o que é, e que aparece no espetáculo, expondo a força do teatro, Arte que desvenda humanidade. Tudo mais é econômico: cenário, figurino, a música de Briamonte inspirada em Vivaldi, a iluminação de Quintiliano trabalham para não desviar o espectador da dramaturgia e dos atores, resultando num comentário comovente da existência, em tempo preciso.

E nessas criações tenho investido meu Tempo, único Capital que me faz avara, espectando, degustando, lendo, ouvindo, dividindo com vocês as que me capitalizarem, uma vez por semana, às sextas-feiras, a partir de hoje.

Serviço: Constelações está em cartaz no Tucarena, São Paulo, às sextas, sábados e domingos. Comprei Uma História do Samba e Quelé com Henrique Wagner, o livreiro delivery mais rápido de Salvador.

*Aninha Franco é escritora, pensadora, poeta, dramaturga, crítica, advogada e ativista cultural.

VOCÊ QUER MESMO DEIXAR O BRASIL? TEM CERTEZA?

Por Tania Menai*

 

 

Ontem recebi um email dando boas-vindas a um novo estudante na turma de pré-jardim de infância da minha filha, de quatro anos. Muitos pais responderam o email com mensagens acolhedoras e animadas – então o pai do novo menino escreveu de volta, agradecendo o carinho e enviando uma foto da família. Mas avisou: “sou o mais alto.” Ali estava uma família de dois homens negros e um lindo menino. Mostrei a foto para minha filha e disse: “este é o seu novo amiguinho da escola!” Ela sorriu, disse que ele parecia com um outro coleguinha, e voltou a brincar. Nós somos brancas – e judias. Nossa escola é pública. A combinação de três aspectos desse episódio provavelmente, e infelizmente, seria improvável no Brasil, ou pelo menos na Zona Sul carioca, onde fui criada: (1) escola pública, (2) um casal de dois homens negros, pais de um menino e (3) minha filha na mesma turma que ele. No entanto, moramos no Brooklyn, em Nova York. E a vida aqui é assim. Bem-vindo ao avesso do que você conhece. Há quase 20 anos cheguei em Manhattan para ficar três meses. Desde então, nunca fui abordada por tantos brasileiros de classe média (e de classe média alta) querendo deixar o Brasil, como nos últimos cinco meses. O que mais me choca? Não são os cidadãos mais humildes, aqueles dos quais já esperamos uma insatisfação concreta e uma busca por uma vida melhor, a qualquer preço. Tenho falado com pessoas na faixa dos 40 anos, com apartamentos (e que apartamentos!) próprios, carreira sólida, filhos na escola, carros na garagem. Pensam em largar tudo e trocar de país, para dar um futuro melhor para os filhos. A jornada de expatriação deles seria diferente da minha: cheguei com uma mala pequena, fiz um curso, que acabou em estágio, seguido de emprego, uma carreira como correspondente para a mídia brasileira, alguns livros, um Green Card. Nada foi planejado: vim jovem, sem nada a perder, tendo uma família sólida no Brasil, para onde sempre poderia voltar. Então decidi por essa cidade fértil, ao mesmo tempo difícil, onde você começa todos os dias comendo desafios no café da manhã. Nova York é tão internacional que só me senti mergulhando na cultura americana quando minha filha entrou para a escola e passei a conviver com outras mães: é tudo do avesso e de cabeça para baixo. Se por um lado amo não ter babá, por outro me arrepio com o mundo da pizza de um dólar no almoço, e entro em parafuso quando escuto que “beijos espalham germes”.

Sair da zona de conforto é sempre bom. Viver no país da meritocracia, do compromisso e da palavra, é uma delícia. Andar pela rua sem violência é uma dádiva. Aqui “as coisas funcionam” porque as pessoas funcionam. E mostrar um outro lado da vida para os filhos (e eu não estou falando da Disney, senhoras e senhores) é um privilégio. Um dos grandes aprendizados que meus pais me proporcionaram foi viver (sem eles) por dois meses em um kibutz em Israel, aos 17 anos. Eu trabalhava em uma fábrica de alimentos de soja (na época, o mundo desconhecia a soja; hoje, esse grão vale milhões): levantava às quatro da manhã, no inverno, e fazia de tudo. Um dia, um gerente me deu um balde e disse para eu tirar os resíduos de soja dos ralos. Perguntei a ele: “por que eu?”. Ele respondeu: “por que não você?” Esse foi um enorme aprendizado para alguém que nasceu num sistema Casa Grande/Senzala, que o Brasil cultiva até hoje, a ponto de ter se tornado invisível para a maior parte dos brasileiros. Se você tem porteiro, empregada, motorista, babá , folguista e despachante, pense antes de fazer as malas e tirar os filhos da escola, rumo ao exterior. Para sair do Brasil, você precisará rever alguns valores. Talvez seja bacana fazer estas perguntas para si, e para quem você estiver pensando em trazer consigo, antes de tomar a decisão de colocar sua mudança num container: 1. Qual cidade a que você se adaptaria melhor? Você encara neve e inverno de bom-humor? Gosta de competitividade? Prefere uma cidade tranqüila? 2. Qual a sua definição de sucesso? Ser o presidente de uma empresa ou poder chegar cedo em casa e jantar com os filhos? Fazer o que você ama sem ganhar muito ou se sujeitar a um trabalho desinteressante ou estressante para garantir um bom salário? Se você já tem uma carreira estabelecida no Brasil, é muito provável que  tenha de dar um ou dois ou três passos atrás em um novo país. Você está disposto a isso? 3. Caso você emigre para um país de língua estrangeira: você fala e escreve inglês? Você fala e escreve espanhol? Português é lindo, o Tom Jobim é famoso e as Havaianas já conquistaram o mundo. Mas a nossa língua, infelizmente, não nos leva muito longe. Sim, há exceções. Você pode trabalhar em empresas brasileiras. Ainda assim, o mundo em volta não fala português. 4. Você tem família no Brasil? Pais vivos? Eles precisam de você? Uma das tristezas de morar fora é ver nossos pais envelhecendo sem a nossa presença. Pense bem nisso. 5. Adaptabilidade é uma das maiores virtudes das “pessoas do mundo”. Qual a sua capacidade de se adaptar a novas rotinas e culturas? 6. Você é casado? Seu marido ou mulher são abertos a mudanças? Estão com a mesma vontade de emigrar? Vivem sem feijoada, futebol e churrasco? Há pessoas que não conseguem abrir mão de alguns hábitos, e têm dificuldade de enxergar as coisas boas do novo país. São os chamados “impermeáveis”: a cultura nova não entra de jeito nenhum. E isso é um problema gravíssimo, que pode acabar em depressão e isolamento. O Brasil, não posso esquecer, recebeu meus quatro avós, vindos da Alemanha, do Líbano e da Síria. Nessas duas gerações, nosso país deixou de abraçar levas de imigrantes para exportar gente mundo afora. Não se engane: todo mundo sente falta do pão de queijo, da afetividade, da música brasileira. A saudade, no entanto, termina, muitas vezes, na boca do guichê do consulado brasileiro, onde sempre falta uma cópia autenticada de um documento que não serve para nada. Escrevi um livro que reúne depoimentos em primeira pessoa de 23 brasileiros que se mudaram para Nova York. Eles vieram de todos os cantos e origens sociais, mas têm uma característica em comum: a persistência. Um deles, o fotógrafo Vik Muniz, ressalta que “não existe Shangrilá”. Mesmo emigrando, você vai reclamar de algum aspecto na nova morada. E, depois ou durante uma experiência no exterior, é importante devolver algo ao Brasil. Seja em forma de filantropia, de investimento que gere empregos, ou voltando para melhorar algo que pode ser aprimorado. Por fim: nunca espere que o governo (seja esta lástima atual ou qualquer outro) faça algo por nós ou em nosso lugar. Regra que vale para qualquer lugar do mundo. Mas, especialmente no Brasil, já aprendemos que isso é esperar demais.

* Tania Menai, jornalista brasileira, vivendo há 20 anos em Nova York.  Escreve para diversas publicações brasileiras e acaba de lançar a Anáma Films, para contar histórias de famílias. Seu livro “Nova York do Oiapoque ao Chuí – relatos de brasileiros na cidade que nunca dorme” está disponível também em e-book.

70 ANOS DE ‘ASA BRANCA’, O HINO DOS NORDESTINOS

Xilogravura de Luiz Gonzaga por José Lourenço

No dia 3 de março de 1947 Luiz Gonzaga gravava pela primeira vez nos estúdios da RCA, no Rio de Janeiro, a canção que ficaria imortalizada como hino dos nordestinos. Uma composição dele com o médico Humberto Teixeira, que passou dois anos para ser concretizada. A gravação foi acompanhada pelo grupo de Regional do Canhoto.
Ao fim do trabalho, Canhoto, líder do grupo, olha para Gonzaga e diz que a “letra era música para cego pedir esmolas”. Sai dos estúdios e zomba com um chapéu pedindo esmolas ao som da canção. Mal sabia Canhoto que Asa Branca iria ser um nos maiores sucessos da música brasileira.

Foram duas versões da música que virou referência e marca de um povo. A primeira foi gravada pelo próprio Gonzaga em forma de toada e logo fez sucesso, levando o artista pela primeira vez ao cinema, tocando a música no filme ‘O Mundo é um Pandeiro’.
Nesta época, Gonzaga já havia iniciado a transposição dos gêneros musicais nordestinos para a mescla com o choro carioca. Asa Branca foi essencial para preparar o terreno para o Baião, que seria gravado ano seguinte e viraria uma febre nacional.

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira em 1947 

O sanfoneiro logo percebe que uma repaginação poderia ser a saída para reinventar a toada. Talvez Luiz Gonzaga não imaginasse o tamanho da proporção que Asa Branca ganharia ao gravar um Baião com a mesma letra. Essa nova versão foi lançada três anos mais tarde, em 1950, num compacto que trazia ‘Paraíba’ do outro lado, o que aumentou ainda mais o sucesso, já que as duas canções ecoaram nas rádios e vitrolas do Brasil.
O professor e historiador Armando Andrade diz que a identidade do cantor se confunde com a letra de Asa Branca. Para ele a canção é marca registrada de Gonzaga. É nela que se misturam o homem, a música e seu povo. “A partir de Asa Branca o Brasil viu o drama através da voz do próprio nordestino. É dessas coisas que a poesia e a literatura conseguem fazer, transportar através da linguagem as pessoas a vivenciar a dor do outro” diz.
Outra característica marcante de Asa Branca é a saudade do amor perdido com o exílio forçado devido a seca. Se os clássicos traziam as guerras como o motivo da partida do homem e a promessa de volta para o grande amor, em Asa Branca, é a seca que expulsa o homem e a ave, numa metáfora que se estende à condição humana.
“Talvez aí resida a universalidade e aceitação pelo grande público, além de retratar a real condição das famílias nordestinas. A promessa da volta do homem para seu grande amor está presente desde a literatura grega, como a Odisséia. É um tema universal com que todos se identificam”, diz Armando Andrade.
A força de Asa Branca pôde ser vista em 2009, quando a Revista Rolling Stone Brasil, publicou uma lista com as 100 maiores músicas da história do país. Um honroso 4º lugar, ficando atrás de clássicos como Carinhoso, Águas de Março e Construção.
O tempo passou e Asa Branca segue inspirando artistas de outras gerações. Anderson do Pife, que mora em Caruaru, no Agreste de Pernambuco, diz que enquanto estudante de música, acredita que a letra é parte de um método brasileiro de ensino de música popular. “Essa melodia composta por conjuntos e de fácil execução, traduz o início de uma trajetória musical para quase todos os que iniciam seus estudos com ou sem ajuda de profissionais da área”, diz.
Ele disse ainda que a música retrata poesia, cotidiano, paisagem e todo o referencial histórico do Nordeste. “Eis o hino do Nordeste e a primeira música que aprendi a tocar. Essa é a força que representa a Asa Branca em minha vida”, finaliza.

– Fonte G1 e Mário Flávio – Caruaru (PE)

LANÇAMENTO DO NOVO LIVRO DE VITOR HUGO MARTINS SERÁ HOJE EM IPIAÚ

O professor, cronista e contista Vitor Hugo Martins presenteia Ipiaú com mais uma obra literária. Desta vez ele traz a narrativa infanto-juvenil “Pepê Perguntador”, cujo lançamento acontece no final da tarde deste sábado, 11, no Bar Costelinha, localizado na Avenida Getúlio Vargas, em frente à Cesta do Povo. Em “Pepê Perguntador”, Vitor Hugo Martins brinca com a linguagem e nos conduz ao mundo da criança, com seus questionamentos e razões. A obra tem o selo da Via Literrarum Editora e conta com ilustrações e capa do artista ipiauense Jurnier Costa. Vamos lá, prestigiar. (José Américo Castro)

A VIDA DEPOIS DA VIDA

“A casa do meu pai tem muitas moradas”

Jesus Cristo

Lágrima de saudade não prejudica quem parte. O que prejudica, dificulta o desligamento, perturba o espírito que parte é a revolta, a blasfêmia contra Deus.• Evitar roupas escuras, ambientes taciturnos, pois estes comportamentos somente geram medo e maior dor aos envolvidos. Não é a cor da roupa que revela sofrimento, respeito ou ajuda e sim, oração sincera.

  • Velas e flores são exteriorizações de sentimentos, não fazem mal, mas não ajudam o desencarnado. O que ajuda são orações, o amor sincero, bons pensamentos, fé e certeza da continuidade da vida.
  • Como cada Ser tem um período de adaptação e um nível de evolução e compreensão do novo estado, convém esperar um tempo após o desencarne, para doar e se desfazer dos pertences pessoais daquele que partiu. Em casos explícitos de pessoas desprendidas da matéria, espiritualizadas, este tempo não é necessário, sendo muitas vezes, a vontade expressa daquele que se foi.
  • Todos os espíritos são auxiliados. Nenhum filho de deus fica desamparado. Mesmo os que tiveram uma vida encarnada desregrada, desde que sinceramente busquem auxílio.

Visita ao Túmulo:

A visita apenas expressa que lembramos do amado ausente. Mas não é o lugar, objetos, flores e velas que realmente importam. O que importa é a intenção, a lembrança sincera, o amor e a oração. Túmulos suntuosos não importam e não fazem diferença para quem parte.

Oração sincera aquieta a alma e eleva o padrão vibratório. Cria um estado intimo de serenidade facilitando o desprendimento e a entrada tranquila no mundo espiritual.

Avida continua sempre! 

Nossos amados não estão mortos. Apenas ausentes temporariamente.

O verdadeiro amor independe da presença. Por isto é eterno e une todas as pessoas que o partilham.

Aprendamos a viver. Para aprender a morrer. Temos um corpo físico para nossa caminhada de aprendizado na terra. Mas somos mais que um compacto de carne. Somos espíritos eternos, que vivem para sempre!

Autor Desconhecido

A VIDA É CHEIA DE SURPRESA E O MISTÉRIO ENVELHECE!

Mestre Álvaro Paulo de Santana

Mestre Álvaro Paulo de Santana

A querida e admirada amiga, professora Rodrigué, comunicou-nos o falecimento do seu amado pai com um lindo texto. Nossas condolências à família:

“Fez a travessia do tempo para o mundo dos Ancestrais, às dezoito horas dessa noite de sábado 27 de agosto na Cidade de Jequié, MESTRE ÁLVARO PAULO DE SANTANA, 100 anos de idade, um século a completar no próximo dia 21 de setembro de 2016.

MGSR- Papai o que me diz o Senhor, da vida?

Ele respondeu com outra pergunta: Hoje é que dia do mês?

MGSR- 28 de julho de 2016

“28 de julho… faltando para setembro, um mês, estou achando que o tempo está correndo bem, tudo está favorecendo o bem estar de todos nós, portanto nós não podemos fazer outra coisa a não ser seguir em frente… é… você completou muito bem: seguir em frente e celebrar a vida”.

É sábio! Em celebração dessa vida exemplar meu Pai ÁLVARO PAULO DE SANTANA segue em frente e nos deixa com saudades!

Nossa Gratidão!

Todos nós reunidos, filhas e filhos, noras e genros; netos e netas, dezenas de bisnetos e 1 tataraneta convidamos aos amigos, amigas e demais familiares para o seu velório com a celebração exequial seguida do sepultamento às dezesseis horas (16h00min) deste Domingo 28 de agosto”.

MARIA DAS GRAÇAS DE SANTANA RODRIGUÉ

MARIA DA GLÓRIA DE SANTANA

ÁLVARO PAULO DE SANTANA FILHO

DALVA SANTANA BERNARDES

MIRALVA SANTANA AMORIM

JOSÉ LUIZ SANTANA

MAÍSA SANTANA DA HORA

MARIA MADALENA SANTANA

ROQUELINA SANTANA

JOANELLE OLIVEIRA SANTANA

DEZ QUARTOS*

ze americoPoema de José Américo Castro**

 

 

 

 

 

Um pedaço de prazer e fome

Um retrato de amor e dor.

Um amor com sabor de sangue

Uma dor vestida de flor.

Dez QuartosDez quartos, dez camas,

Dez damas sem cavalheiros.

Dez gozos, dez beijos por dez cruzeiros.Dez Quartos2

Uma menina que outrora era esperta

Que outrora era bela

E agora sentada na pedra da porta

Com a marca da fome

Não olha mais longe

Não tem mais sonhar.

 

Só sabe esperar

Que qualquer passageiro,

Casado ou solteiro,

Lhe chame para o quarto

Lhe roube o agrado

E lhe dê dez cruzeiros.

Dez Cruzeiros

Um prato vazio e dez bichos no cio

Caem sobre ele

Pensando em matar suas fomes

Pensando em matar suas sedes.

 

Dez quartos ao descaso triste

Dez beijos ao desterro negro

Dez honras deslizam,

Dez damas à desgraça

Decidem que a graça

Não passa de dez cruzeiros…

 

*A improvisada rua dos Dez Quartos, sobre os barrancos da beira do Rio de Contas é a lendária zona de prostituição de Rio Novo, depois Ipiaú, até o início do verão de 1964 quando uma enchente de grandes proporções provocou a destruição de parte da cidade, até mesmo à igreja matriz de São Roque.

**José Américo da Matta Castro é jornalista, poeta e agitador cultural.

O TEMPO DO OBSCURANTISMO

Aninha FrancoAninha Franco*  – em Trilhas:

 

 

 

Nos últimos dias têm sido publicados textos interessantíssimos sobre esse tempo de 13 anos, quatro meses e 7 dias, que arrasou o pensamento brasileiro. Como pensar serve pra tudo, pra fazer política, pra criar arte, pra humanizar a sociedade, pra crescer, pra gerar emprego, pra votar, pra conter a violência, a carência de Pensamento naufragou o País. Nesta semana, a USP perdeu 40 posições no ranking das melhores universidades do mundo, a presidiária Suzane Richthofen, que matou a mãe por motivo torpe, saiu da prisão para festejar o Dia das Mães, a presidenta Dilma Rousseff declarou, publicamente, que os índios brasileiros morreram por falta de assistência técnica e alguns senadores da República afirmaram, repetidamente, que o impeachment conduzido pelo STF é um golpe. Por mais que essas coisas sejam consideradas normais, elas não são.

Como é possível ignorar que aqueles deputados que votaram pró e contra impeachment são o legislativo brasileiro que recebe bilhões em emendas parlamentares para fazer o Brasil? Como é possível esquecer que nos últimos treze anos, quatro meses e sete dias, o líder petista Lula da Silva, “pensador” do País atual, promoveu, repetidas vezes, a ideia de que não é preciso estudar para chegar ao poder? Por mais que essas coisas sejam consideradas normais, elas não são num país que respeite o Pensamento, princípio da sanidade pessoal e social.

Num Brasil que pense, se um de nós dissesse um terço do que a presidenta Dilma Rousseff disse, publicamente, nos últimos anos, estaria internado num manicômio. Num Brasil que pense, se um de nós recebesse a quantidade de dinheiro que Lula da Silva recebeu para fazer palestras, a Polícia e o Ministério da Fazenda já teriam nos prendido. Num País que pense, o desmonte da Petrobras, o desemprego de 11 milhões de brasileiros, o fomento da venda de milhares de carros a pessoas que não têm renda para consumir gasolina são indefensáveis. Num País que pense, um governo que usou dinheiro público para reformar a obra irretocável de Machado de Assis, tornando-a acessível à qualidade inferior de sua educação, não usaria o marketing de Pátria Educadora. Num País que pense, não se assistiria, sem reação, uma obra sob Domínio Público ser desvirtuada pelo governo incumbido de defendê-la.

Num País que pense, um governo não disseminaria a ideia de que um de seus mais importantes pensadores – Monteiro Lobato – é racista, nem proporia o aumento da ignorância espetacular da Região, uma das maiores do Planeta, excluindo a história da Grécia e de Roma dos seus currículos escolares.

Num País que pense, um governo não investiria bilhões em estádios de futebol em áreas que nem times no esporte têm, condenando ao apodrecimento por falta de manutenção sua mais importante Biblioteca.

Suportamos tudo isso porque somos um País que não pensa, um País que foi induzido a não pensar nos últimos 13 anos, 4 meses e 7 dias, mas eu espero que a partir de quinta-feira, volte-se a fomentar o Pensamento porque Pensar serve pra tudo, inclusive para resistir ao ataque mortal do obscurantismo.

*Aninha Franco é pensadora, escritora, advogada e teatróloga

HOMENAGEM A USTRA FEITA POR BOLSONARO É UM ATO DE GUERRA

Por Marcelo Godoy (O Estado de São Paulo, 20 de abril de 2016)

A homenagem do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra em seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff é um ato de guerra. O parlamentar – assim como o oficial por ele homenageado – acredita na doutrina que transformou a política em combate e que procurou expulsar da vida pública o dissenso. Formulada por autores franceses, como o coronel Roger Trinquier, ela virou uma coqueluche nos 1960, espraiando-se pelas academias militares do País. A guerra convencional se havia tornado obsoleta e a nuclear era, como dizia o general Octávio Pereira da Costa, “delirante” para os brasileiros.

Diante disso, os militares foram buscar entre os franceses a guerra moderna, a contrainsurgência. O conceito dizia que ela se tratava de uma “guerra interna de concepção marxista-leninista que visa a conquista do poder por meio do controle progressivo, físico e espiritual, da população sobre a qual é desencadeada”.

Contra isso, a ditadura militar criou em 1969 um órgão, depois chamado de Destacamento de Operações de Informações (DOI), e o pôs sob o comando do major Waldyr Coelho. Em 16 de janeiro de 1970 seus homens prenderam Dilma Rousseff, militante da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). A VAR foi um dos grupos guerrilheiros marxistas que pegaram em armas contra o regime. Queria derrubá-lo e fazer no País uma revolução socialista. Acreditava na ditadura do proletariado em oposição à burguesa. Os guerrilheiros de então pensavam que não tinham escolha entre democracia e ditadura. A opção, para eles, era outra: opor ao terror da ditadura a violência do oprimido, que libertava. O discurso retomava a antiga questão sobre a licitude de se matar o tirano ou o direito de resistir à opressão.

Em 28 de setembro de 1970, Coelho deixou o DOI. Foi substituído por Ustra, que lá ficou até o fim de 1973. Nesse período, pelo menos 50 pessoas foram mortas pelo órgão. O projeto Brasil Nunca Mais registra ainda 351 denúncias de tortura. Uma delas é a de Dilma. Em 21 de outubro de 1970 ela contou na Justiça que fora torturada. O homenageado por Bolsonaro ainda não comandava o órgão quando as sevícias ocorreram, mas trabalhava ali perto, no 2.º Exército.

A doutrina de Bolsonaro e de Ustra não diferenciou quem estava de armas nas mãos ou não contra o governo. Todo indivíduo que favorecesse seus adversários era um traidor e devia ser tratado como tal. Com a ajuda de infiltrados , como o agente Vinícius – o maior deles –, o DOI sequestrou e matou uma dezena de integrantes do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que sempre apostou na luta democrática contra a ditadura para derrotar o regime. Hiram de Lima Pereira era um deles. Seu crime? Distribuir o jornal clandestino Voz Operária. Morreu porque não quis trair. A guerra de Ustra e Bolsonaro não diferenciava quem carregava uma submetralhadora de quem apenas distribuía jornais. Jornal, palavra e panfleto eram armas assim como o revólver calibre 38.

A doutrina justificava a estratégia e as táticas militares em um Estado que tinha outras leis, que não as da selva. Ao sequestrar, matar e torturar, o DOI pôs o peso do Estado contra os opositores. Assimetria das forças transformou o combate em massacre e tornou os atos de Dilma diferentes dos de Ustra. Para Bolsonaro, a redemocratização apenas mudou a guerra. Por isso, para o deputado, a derrota de Dilma é a vitória de Ustra. E, assim, tornando-os iguais, o que se pretende é absolver o coronel.

QUANDO SARINHA ACORDAR!

Paula MidlejPor Paula Midlej (Adaptação do texto de autoria Adelia Prado)*

 

 

 

 

 

SARA É UMA LINDA MENINA AINDA MAL-ACORDADA.

SUAS PETÁLAS MAIS SEDOSAS AINDA ESTÃO FECHADAS,

DORMINDO DE BOM DORMIR.

QUANDO SARINHA ACORDAR,

VAI PEDIR VITAMINA NA XÍCARA DE PORCELANA PINTADA,

VAI QUERER MEL AOS GOLINHOS EM COLHERINHA DE PRATA,

DUAS HORAS VAI GASTAR FAZENDO TRANÇAS NOS CABELOS

ESTOU FAZENDO UM VESTIDO,

UMA TARDE LINDA E UM CHAPÉU,

PRA PASSEAR COM SARINHA,

QUANDO SARINHA ACORDAR…

Sarinha*Poesia que escolhi para as crianças – Ruth Rocha

De Paula Midlej, 9 anos, para Sara Midlej Pargas, 4 anos.